quinta-feira, 19 de março de 2015

Nevoeiro


A amargura é visível em cada palavra, em cada gesto, em cada movimento do seu corpo. A alegria que por vezes ainda surge na sua vida parece ter-se esvanecido no nevoeiro tão invulgar por aquelas paragens mas que nos últimos dias teima em aparecer todas as manhãs. Nevoeiro denso, daquele em que esperamos ver aparecer D. Sebastião ou no qual temos a sensação de nos perder a qualquer passo.

A saudade, a nostalgia e até mesmo a morte surgem na sua mente apesar de todas as tentativas em afasta-las. Não quer falar. Não quer ver ninguém e muito menos ter que ser simpática ou sorrir. Não hoje. Não como está…


Apesar disso, ou quem sabe se por isso mesmo, há sempre alguém a pedir a sua atenção. A fazer perguntas e exigir respostas. A vontade de os mandar a todos calar. De lhes dizer que a deixem em paz aumenta a cada frase proferida. Porque não se afastam todos? Porque não esquecem que existe e a deixam a sós consigo mesma? Hoje precisa disso. Necessita mergulhar no mais fundo do seu ser e perder-se. Perder o ser em que se transformou ou que a vida fez dela.

Um deserto. Uma serra distante. Um oceano sem fim, uma gruta profunda onde a única luz existente fosse a da esperança (se é que ainda existe alguma) seriam um bom lugar para onde ir. E não voltar!

Quer isolar-se. Afastar-se de tudo e de todos. Partir sem regresso. Ou ir e voltar diferente. Novamente criança, se tal fosse possível. Um novo ser do qual se pudesse orgulhar. Quer…

Não ter que pensar. Afastar as lembranças e as recordações que hoje queimam como gelo. Sentir o calor de algo que ficou perdido no tempo. Um amor? Um carinho? Uma vida? A indefinição da fonte de calor que procura aumenta o frio do gelo que a envolve e a queima.

Inconscientemente não quer estar assim. Conscientemente sabe que tem que sair do nevoeiro antes do sol aparecer. E ele vai aparecer! Mais cedo ou mais tarde o astro rei vai brilhar e devolver-lhe um pouco de calor. Tem que aparecer! Precisa e espera que isso aconteça. Não quer morrer. Não neste inferno gelado que hoje a envolve e do qual, apesar de tudo, quer sair.

As recordações surgem com a força e a nitidez que esperaria de um sol brilhante. Contundentes, atingem-na e fazem-na cambalear sem forças. Pudesse não lembrar. Conseguisse esquecer o que de mais profundo a fere e o dia seria diferente. Deseja a amnésia dos dias passados. Uma esponja que absorvesse todas as mágoas, todas as dores e que pudesse espremer apenas quando e como quisesse. Como seria diferente!

Não é que não queira recordar a dor. Não é que não se reveja no passado e não voltasse a viver intensamente cada segundo mas… Hoje não! Hoje não é um bom dia para mergulhar tão fundo no seu ser e sofrer. Hoje não…
Outros dias virão em que essa necessidade poderá surgir e nos quais a consiga abarcar. Outros dias, as mesmas dores. Outros sentimentos, outras cores...




Adelina Antunes

quarta-feira, 18 de março de 2015

Todos nós temos silêncios!



Nem sempre o silêncio é a ausência de som como nem sempre é preciso estar em silêncio para se sentir o silêncio. Pensar numa ilha deserta. No mar. Na imensidão do deserto. Numa sala completamente vazia pode ser uma imagem de silêncio. Uma noite calma no campo. Uma rua deserta na cidade. Tudo isto pode ser designado por “silêncio”. Mas este é um silêncio que nos rodeia. Um silêncio em que estamos inseridos. Em que, momentaneamente mergulhamos enquanto o nosso cérebro se mantém completamente ativo e, quem sabe, repleto de música, alegres canções ou melodias divinas e maravilhosas.


O “nosso silêncio”, aquele que todos temos, é no entanto algo completamente diferente. Não se manifesta pela ausência de sons sejam eles de que espécie for. Não se carateriza pelo facto de estarmos calados ou de estarem em silêncio à nossa volta. Não se prende em salas vazias do mesmo modo que não se encontra no deserto, no mar nem na montanha. É antes algo que está bem patente dentro de nós. Que nos fere de tal modo que somos incapazes de reagir. Que calamos porque não sabemos como definir ou porque não queremos que ninguém o conheça.

Silêncio que fere. Magoa. Tolhe o pensamento e amordaça a alma. Silêncio provocado pelas feridas que alguém nos provocou e das quais não nos conseguimos libertar. Pela culpa. Pela dor. Pela vergonha. Silêncios criminosos capazes de matar ao mesmo tempo que se mascaram com sorrisos. Palavras simpáticas. Atitudes mais ou menos corretas, mais ou menos cordiais, mas que aumentam a cada sorriso forçado. A cada palavra escondida. A cada gesto ou sentimento mascarado.

Porque há coisas que não deveriam acontecer. Pelas quais nunca deveríamos passar. Sentimentos que não merecíamos conhecer mas que nos forçaram a sentir…

E crescem os silêncios e com eles quantas vezes a raiva. A dor. A culpa. A vergonha. O ódio…

Todos nós temos silêncios. Todos nós merecemos a oportunidade de nos libertarmos desses mesmos silêncios. Grita-los ao mundo para que os oiçam e neles se revejam porque por muito nosso que seja. Por mais doloroso, angustiante, castrante… Há sempre alguém que já o sentiu. Que passou pelas mesmas dores e as calou. Que criou silêncios dos quais nem sempre tem consciência mas que o fazem sofrer. Que o isolam do mundo e da vida. Que precisa ser quebrado para que dele se possa libertar.

Todos nós temos silêncios mas temos também a capacidade de nos libertarmos. De procurar a música que os possa quebrar. Gritar se assim o quisermos ou se assim tiver que ser.

Não há silêncios fáceis. Não há silêncios belos. Não há silêncios de que nos possamos orgulhar mas também não há silêncios de que tenhamos que nos envergonhar.



Todos nós temos silêncios mas esses silêncios têm que acabar!




Adelina Antunes

terça-feira, 17 de março de 2015

Esclarecer para acusar


Para se poder julgar uma pessoa há que conhecer a realidade dos factos que se evocam. Não basta um conhecimento ligeiro. Uma interpretação pessoal. De preferência deve-se procurar o máximo possível de elementos de prova. Testemunhos. Documentos. Tudo quanto possa de algum modo contribuir para o esclarecimento da verdade.

Todos temos uma ideia de que os tribunais servem para acusar e defender. Todos desejamos que, quando um caso chegue ao tribunal, o Juiz seja imparcial. Ouça o máximo de testemunhas possível. Procure por todos os meios esclarecer a verdade para que, quando absolve a absolvição seja justa e quando condena o castigo seja merecido. Sabemos que nem sempre isso acontece. Para isso existem os recursos. Também sabemos que até os juízes são humanos, logo passíveis de erro. Não vou dizer que também podem existir alguns corruptos pois nãovem agora ao caso.

Quando se trata de questões públicas acabamos todos por formar uma opinião. Tomar um partido. Mesmo quando a verdade “vem ao de cima” podemos concordar ou não com a sentença. Mas reconhecemos a razão. Reconhecemos que a verdade foi procurada de modo a não restarem dúvidas. A nível pessoal é bem mais difícil esse reconhecimento. Temos tendência a formar opinião, julgar e condenar sem sequer darmos oportunidade de defesa. Sem solicitar esclarecimentos. Sem procurar provas do que consideramos ser uma verdade inquestionável.

Os mal-entendidos, as confusões, as meias verdades ou mesmo as mentiras, são o que mais contribui para as confusões e desentendimentos entre familiares e amigos. Famílias chegam a separar-se porque as acusações são muitas e os esclarecimentos nenhuns. Amizades acabam porque é fácil acusar mas muito difícil pedir explicações. Averiguar a verdade. E a mágoa aumenta. A dor impede que nos aproximemos de quem nos magoou a fim de perceber o que, de facto, se passou.

Surgem as acusações: Insensível. Sem sentimentos. Dura. Complicada… Corta-se o contacto. Desligam-se os telefones e, se por acaso nos cruzamos na rua, fingimos nem sequer ver a pessoa em causa. Mas se por acaso nos dirige a palavra, somos capazes de gritar. Acusar. Falar sem ouvir…

E tudo porquê? Um telemóvel que se desligou na hora imprópria. Uma frase que se disse e foi erroneamente interpretada. Um comentário que se ouve, por vezes através de outra pessoa. Qualquer coisa pode originar mal-entendidos. Mal-estar. Situações que nos levam a culpar e a acusar. Nem sequer nos lembramos que o telemóvel pode ter ficado sem rede ou sem bateria. Pensamos de imediato que nos desligaram a chamada “na cara”. Se nos dizem que o nosso companheiro tem outra, revoltamo-nos contra quem o diz. Acusamos essa pessoa, seja da família ou amiga, de ser uma falsa amiga. Egoísta. De nos querer mal. Nos estar a fazer sofrer de um modo insensível e cruel…

Dificilmente somos capazes de restabelecer a ligação e perguntar porque nos desligou a chamada. Ficamos! Calados. Sentidos. Magoados. Incapazes de pedir esclarecimentos mas capazes de comentar com terceiros que nos desligaram a chamada. Do mesmo modo que somos incapazes de perguntar a quem nos dá uma notícia daquelas porque nos está a dizer isso. No entanto exigimos saber quem é…

Deixamos que a relação termine. Doridos. Magoados. Revoltados e com a certeza de que fomos traídos. Afinal confiamos e revelou-se uma falsa. Uma impostora. Hipócrita. E tomamos a decisão de nos afastarmos dessa pessoa absolutamente indigna de confiança sem sequer nos tentarmos por no lugar dela. Sem pedir esclarecimentos. Completamente parciais vemos apenas o nosso lado. A nossa razão. E temos a absoluta certeza de estarmos certos. Afinal somos pessoas sinceras. Honestas. Incapazes de mentir, de dar maus conselhos ou fazer o que quer que seja que viole qualquer norma de amizade, educação ou boa conduta. Somos perfeitos, como todos deveriam ser.

Jamais seriamos capazes de dizer à nossa irmã ou à nossa melhor amiga que a chamada caiu por falta de rede só para que ela não se sentisse ignorada. Que o seu companheiro (ou companheira, caso se tratasse dum irmão ou de um amigo) tinha outra pessoa. Porque faríamos isso? Porque lhe diríamos o que, de uma maneira ou de outra acabaria por saber? Para a magoarmos? Para que se sentisse humilhada? Para que viesse a confirmar o que lhe dissemos? Não! Jamais faríamos isso. Jamais magoaríamos uma pessoa com uma verdade que acabaria por descobrir de outra forma. Jamais!

E porquê? Porque não é para isso que os amigos servem. Não é para nos ajudarem nas aflições. Nos fazerem ver as coisas como realmente são. Os amigos são para nos darem palmadinhas nas costas. Nos apoiarem. Nos dizerem que somos pessoas fantásticas e maravilhosas. Nos ouvirem sem dar opiniões nem conselhos. Estarem presentes e nos ajudarem a perceber situações dúbias das quais nem sequer os pomos a par…

Para que quereríamos uma amigo que nos fizesse ver a verdade? Que nos dissesse o que está certo quando, por qualquer motivo, não conseguimos ver? Para serem os primeiros a rir e a chorar connosco quando necessitamos? Não! Os amigos não servem para isso. Os amigos não nos devem magoar com as verdades nem dizer-nos o que não queremos ouvir. Não nos devem apoiar nas piores situações e muito menos estar ao nosso lado quando não temos mais ninguém. Nunca! Para isso temos…

Para isso temos…

… os amigos???

Adelina Antunes

Momentos




Há momentos na vida em que nos sentimos compelidos a falar sem que importe o que os despoleta. Uma frase. Uma pergunta. Um comentário ou apenas algo tão subjetivo como uma imagem ou recordação.

Há momentos em que discorremos sobre o passado, o presente ou o que sentimos sem ter em conta quem está ao nosso lado.
Há momentos em que tudo o que dizemos não é para ser respondido. Não é sequer para ser ouvido mas mesmo assim… falamos!


E dizemos algo há muito preso na alma e que nos faz sofrer.
Algo guardado no mais intimo do nosso ser e que não desejaríamos nunca dar a conhecer.

Apagar as palavras. Torná-las mudas e sem sentido. Impercetíveis e não sujeitas a qualquer resposta é a intensão imediata mas nem sempre possível.

Há palavras escritas que jamais se esquecem.
Palavras ditas que embora esquecidas, volta não volta, aparecem.

Há situações adversas que se mostram complexas, não pelos outros mas por nós.

Pelo que nos atrevemos a expressar sem querer.

Pelo que sofremos na expectativa do que iremos ouvir.

Há respostas que não surgem quando mais as esperamos.

Comentários que não são feitos por muito que os desejemos.
Há silêncios incómodos que se tornam perfeitos
pelo momento!

Pelo que dissemos e não deveria ser dito.

Pelo que expressamos sem querer.

Por imaginar que respostas poderíamos ouvir. Que comentários poderiam fazer.

As frases feitas. Os “eu bem te disse!” Os conselhos que não queremos, ora por incómodos, ora porque os conhecemos.

Há momentos que nos despertam para uma realidade diferente que nos leva a divagar por respostas possíveis, prováveis ou mesmo impossíveis e nos fazem pensar.

Sem julgarmos ou sermos indulgentes, culpamo-nos por factos ligeiros, banais, cruéis, destemidos, grosseiros ou superficiais que marcam a alma ainda mais que o futuro.

Sem advogado ou algoz. Sem defesa possível… Sem qualquer arbítrio ou direito a resposta. Sem pedir conselhos ou opiniões…
Impuníveis. Puníveis. Culpados ou inocentes. Apenas porque somos donos da verdade. Objetiva. Subjetiva. Seja ela qual for…

E as opiniões, os conselhos, as frases amigas. Tudo quanto poderia ser dito ou feito, perde a oportunidade, o momento e o jeito.

Talvez por receio. Talvez por respeito. Talvez por inoportuno ou por se acharem “sem jeito”.

Não falam. Não julgam. Não se manifestam…

Não apoiam. Não acusam. Não agridem nem contestam.

E a coragem que surgiu num momento tão raro, esvai-se no silêncio, no tempo e no espaço.

Na esperança de um sorriso. Um gesto. Um abraço. Uma frase que acuse ou nos diga inocente.

Algo que mostre que não ficou indiferente.



Adelina Antunes

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Vagalumes


Não há forma de explicar o que sente. As palavras teimam em não surgir e quando aparecem são de tal modo “enroladas” que tem a sensação de se tratar de uma qualquer língua estranha e ininteligível. Os pensamentos vagueiam por tempos e vidas distantes. Tão distantes que é impossível distinguir até que ponto foram ou são reais. A consciência de quem é ou onde está abandonou-o por completo e o esforço por se manter sóbrio é demasiado pesado para o conseguir suportar.

Há quanto tempo está assim? O tempo deixou de ser uma realidade e na utopia em que se transformou, não há horas. Não há dias, meses ou anos. Não há tempo! Diria que está ali há uma eternidade se soubesse como a medir ou se pudesse, pelo menos, ter noção do que isso é! Um segundo... Talvez seja esse o tempo que o distancia do que antes se passou. Um mísero segundo! Um infindável segundo que teima em não passar apenas porque a realidade deixou de fazer sentido. Não é por certo uma eternidade mas de certeza que é muito mais do que um segundo. Anos! Décadas! Seculos…

Como encontrar a palavra certa para definir onde está ou o que sente? O termo perfeito? Qual o dicionário que lhe mostrará o sentido da vida, não no todo, mas segundo a segundo. Milésimo de segundo a milésimo de segundo? Há dicionários para tudo. Por certo existirá um capaz de explicar o sentido de cada segundo mas não basta encontra-lo. Um dicionário é algo de absolutamente inútil até ao momento em que descobrimos que não é para ler. Um livro é sempre para ler, dizem! Mas um dicionário não! Não se lê um dicionário. Consulta-se! Não do mesmo modo que se consulta um médico, se estamos doentes. Um advogado se temos problemas com a justiça ou um padre se sentimos que a nossa vida se transformou num caos e que precisamos de ajuda para a “consertar”. 

Mas consulta-se.

Não se concertam vidas do mesmo modo que não se mede a eternidade. A esperança é de que estas possam ser mudadas. Alteradas na medida do possível ou ao sabor do desejável. Mudar de vida! Mudar de tempo e de lugar. Mudar de ser e de estar. Mudar! Mas não apenas por mudar… Renascer noutro tempo e noutro ser. Noutro espaço e noutro lugar. Noutra vida. Noutro tudo quanto possa existir. Renascer!

As possibilidades, no entanto, assemelham-se a pequenos vagalumes que passam e nem damos por eles. Ou damos! Vemo-los e perdemo-los tão rápidos que são. Apercebemo-nos da sua presença pelo brilho que emitem. É preciso estar no escuro para os conseguir ver. É necessário penetrar na escuridão para conseguir mudar!

Sente que há muito vagueia num universo escuro e caótico pelo que a mudança tem obrigatoriamente que estar para breve. Tem de ser este o momento certo. Apenas necessita ver a luz do vaga-lume antes que este se aproxime demasiado. Não pode perder a oportunidade de o deixar passar e é sabido o quanto são rápidos. Um milésimo de segundo. Ou menos! É o tempo de que dispõe para se aperceber da chegada do vaga-lume e de o agarrar. É obrigatório que esteja atento não vá dar-se o caso de o deixar passar. E são tão raros…

Há noites em que surgem em abundância. Em que parecem nascer ao nosso lado e vaguear à nossa volta. Seres volantes e brilhantes que nos encantam pela beleza da luz que emitem. E é esse mesmo encanto que nos faz permanecer a vê-los sem os conseguir alcançar! Não se agarram vagalumes pois o contacto com a nossa mão mata-os ou fá-los deixar de brilhar. Preferimos vê-los brilhar. Esvoaçar à nossa volta e seguir o seu caminho. Não se agarram vagalumes!

As oportunidades não são vagalumes! Surgem nas nossas vidas e dão-nos a oportunidade de as agarrar. Ou não! Um pequeno descuido. Uma desatenção mínima e passam sem que demos por elas. Mais tarde, quando pensamos na noite em que estivemos envolvidos, somos capazes de recordar como se apresentaram. Como as vimos e assistimos à sua passagem (qual vagalume).

As oportunidades não são vagalumes! Há que vê-las. Senti-las. Analisá-las e não as deixar passar!
Há que despertar do torpor em que por vezes mergulhamos e seguir em frente. Não importa quanto tempo durou, desde que consigamos acordar. Que interessa se o mundo mudou ou se somos nós a mudar? Há momentos na vida que não se podem perder. Que são demasiado importantes para se virem a esquecer… ou lembrar. Há momentos na vida aos quais não podemos fugir. Ainda que nos façam sofrer. Ainda que nos façam sorrir. Mesmo que nos façam amar ou odiar. São esses os momentos que nos levam a viver.


Adelina Antunes.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Como nasce uma amizade?



Será possível escolher quem queremos como amigo? Será possível obrigar alguém a gostar de nós? A fazer com que nos considere amigos?

Que nos queira ao seu lado. Acredite. Confie em nós e considere que somos dignos da sua amizade? Do seu companheirismo. De estar ao nosso lado, e querer-nos ao seu lado, em qualquer situação?

Será possível construir algo baseado em promessas. Cedências. Na entrega unilateral?

Poderá a amizade “nascer” apenas porque uma das partes assim o entende?

Não há forma de forçar uma amizade. Não importa quanto se tente. Quanto se entregue. Quanto se ceda. Por muito que se queira. Por muito que se esforce esta acontece ou não acontece. E quando acontece… é por si mesma!

Não é porque consideramos que alguém deve ser nosso amigo que entre nós surge, como que por magia, aquela confiança. Aquela entrega. Aquele sentimento de que, aconteça o que acontecer, estaremos juntos. A amizade constrói-se, é um facto, mas com base na confiança. Na cedência mútua. No companheirismo. Na não dependência.

A verdadeira amizade não pede. Não exige. Mas também não cede. Não pede que o amigo seja desta ou daquela maneira. Que faça isto ou aquilo só porque é amigo. Não exige assim como não cede só porque o “amigo” assim o quer. Um amigo é alguém especial que, mesmo quando não está connosco, sabemos que nos apoia. Ainda que também saibamos que, se for necessário, é capaz de nos repreender. Nos chamar à razão. Aplaudir-nos quando estamos certos mas os primeiros a dizer-nos quando estamos errados.
Alguém disse um dia que o amigo é o primeiro a estender-nos a mão quando caímos… depois de conseguir parar de rir. Na realidade aquele que, quando pára de rir é capaz de nos estender a mão, pode e deve ser considerado um amigo. Afinal ele não nos abandonou.

É compreensível e até razoável que o amigo seja o primeiro a criticar-nos. A contradizer-nos. A “dar-nos na cabeça” quando merecemos, pois é o amigo a pessoa que está em melhores condições para nos conhecer. Saber o que está certo e reconhecer o que está errado. Porque nos conhece. Porque se interessa. Porque se preocupa…

No entanto alguns (talvez muitos) de nós, não gosta de receber criticas. Ainda que vindas de amigos. Ainda que construtivas. Uma crítica, quando construtiva, ajuda-nos a crescer. A sermos mais nós próprios. A identificar o certo e reconhecer o errado. Claro que temos a família mas esta por vezes está demasiado envolvida. Demasiado próxima ou com demasiado medo de nos magoar.

Um amigo, um amigo de verdade é capaz de nos magoar? De nos fazer sofrer? É bom que seja! É bom que tenha amizade suficiente para saber quando deve ou pode magoar. E que tenha a presença de espírito que, por vezes, nós não temos.

Valorizar a amizade passa também por aí. Por saber que, mesmo quando nos magoa, o amigo o faz pelas razões certas. Pelas razões que, dado o nosso estado de espírito, não conseguimos ver ou não queremos aceitar.

Valorizar as atitudes dos que nos querem bem leva a que muitas vezes tenhamos que acreditar no inacreditável. A confiar no que não nos parece confiável.

Não é fácil, mas o que é que é fácil nesta vida? As dificuldades existem apenas e só para serem ultrapassadas. Sozinhos, sentimos muitas vezes que o desespero é a única opção. Sozinhos, perdemos o rumo demasiadas vezes. Sozinhos, sofremos não só pelo que nos consome, mas também pela solidão que nos envolve.

Não é fácil conquistar uma amizade e é, por vezes, demasiado simples perde-la!

Não é fácil aceitar críticas de amigos, mas é bem mais doloroso quando estas vêm de outros que mal nos conhecem. Que não compreendem, não entendem ou que desconhecem a nossa realidade.

Não é fácil manter uma amizade. Até porque muitas vezes ela está em quem menos esperamos. Naquele que nunca pensamos que pudesse ser nosso amigo.

Não se consegue forçar uma amizade. Mas devemos ser capazes de nos forçar a entender uma amizade. Saber quando ela é sincera e… procurar não forçar.

Não se fabricam amizades. Mas quando estas surgem… é algo mágico que devemos cultivar. Com os seus altos e baixos. Com as suas curvas e espinhos. Com amarguras, choros e abraços…

Mas sempre com muita amizade!



Adelina Antunes

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

"Des"Igualdade entre os sexos


Durante muito tempo, todos os dias dava uma vista de olhos pelo Correio da Manhã. Não sendo o meu jornal de eleição estava disponível no serviço e sempre acabava por ler este ou aquele artigo. Foi o que aconteceu com a notícia publicada por Helena Silva e João Oliveira a 12 de novembro de 2012, pg. 22, e que versava sobre poder paternal.

Um antigo deputado do PS teria que se sujeitar a testes de ADN para averiguação de paternidade.

Lembrei-me duma conversa com uma amiga a respeito da escolha de um tema para um trabalho da faculdade em que lhe sugerira a desigualdade entre os sexos. Estando ela a cursar uma licenciatura no âmbito do Serviço Social considerei que seria um tema interessante.

Se eu mencionar a Lei n.º 16/2007, de 17 de Abril, poucos saberão do que estou a falar mas se disser que trata da exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez, todos dirão que me refiro à lei do aborto. A mulher pode, até às dez semanas de gestação por opção e embora mediante determinadas condições, não concretizar a gravidez. Pode optar por não ser mãe (não falo aqui de situações em que a gravidez ocorre por violação). Este "poder" que a Lei confere à mulher garante-lhe uma tomada de decisão sem outros intervenientes. Sem que o parceiro (ou os pais nos casos de menores), tenham necessáriamente de ter conhecimento. Liberdade sobre o corpo e sobre o direito de decisão!

Um homem que seja confrontado com uma gravidez não desejada pode sempre dizer à mulher que não quer assumir a paternidade. Pode pedir-lhe que faça um aborto (pode impor-lhe dirão alguns). Pode pagar-lhe para fazer um aborto. Pode afastar-se. Pode ignorar a criança que vier a nascer… Mas a última palavra será sempre da mulher. Ou dos Tribunais!

Mais! Caso decida que não quer mesmo assumir a paternidade a mulher tem o direito de recorrer ao tribunal. E não adianta adiar. Pode demorar anos mas acabará por ser obrigado pelo tribunal a fazer o teste e a assumir um filho que não quis. Do qual nunca teve conhecimento. Que não desejou. Que tentou a todo o custo evitar…

Igualdade entre os sexos? 

Não contesto o direito da mulher optar por concretizar ou não uma gravidez indesejada! Não sou ninguém para julgar! No entanto, num mundo que se quer cada vez mais igual, onde está o direito do homem a optar? Quando é que ele tem o direito de decidir se quer o não ser pai. Se é ou não conveniente, naquela altura da vida, assumir tal responsabilidade?

Sem evocar razões específicas, as mulheres evocam as mais variadas desde as dificuldades económicas, uma relação problemática ou que findou, um caso furtuíto do qual não querem "testemunhos"... Não deveria o homem ter também o direito a pronunciar-se?

Num outro artigo, penso que também do Correio da Manhã e que foi o que inicialmente me alertou para esta situação, dizia o autor (e peço desculpas mas não me recordo do nome) que o homem também deveria ter direito de opção. Se a mulher tem até às dez semanas para decidir se quer ou não assumir uma maternidade que nem sempre surge na hora exata. Que nem sempre é desejada, também ao homem deveria ser dada uma oportunidade de se pronunciar. De decidir se quer ou não assumir uma paternidade que pode surgir na hora mais incómoda!

Claro que o tempo para se pronunciar deveria ser devidamente balizado. Bem legislado, acautelado, caso contrário poderia jogar contra e não a favor do seu interesse atendendo a que este tem conhecimento da situação pela mulher o que o pode colocar em desvantagem. Corre o risco de só ter conhecimento após as dez semanas contempladas na lei para que a mulher interrompa…

Num mundo em que as lutas pela igualdade entre os sexos se tem desenrolado ao longo dos séculos, é a Lei, feita maioritáriamente por homens, que dita uma das mais flagrantes desigualdades.

O que mais impressiona não é existir esta desigualdade mas sim o facto de  ninguém parecer dar por ela. Somos perfeitamente capazes de aceitar, compreender e apoiar uma mulher que decide não ser mãe e que opta pelo aborto. No entanto se é um homem a querer tomar a mesma atitude, não a parte do aborto mas sim a de não querer aceitar uma paternidade inoportuna, com a qual não contava ou que surge na altura imprópria, aí estão os tribunais para o obrigarem a aceitar. Ainda que sejam necessários os cada vez mais eficazes testes de paternidade.






Adelina Antunes