quinta-feira, 19 de julho de 2012

Eternas crianças

Ao entrar no autocarro fui confrontada com uns olhos abertos de expressão infantil e com uma mão que se estendia na minha direção, qual criança que clama pela atenção de quem se aproxima. Instintivamente o meu olhar percorreu os rostos mais próximos à procura de outro de não andaria longe. Lá estava. Por detrás desses olhos ansiosos, outros; velhos, cansados, emoldurados por um semblante de tristeza, um rosto enrugado e cabelos quase totalmente brancos.

Lembro-me delas há mais de vinte e cinco anos atrás. Um corpo adolescente com olhos de criança. Gestos em eterna procura, qual menininha que pretende alcançar algo que deseja. Já então a mãe tinha o ar cansado de quem leva pela mão um eterno bebé que, com o tempo, ganhou corpo de adolescente. Tal como na altura a mãe continua a levá-la pela mão. Tal como então não fala. Limita-se a pequenos trejeitos de boca e alguns gestos languidos como que querendo agarrar o que lhe surge pela frente. Os olhos continuam abertos, numa constante procura, no entanto o brilho que então ainda detinham já lá não está. O rosto apresenta algumas rugas. Os cabelos começam a ficar grisalhos. O corpo, agora de adulta, parece ter dificuldade em obedecer. Desder do autocarro revela-se uma aventura difícil de ultrapassar. Mas lá seguem as duas. A mãe, com idade de ser avó, leva pela mão a filha com idade de ser mãe mas que, mentalmente, continua a ser um bebé!

Não pude evitar um estremecimento! Por muito amor que uma mãe consiga dedicar a uma filha com deficiências profundas, até quando conseguirá aguentar? Que é feito da vida destas duas pessoas? O que será da criança em corpo de adulta, que não fala, que não dispõe de qualquer autonomia quando aquela mãe lhe faltar?

Num mundo em que a esperança de vida continua a aumentar, as instituições de solidariedade social são cada vez mais o apoio destas pessoas. A família, à força do cansaço de cuidar de um bebé que vai adquirindo corpo de criança, adolescente, adulto, vai sentindo as forças esvaírem-se. No entanto continuam ali! De pedra e cal! Quantas vezes deixando de lado a sua própria existência…


Adelina Antunes



(Destak 19-07-2012)





domingo, 8 de julho de 2012

O valor da amizade



Ontem, por motivos que não interessa aqui descortinar, foi um mau dia para mim! Ao fim da tarde, quando cheguei a casa, sentimentos contraditórios me invadiam, na sua maioria sentimentos desagradáveis. 

Funestos, diria!

Por uma questão mais de hábito do que propriamente por ter algo para fazer, liguei o computador e de imediato me liguei à Internet. Arriscaria dizer que é um habito que todos estamos a adquirir. Chegar a casa e ligar-se à “rede” maior ou menor, todos têm um grupo de amigos que, mesmo não estando presentes fisicamente, nos apoiam nos momentos difíceis…

Procurei músicas que evidenciassem o meu estado de espirito!

É outro dos hábitos que a Internet nos está a implementar… o que quer que sintamos já foi cantado ou musicado por alguém e é fácil deixarmo-nos arrastar por uma torrente de sentimentos que, não sendo exatamente a nossa, nos representa tão bem!

Outra das fantásticas coisas que a Internet nos proporciona são os chamados “chats” que nos permitem, à distância de um clic, termos alguém com quem falar, com quem partilhar emoções, sentimentos, trocarmos opiniões ou simplesmente pôr a conversa em dia sem necessidade de mais nada! 

Apenas um clic!

Devo dizer que não estava à espera de ver , ou sentir, nenhum clic! No entanto, poucos minutos após ter divulgado a música que mais evidenciava o meu estado de espirito, alguém apareceu!....

Os amigos têm uma particularidade!

Perceberem o que sentimos e levarem-nos a recônditos do nosso espirito que nos ajudam a esquecer o que nos magoa! 

Alguns são mesmo fantásticos no modo como conseguem pôr-nos a falar de coisas que não podem de modo nenhum fazer parte do que nos preocupa, levando-nos assim a divagar por outras questões que, se não resolvem o problema inicial, abrandam-no, nos obrigam a esquecê-lo, a menorizá-lo e a dar atenção a outros fatores que, na altura, estariam num plano infimamente secundário…

Apesar de não poder dizer que tenho muitos amigos, devo um agradecimento especial a dois. Pela sua atenção, pela perspicácia com que me abordaram e me levaram a avaliar questões que, nesse momento, para mim não tinham a mínima importância. Cada qual me abordou de forma diferente! Ambos me questionaram sobre temas que, sabiam, eu não hesitaria em responder...

Não sei até que ponto se aperceberam do quão mal e necessitada de ajuda eu estava! Mas uma coisa eu sei!

Tenho uma divida de gratidão para cada um deles! Tanto ele como ela me fizeram pensar em problemas que ultrapassavam de longe os que naquele momento me atormentavam.

Tanto um como outro, com métodos completamente diferentes me fizeram ver uma outra realidade para além da que naquele momento teimava em fazer de mim a pessoa mais infeliz do mundo…

É bom ter amigos! 

Amigos que são capazes de nos apoiar; de nos contradizer; de nos chamar a atenção para os nossos erros, sempre que os detetam; de nos disponibilizar um ombro amigo quando necessitamos de chorar ou de nos aplaudir quando as nossas atitudes merecem reconhecimento…

É bom ter amigos! Sempre, em qualquer situação!

Obrigada, por serem meus amigos!

AA

08-07-2012

(Resumo no Destak 05-09-2012)