sábado, 1 de setembro de 2012

Tempo para sofrer



Na realidade dos nossos dias tempo é uma coisa que quase ninguém possui. 

Não há tempo para os filhos. 

Não há tempo para os idosos. 

Não há tempo para nos divertirmos. 

Não há tempo para vivermos as nossas dores, os nossos medos, fazer os nossos lutos.

Quando perdemos alguém há sempre quem nos aconselhe a esquecer. A seguir em frente. “A vida continua”, dizem. É preciso reagir, dizem, mergulhar no trabalho, divertir-se com os amigos. Ignorar a dor até que esta se canse e desapareça de vez! 

A voz do povo, que muitos dizem ter sempre razão, garante que o tempo tudo apaga! Que com o tempo a dor diminui acabando por desaparecer. 

Puro engano! 

A dor tem que ser vivida!

Só sofrendo, chorando, desabafando o que há a desabafar, desesperar se for caso disso é que esta acabará por ir diminuindo até se transformar numa suave recordação...

Os anos passam mas o tempo não esquece / e a cada dia a dor amanhece  e ao amanhecer está cada vez mais forte.

Mais viva. 

Mais dolorosa pois em vez de diminuir aumenta com o tempo. 

Uma dor não sofrida, um luto não chorado, aumenta com as pequenas dores, os pequenos lutos que se vão acumulando com o tempo e transformando-os em algo cada vez maior. 

Não há prazo para sofrer! 

Não há um tempo útil para se viver uma dor...

Cada um terá o seu tempo próprio. 

O seu modo de vivenciar uma perda. 

Cada qual encontrará o modo como encarar os seus medos, as suas dores, os seus lutos... o que não adianta é adiar a dor. 

Adiar o choro, o desespero. 

Nada cura a dor a não ser a própria dor. 

Não pensar em alguém que partiu, que morreu, não vai fazer com que o esqueçamos. 

Vai, isso sim, alterar as recordações que guardamos na memória.

Transformá-las...

Aumentá-las...

Até ao momento em que um pequeno descuido... 

Um pormenor insignificante... 

Algo que vemos, ouvimos ou mesmo até que pensamos, as vai fazer ressurgir... 

Mais fortes, transformadas, vivas!...

E aí o sofrimento será bem mais doloroso!

AA
01-09-2012

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