quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Voltarmos a encontrar-nos...




A vida é algo que não pedimos. Que não quisemos. Algo que nos foi dado e que nos exigem que aceitemos.

O nascimento de uma criança é sempre um acontecimento feliz, dizem! Se isso é de facto verdade, porque é que o primeiro sinal de vida é o choro? Porque é que nascemos a chorar? Por vezes um choro pouco sentido. Suave. Quase sempre um choro aflitivo. Desesperado! Nos casos em que não há choro. Nos casos em que este é suave, quase sempre as coisas não estão bem. Quase sempre os problemas acontecem...

A vida não é fácil! Se fosse não teríamos que lutar por ela dia a dia ! Por alcançar a tão desejada felicidade! Por viver… Ainda que simplesmente por viver!...

A vida é feita de encontros e desencontros. De coisas boas e de coisas menos boas. De surpresas agradáveis e desagradáveis… 

Mas continuam a dizer-nos: “Fica bem!” “Sê feliz!”

Sê feliz!

Alguém conhece a fórmula para alcançar a felicidade?

Alguém porventura pode dizer, com toda a plenitude, que é feliz?

Na maioria dos casos poderão afirmar que sim. Que, na generalidade, são felizes! Mas… é a felicidade total alcançável? “Sê feliz!” "Encontra a felicidade"! "Não penses nisso" (seja isso o que for)!

A vida é repleta de encontros e desencontros. Encontramos amigos. Trabalho. Locais maravilhosos que nos fazem sentir no paraíso… Alegrias. Ternura. Amor... E encontramos sofrimento. Amargura. Solidão. Dor!

Há coisas que não queremos perder nunca! encontrar. Mas também há as que desejamos nunca encontrar! Há surpresas maravilhosas. E há aquelas que desejaríamos nunca ter. 

A vida é algo que vamos construindo no intuito de que o dia de amanhã seja melhor do que o de hoje…

Porquê? O de hoje foi assim tão mau? Precisa assim tanto de ser mudado? O que é que está errado? O que é que queríamos ter feito que não fizemos? O que é que, afinal, queremos mudar? Tudo? Só uma parte?

Nunca estamos satisfeitos com o que temos. Essa é uma realidade! Mas, no fundo, nem sequer sabemos bem o que queremos. O que precisa ser mudado. O que mudaríamos se nos fosse dada a oportunidade… 

Mudar de emprego! Mudar de vida! Mudar a forma de ser. De pensar. De agir. Mudar… mas mudar de um modo que seja absolutamente controlado. Que não nos faça sentir a mudança. Que, no fundo, nos mantenha tal qual como somos. Como estamos. Como vivemos…

A vida é algo que nos foi dado sem que tivéssemos pedido! Não pedimos para nascer! Mas… uma vez que nascemos. Uma vez que a temos, habituamo-nos a ela! Queremos tê-la! Agarrá-la. Mantê-la! Controlá-la! E, no fundo, conservá-la!... Tal como está! Tal como é! De tal modo que nos permita manter a nossa zona de conforto. De paz. De serenidade! De estabilidade!

Se para isso temos que nos queixar dessa mesma vida. Do modo como corre. Como nos faz sofrer. De como nos sentimos infelizes… Fazemo-lo! Queixamo-nos! Zangamo-nos! Revoltamo-nos contra a vida. Contra os Homens e contra o mundo…. Contra as injustiças. Contra os governos. Contra as burocracias. Contra as idiossincrasias… Contra nós próprios!

De todas as dores. De todas as alegrias. De todos os amores. De todas as fantasias… nos vamos cansando.  Vamos querendo mudar.

Todos os encontros. Todos os desencontros. Nos fortalecem. Nos fazem continuar.

De tudo o que vivemos. Ganhamos ou perdemos. De tudo o que fica. De quanto queremos esquecer… aprendemos algo que nos ajuda a viver…

De tudo o que perdemos e não queremos encontrar. De tudo o que temos e não queremos perder...

Há algo que devemos sempre conservar. Algo que, se perdermos, devemos procurar..

Não nos perder a nós próprios! Mas se o fizermos... voltarmos a encontrar-nos...





AA

31-10-2012

sábado, 27 de outubro de 2012

Uma tarde na MAC



Decidi tirar um dia para mim! 

Sair da rotina do trabalho. 

Mudar de visual… visitar alguns amigos e antigos colegas de trabalho…

Saí de casa e dirigi-me ao cabeleireiro. Quando disse que queria mudar radicalmente de visual a cabeleireira olhou para mim com ar de dúvida, mas lá atendeu o meu pedido…

Depois de um almoço agradável com uma pessoa que me é muito querida fui visitar o meu antigo local de trabalho. 

O motivo da minha visita era, essencialmente, entregar uns livros que me tinham sido encomendados mas aproveitei para visitar diversos serviços, cumprimentar algumas pessoas! “Matar” algumas saudades!…

Tinham-me prevenido que, por ser sexta-feira, muitos dos antigos colegas que gostaria de ver não estariam lá mas o dia não foi propriamente planeado. Aconteceu ser a uma sexta mas poderia ser outro qualquer dia da semana… 

Malgrado a situação porque que a Instituição está a passar neste momento, fui calorosamente recebida em quase todos os serviços. Por quase todas as pessoas. Se algumas apenas me cumprimentaram, outras abraçaram-me efusivamente! Disseram que gostavam de me ver. Que tinham saudades minhas! E senti sinceridade em quem o disse…

Também eu tenho saudades! 

Do trabalho que fazia. 

Do tempo que lá passei. 

Das amizades que por lá ficaram!

A vida continua e por vezes temos que tomar opções. Seguir em frente. Abraçar alternativas…

Mas quando, como agora, somos recebidos num local onde anteriormente trabalhamos de um modo tão carinhoso. Tão efusivo. Tão sincero… Faz-nos sentir que valeu a pena tudo quanto fizemos.

Nunca fiz nada para receber agradecimentos. Nunca fiz nada com intensão de vir a ser reconhecida...

O que fiz ou o que faço foi e será sempre porque gosto de o fazer. Considero que todos merecem ser ajudados. Tento fazer com que nunca ninguém fique sem resposta… 

Nunca prometi conseguir o impossível. Mas sempre me esforcei por o alcançar. 

Nunca prometi o que não podia fazer. Mas sempre tentei que fosse feito…

Neste momento posso dizer que valeu a pena! 

Tudo quanto fiz, valeu a pena! 

Valeu a pena estar presente quendo precisaram de mim! 

Valeu a pena ter uma palavra (muitas vezes só mesmo uma palavra) quando se me dirigiram…

Não sou ninguém nesta vida. 

Mas durante uma tarde, senti-me a pessoa mais importante do mundo!...


AA
27-10-2012

sábado, 20 de outubro de 2012

If I die



Recentemente escrevi um artigo sobre a eternidade no Facebook. A verdade é que cada vez mais utilizamos o Facebook e todas as facilidades que este nos dá, sem que muitas vezes as conheçamos muito bem. A propósito desse mesmo artigo comentava comigo uma amiga que teve que ser ela a cancelar uma amizade pois era-lhe doloroso continuar a te-la ativa depois do falecimento da pessoa em questão… Há data perguntava-me até quando continuaríamos vivos no Facebook …

Pois bem, numa manhã em que a vontade de trabalhar é escassa e em que decidi navegar um pouco à deriva pela Internet, encontrei uma solução que vem de encontro a esta minha questão. Uma aplicação que permite que, em caso de morte, esta seja conhecida pelo Facebook e pela comunidade de todos os nossos amigos virtuais!

Ninguém espera morrer. Ninguém quer despedir-se de tudo quanto tem. Tudo quanto espera vir a ter. Tudo quanto deseja ainda alcançar. Ninguém se encontra preparado. Ninguém se quer verdadeiramente preparar. Ninguém acha que será o próximo. Até porque isso significaria um pouco desligar-se da vida. Desligar-se da família. Desligar-se do futuro. 

No entanto a vida é o hoje. O futuro, além de incerto, não existe. Por muito que queiramos, por muito que tentemos, não o conseguimos alcançar. Adiamos projetos. Conjeturamos o que queremos vir a ser. A fazer. O que desejamos alcançar no futuro… 

E damos connosco a alcançar um eterno hoje. Um hoje que se atualiza. Que muda conforme as circunstâncias. Conforme as ocasiões. Conforme as vitórias, derrotas ou consequências do que fizemos ontem, mas que não passa disso mesmo. HOJE. Hoje é o nosso dia. Hoje concretiza a nossa vida. Resume, condensa, conserva o nosso passado. Molda, condiciona, direciona o futuro que se vai eternamente resumir a um hoje com passado. 

A utilização da aplicação em questão pode ser considerada um pouco mórbida! De mau gosto até. Mas se pensarmos que muitos de nós fazem testamentos. Que muitos querem ver as suas vontades cumpridas depois da morte. Que divulgamos aos nossos amigos virtuais desde os mais ínfimos sentimentos até aos nossos maiores anseios… A sua utilização ganha sentido.

Se nos preocupamos com a comunidade de amigos virtuais. Se contamos com eles nas ocasiões em que precisamos de emitir um desabafo. De celebrar uma vitória. De expressar os nossos sentimentos… Então a utilização desta aplicação é válida. 

Os mesmos amigos que estão ao nosso lado nas nossas pequenas e/ou grandes manifestações de alegria, de júbilo, de pesar ou de tristeza, adquirem assim o direito de se despedirem de nós. De saberem que deixamos de estar presentes, não porque quisemos. Não porque os abandonamos. Mas porque chegamos ao fim de uma etapa. 

Da etapa final…


AA
20-10-2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cem por cento verdade



Não se pode ser demasiado sincero

Não se pode ser cem por cento verdadeiro

Não se pode confiar cegamente nas pessoas

Não enquanto as não conhecermos bem. Enquanto as não conhecermos a cem por cento! 

Mas quando é que conhecemos alguém assim? Nunca, diria! Nunca sabemos até que ponto conhecemos as pessoas. Nunca sabemos até que ponto podemos usar a sinceridade com quem nos rodeia. Nunca devemos ser completamente verdadeiros. Nunca podemos confiar totalmente.

Porque a sinceridade destrói a amizade. A verdade assusta, magoa e nem sempre deve ser dita. A confiança é um pau de dois bicos que nunca sabemos quando será usada contra nós. Devem ser usadas com moderação. Devemos, antes de nos servirmos de qualquer uma delas, conhecer as pessoas. Saber qual a percentagem de cada uma que podemos utilizar. Até que ponto podemos ir. Quanto podemos dizer. Até onde a confiança nos deixa chegar…

Caso contrário seremos os primeiros a sofrer. Mas não os únicos! Seremos quem mais perde. Mas não os únicos! Seremos os levados a desconfiar. Mas não os únicos! Seremos o causador do sofrimento. Mas não os únicos!...

Ao não conhecermos cem por cento aqueles com quem somos sinceros, verdadeiros, aqueles em quem confiamos de um modo absoluto, corremos o risco de perder um amigo. De destruir o que apenas pretendíamos consolidar. De levar a que nos acusem de falsidade. De não acreditarem em nós. De perderem a confiança. De nos temerem…

Num mundo em que a sinceridade, a verdade e a confiança são bens cada vez mais raros, há que usa-los com moderação. Caso contrário, em vez de encontrarmos amigos…

Resta-nos a solidão!


AA
16-10-2012

domingo, 14 de outubro de 2012

Velhice



A esperança média de vida em Portugal ronda atualmente os 78 / 80 anos de idade. As condições de vida têm vindo, apesar de tudo, a aumentar comparativamente a décadas passadas. Hoje em dia ninguém se atreve a apelidar uma pessoa na casa dos setenta anos de idoso. Vemos cada dia mais exemplos de pessoas que com oitenta anos ou mais continuam a ser produtivas, capazes e competentes nas áreas em que se encontram integradas.

Não será altura de haver uma mudança de mentalidades? De paradigmas? De modos de encarar a vida, a idade e o modo como nos comportamos face ao futuro?

Ao atingirmos os quarenta anos estamos a meio de uma etapa. Mas estamos também a começar a etapa que poderá ser a mais consciente. A que mais facilmente controlaremos. Senão vejamos: Até aos cinco seis anos, somos completamente dependentes dos pais e dos familiares. Até aos dez, quinze anos, apesar da dependência se ir atenuando, continuamos limitados tendo talvez direito a algumas opiniões. Até aos vinte, salvo raras exceções, estamos condicionados pelos estudos. Pela frequência liceal e superior. Pelos vinte e cinco anos empenhamo-nos na procura de um emprego, que pode ou não ser definitivo, mas que convém conseguir pois entretanto começa-se a pensar em formar família. Suponhamos que com trinta anos, temos um emprego, uma casa e uma família… Começamos a nossa vida autónoma! As escolhas que fizemos, ou que não fizemos, as opções que tomamos, ou que não podemos tomar, as oportunidades que tivemos, ou que não conseguimos, condicionaram todos os nossos passos, claro. Mas consideremos que começamos a viver uma vida autónoma e responsável aos vinte e cinco / trinta anos…

Outros haverá que começaram mais cedo, claro! São normalmente os que tiveram menos oportunidades de optar e os que mais razões terão para se queixar quando chegarem aos quarenta…

Mas retomemos a nossa linha de pensamento. Com um início de vida (autónoma) aos vinte e cinco ou mesmo trinta anos, ao chegar aos quarenta vivemos cerca de quinze anos de autonomia! Quinze anos de uma vivência, adulta, consciente, responsável (ou talvez nem tanto), profissional…

Esperam-nos entretanto cerca de quarenta anos. Que não têm que ser de vida profissional, mas que podem, ou melhor, que devem, ser vividos de forma consciente. Que nos permitirão tomar as nossas próprias opções. Seguir os nossos próprios caminhos. Não vou dizer, viver o que ainda não vivemos pois tal não é possível. A vida só se vive uma vez e nada do que não tenha sido feito pode ser recuperado. Mas se não podemos recuperar o passado, podemos moldar o futuro. Nada nos impede de fazermos aquele curso que tanto queríamos. De optarmos por uma carreira, uma profissão ou um passatempo diferente.

Dir-me-ão que isto é uma utopia. Que com a crise em que vivemos tal nunca será possível. Não contesto, permito-me no entanto referir que, a maioria de nós, aos quarenta tem já condições que não tinha aos vinte e cinco…  Tem casa, um emprego, carro, um casamento mais ou menos estável, filhos que entretanto estão a crescer e a adquirir a sus própria autonomia… Tem conhecimentos que não tinha com aquela idade… tem vontade e muito mais certezas: Do que sabe. Do que quer. Do que espera do futuro. Da sua própria capacidade… Tem, acima de tudo, a certeza de que dali para a frente, e enquanto a saúde lho permitir, será cada dia mais autónomo. Mais independente…

É no entanto aqui que, a meu ver, surge a crise da meia-idade. Não é o facto de não ter conseguido o que queria. Não é o medo de já não o vir a conseguir. Não é o considerar que o tempo se esgota por entre os dedos que o faz temer…

É, isto sim, porque ganha consciência de que a sua autonomia está de facto a começar que os assusta… A luta por um emprego melhor ou para comprar “aquele carro” já quase terminou. As preocupações com os filhos estão a desaparecer pois estes começam a adquirir autonomia e independência. A economia doméstica começa a atingir um certo patamar de estabilidade…  

E o que resta? O que fazer daí para a frente? Como continuar a sentir que se é importante? Necessário? Insubstituível? Até quando vai continuar a ser o pilar da família? O suporte da casa?

São estas incertezas, ou melhor as certezas de que está a perder estas condições, que assustam. É o saber que cada dia depende mais de si próprio. Que cada dia vive mais para si próprio. Que está cada vez mais sozinho, que assusta. Assusta mesmo os mais temerários! O medo da solidão. Da rejeição. De já não ser útil. Necessário. Importante… Que leva os mais incautos a entrarem em crise. Em angústia. Em depressão. A pensar em suicídio.

É urgente uma mudança de paradigmas. É urgente repensarmos o modo como vemos os mais velhos. A terceira idade. Os idosos.

O que é a velhice? Quando é que podemos considerar que uma pessoa é velha? Idosa? Para que servem afinal os mais velhos? Os idosos? Para que iremos nós servir amanhã?

AA
Out. 2012