domingo, 14 de outubro de 2012

Velhice



A esperança média de vida em Portugal ronda atualmente os 78 / 80 anos de idade. As condições de vida têm vindo, apesar de tudo, a aumentar comparativamente a décadas passadas. Hoje em dia ninguém se atreve a apelidar uma pessoa na casa dos setenta anos de idoso. Vemos cada dia mais exemplos de pessoas que com oitenta anos ou mais continuam a ser produtivas, capazes e competentes nas áreas em que se encontram integradas.

Não será altura de haver uma mudança de mentalidades? De paradigmas? De modos de encarar a vida, a idade e o modo como nos comportamos face ao futuro?

Ao atingirmos os quarenta anos estamos a meio de uma etapa. Mas estamos também a começar a etapa que poderá ser a mais consciente. A que mais facilmente controlaremos. Senão vejamos: Até aos cinco seis anos, somos completamente dependentes dos pais e dos familiares. Até aos dez, quinze anos, apesar da dependência se ir atenuando, continuamos limitados tendo talvez direito a algumas opiniões. Até aos vinte, salvo raras exceções, estamos condicionados pelos estudos. Pela frequência liceal e superior. Pelos vinte e cinco anos empenhamo-nos na procura de um emprego, que pode ou não ser definitivo, mas que convém conseguir pois entretanto começa-se a pensar em formar família. Suponhamos que com trinta anos, temos um emprego, uma casa e uma família… Começamos a nossa vida autónoma! As escolhas que fizemos, ou que não fizemos, as opções que tomamos, ou que não podemos tomar, as oportunidades que tivemos, ou que não conseguimos, condicionaram todos os nossos passos, claro. Mas consideremos que começamos a viver uma vida autónoma e responsável aos vinte e cinco / trinta anos…

Outros haverá que começaram mais cedo, claro! São normalmente os que tiveram menos oportunidades de optar e os que mais razões terão para se queixar quando chegarem aos quarenta…

Mas retomemos a nossa linha de pensamento. Com um início de vida (autónoma) aos vinte e cinco ou mesmo trinta anos, ao chegar aos quarenta vivemos cerca de quinze anos de autonomia! Quinze anos de uma vivência, adulta, consciente, responsável (ou talvez nem tanto), profissional…

Esperam-nos entretanto cerca de quarenta anos. Que não têm que ser de vida profissional, mas que podem, ou melhor, que devem, ser vividos de forma consciente. Que nos permitirão tomar as nossas próprias opções. Seguir os nossos próprios caminhos. Não vou dizer, viver o que ainda não vivemos pois tal não é possível. A vida só se vive uma vez e nada do que não tenha sido feito pode ser recuperado. Mas se não podemos recuperar o passado, podemos moldar o futuro. Nada nos impede de fazermos aquele curso que tanto queríamos. De optarmos por uma carreira, uma profissão ou um passatempo diferente.

Dir-me-ão que isto é uma utopia. Que com a crise em que vivemos tal nunca será possível. Não contesto, permito-me no entanto referir que, a maioria de nós, aos quarenta tem já condições que não tinha aos vinte e cinco…  Tem casa, um emprego, carro, um casamento mais ou menos estável, filhos que entretanto estão a crescer e a adquirir a sus própria autonomia… Tem conhecimentos que não tinha com aquela idade… tem vontade e muito mais certezas: Do que sabe. Do que quer. Do que espera do futuro. Da sua própria capacidade… Tem, acima de tudo, a certeza de que dali para a frente, e enquanto a saúde lho permitir, será cada dia mais autónomo. Mais independente…

É no entanto aqui que, a meu ver, surge a crise da meia-idade. Não é o facto de não ter conseguido o que queria. Não é o medo de já não o vir a conseguir. Não é o considerar que o tempo se esgota por entre os dedos que o faz temer…

É, isto sim, porque ganha consciência de que a sua autonomia está de facto a começar que os assusta… A luta por um emprego melhor ou para comprar “aquele carro” já quase terminou. As preocupações com os filhos estão a desaparecer pois estes começam a adquirir autonomia e independência. A economia doméstica começa a atingir um certo patamar de estabilidade…  

E o que resta? O que fazer daí para a frente? Como continuar a sentir que se é importante? Necessário? Insubstituível? Até quando vai continuar a ser o pilar da família? O suporte da casa?

São estas incertezas, ou melhor as certezas de que está a perder estas condições, que assustam. É o saber que cada dia depende mais de si próprio. Que cada dia vive mais para si próprio. Que está cada vez mais sozinho, que assusta. Assusta mesmo os mais temerários! O medo da solidão. Da rejeição. De já não ser útil. Necessário. Importante… Que leva os mais incautos a entrarem em crise. Em angústia. Em depressão. A pensar em suicídio.

É urgente uma mudança de paradigmas. É urgente repensarmos o modo como vemos os mais velhos. A terceira idade. Os idosos.

O que é a velhice? Quando é que podemos considerar que uma pessoa é velha? Idosa? Para que servem afinal os mais velhos? Os idosos? Para que iremos nós servir amanhã?

AA
Out. 2012

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