segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Noite de consoada



Lembro-me do Natal de criança!...

Durante o dia a azáfama era muita. Apanhar o pasto para os animais. O musgo para a construção do presépio… 

Já se senti a o cheiro a fritos e ainda eu, a minha mãe e irmãos andávamos a trabalhar. A preparação para a consoada começava no final do dia. Depois de todo o trabalho feito. Dos animais tratados. De assegurar o pasto para lhes dar no dia seguinte…

Só à noite se começavam os preparativos. A minha mãe e a minha irmã mais velha tratavam da cozinha e das sobremesas. Aletria. Rabanadas. Arroz doce. Bolinhos de gerimum…

O meu pai e os mais pequenos faziam o presépio. 

Antes ainda tínhamos que apanhar o musgo, mas essa era uma aventura de que gostávamos. Sabíamos onde o procurar. Sabíamos onde era mais denso, mais alto, mais fofo… Conhecíamos todos os recantos. Sabíamos onde apanhar o azevinho e onde este tinha as bagas mais bonitas. Conhecíamos cada monte e floresta…

O presépio era construído na noite de Natal. Para o berço do menino usávamos uma casca de gerimum, que o meu pai recortava e que cravejávamos de espigas de centeio. Essas existiam à farta, não fosse uma casa de lavradores…

No vão da janela da cozinha iam crescendo os montes, os vales e as montanhas que davam forma ao presépio. A árvore de Natal era construída com um ramo de pinheiro cortado das nossas próprias árvores. Quase sempre o meu pai e os meus irmãos eram quem tinha o privilégio de o escolher. De o cortar e de o levar para casa.

Sabíamos que eramos dos últimos, senão mesmo os últimos, a construir o presépio mas não nos importávamos. Era um momento importante de convívio entre o meu pai e os “miúdos”. Quase sempre ele acabava por ralhar connosco. Quase nunca concordava com as nossas opiniões, tal como quase sempre prevalecia a dele…

A minha mãe preparava a ceia e ia “pondo água na fervura” das discussões que surgiam. 

Bacalhau cozido com batatas. Bacalhau frito. Bacalhau assado… Tudo quanto a tradição exigia e que era feito ali, na hora, enquanto o presépio crescia…

Na lareira, as pinhas de pinheiro manso aqueciam para que se pudessem extrair os pinhões. Estes, por vezes quase torrados, serviam para o serão. Um serão onde se jogava à raspa a pinhões e em que se bebia café! Café muitas vezes aromatizado com aguardente. Até as crianças tinha direito a este “manjar”. Pela noite dentro, jogava-se até que vencidos pelo sono nos íamos deitando. Na manhã seguinte era dia de acordar cedo para a missa de Natal. Depois, só depois, tínhamos as prendas para abrir. Presentes singelos. Simples. Pobres. Mas que nos agradavam! A certeza de que o menino Jesus ali tinha passado durante a noite para os deixar, era o suficiente para nos deixar felizes…

Cresci e as coisas mudaram.

O menino Jesus deixou de trazer os presentes dando lugar ao Pai Natal. Os bolinhos de gerimum deram lugar aos fritos de abóbora. O montar do presépio na noite de Natal deixou de existir, tal como o meu pai já não existe…

As tradições mudam. Tal como as pessoas. Tal como as crenças. Tal como os anseios e as alegrias…

Continua no entanto a ser Natal. Tempo de paz. De alegria e de convívio familiar. A família também mudou. Agora sou eu a mãe. Agora sou eu a responsável pelo fazer das sobremesas. Não faço aletria, tal como não faço as variedades de bacalhau que a minha mãe fazia. Os meus filhos não apanham o musgo nem conhecem os montes nem as florestas… Na cidade tal não é possível…

O presépio é montado bem mais cedo, pelo que a consoada perdeu muita da sua tradição. Outras tradições vão nascendo. Vão-se enraizando. Outras tarefas são acometidas a cada um de nós…
Prevalece no entanto algo que já então existia…

O amor familiar. A vontade de estar juntos e de celebrar uma época de amor. De paz. De confraternização…

E frases, como a que hoje os meus filhos me disseram:

Lembra-te que tens dois filhos lindos…”

Feliz Natal


Adelina Antunes
24-dez-2012


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