sábado, 23 de fevereiro de 2013

A vida num sonho

Escrever tem-se revelado para mim mais do que um gosto uma necessidade.

É na escrita que me solto. Que dou asas aos meus devaneios e à minha imaginação. Passar dos poemas a pequenos contos foi fácil. Dificil vai ser parar. Espero que tal não venha a acontecer nunca pois esta é uma atividade viciante. Quanto mais escrevo, mais me apetece escrever.

"A vida num sonho" é uma antologia celebrativa do segundo aniversário da editora Lua de Marfim e que chegou ao prelo no passado dia 02 de fevereiro. Em tom de brincadeira decidi apresentar um pequeno conto escrito ao correr da pena e sem grandes pretenções. Enviei-o e nunca mais pensei no assunto até que recebi a confirmação de que tinha sido selecionado.

A ordem alfabética, escolhida para apresentação dos autores, faz com que seja ele a abrir a antologia. Para quem não pode ou não quer comprar o livro (e porque de meu apenas tem uma pequenissima participação), deixo-o aqui:



A vida num sonho


Pensar em como tudo acontecera não era fácil! Conhecera-o há relativamente pouco tempo. Eram colegas de faculdade mas frequentavam anos diferentes, turmas diferentes, grupos de amigos diferentes. Nada faria supor que um dia se encontrariam, tal como nada poderia impedir que se conhecessem. Naquela tarde, quando chegou ao café, um amigo aproximou-se e convidou-a a sentar-se na mesa onde se encontrava com outros colegas. Acedeu e ele foi-lhe apresentado.  De início nem reparou nele. Um entre os demais. As conversas fluíram e quando regressou à sala de aula não conseguiu evitar pensar nele. A sua alegria era contagiante. Um ar divertido, um sorriso a bailar-lhe permanentemente nos lábios e uns olhos que pareciam abarcar o mundo! Mais tarde voltou a encontra-lo. Agora que se conheciam parecia que todos os seus caminhos se cruzavam. Raro era o dia em que não estivessem juntos. Fosse para tomar um café, para dois dedos de conversa ou mesmo para ficarem juntos a fumar um cigarro enquanto faziam tempo para que cada um se dirigisse à sua própria sala.

Aos encontros na faculdade seguiram-se outros. No cinema, na praia, no jardim ou mesmo de visita a um qualquer museu, acompanhavam-se sempre. As amigas invejavam-na pela beleza e simpatia do rapaz. Os rapazes olhavam-na e sorriam. Apesar do que muitos pensavam não eram namorados. Ainda! Não se importava. Gostava da companhia dele. Das suas conversas inteligentes. Do modo fácil com que lidava com as situações… Um amigo em particular acompanhava-os frequentemente. Davam-se bem. Pareciam conhecer-se há já muito tempo e a presença dele não a incomodava. 

Tudo neles parecia conjugar-se. Gostavam da mesma música. Dos mesmos filmes. Ambos nutriam uma paixão peculiar pela história e pelas artes. Ambos frequentavam ateliers de pintura onde extravasavam os seus sentimentos através de pinceladas mais ou menos suaves conforme a ocasião e o sentimento. 

Com o tempo começou a idealizar uma relação. Via-se já a viver com ele. Felizes! A arte como que um complemento e motivo embelezador de um amor que parecia crescer e consolidar-se. Imaginava-se a viver num ninho de amor e arte onde imperasse a beleza, a harmonia e a plenitude de sentimentos. Ele ainda não se declarara, mas os seus gestos, os seus olhares, a ternura que punha em tudo quanto fazia e dizia… tudo nele denotava carinho, paixão. Tudo nele era cheio de ternura. De sentimentalismo… 

Estavam sentados na praia a observar o por do sol e ele puxou-a para sai abraçando-a. O calor dos seus braços, o aconchego do sei peito, a respiração suave e um bater de coração cadenciado criaram a atmosfera ideal para uma declaração de amor. Encostou-se ternamente ao peito dele e esperou que ele se declarasse… Era capaz de ficar assim até à eternidade!

A mão dele percorria-lhe suavemente o braço e os seus lábios roçavam levemente os seus cabelos. Sentia-lhe o perfume do aftershave. Sentia-se a si própria impaciente de amor. O seu coração, contrariamente ao dele, batia acelerado enquanto aguardava pelas palavras que ele lhe diria. Tentou virar-se e alcançar-lhe os lábios. Tomaria ela a iniciativa do primeiro beijo. Afinal adivinhava nele uma grande paixão. Sabia que era correspondida…

Ao virar-se deparou com o amigo. Não contava que ele aparecesse naquele dia na praia. Afinal deveria estar a trabalhar àquela hora… Ele assim que o viu sorriu com aquele sorriso luminoso que o caraterizada e convidou-o a sentar-se ao lado deles. Sentiu-se defraudada. Logo agora que tudo poderia acontecer. Logo no momento em que decidira terminar com aquela espera… A atmosfera romântica que os envolvia desapareceu, com o amigo ali ele já não se iria declarar! Contrariada sorriu e cumprimentou-o. Este, por seu lado, vinha com um ar feliz. O sorriso no rosto parecia iluminá-lo, fazendo-o mais bonito do que realmente era. Sentou-se ao lado deles e olhou para o amigo. “Então? É hoje?” Aquela pergunta iluminou-a. Afinal ele sempre se ia declarar. O amigo sabia das suas intensões. Ele sorriu. “É hoje!” Deu-lhe um beijo suave nos cabelos e virou-a para ele. “Luísa, minha querida, temos uma notícia maravilhosa para te dar.” A alegria que a invadira há instantes atrás esmoreceu ao ouvir aquele “temos”. Uma declaração de amor não se faz a dois. Ou melhor, faz-se, mas sem a presença de terceiros. O que quereria dizer com aquilo?

Ele olhou-a nos olhos. O seu olhar transmitia calor. A ternura que os invadia era visível. “Tu sabes o quanto eu gosto de ti! Tu sabes o quanto és especial para mim. É por isso que quero que sejas a primeira a saber. Eu e o Daniel conseguimos finalmente arranjar casa! Vamos mudar-nos hoje. Finalmente vamos poder assumir o nosso amor. Estás convidada a visitar-nos. A conhecer a nossa casa. Serás assim uma espécie de madrinha de casamento...”

Adelina Antunes
fev-2013


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