domingo, 24 de fevereiro de 2013

"Beijos de bicos"

E como parar é morrer, aí está mais uma coletânea!

Da colaboração de sessenta e oito autores surgiu um livro que ultrapassa as seiscentas páginas.

O amor visto das mais variadas formas, mas sempre o amor.

Cinco páginas contam uma pequena história, escrita ao sabor da imaginação. Não está perfeita. Não é uma obra de arte, mas é mais uma das minhas aventuras literárias. Uma forma de descontrair e de me abstrair do que se passa à minha volta.


 "O noivo"! Demasiado pequeno para um livro. Demasiado grande para um blog...




Lembrava-se perfeitamente do dia do casamento. Devia ser ainda muito criança pois foi antes do 25 de abril de 74. Os rapazes ainda iam à tropa e ainda lutavam na guerra das colónias. O que a fazia lembrar do casamento talvez fosse o facto de os noivos serem tão jovens. Ela tinha 15 anos, ele estava na altura de iniciar o serviço militar o que fazia deles (dela pelo menos) pouco mais do que crianças. Não era muito vulgar, mas quando a mãe descobriu que estava grávida exigiu que se casassem. Não fazia sentido ele ir para a tropa e ela ficar na aldeia como mãe solteira. Assim pelo menos seria uma mulher casada! Não era o ideal, devido à idade, mas era melhor que nada. Recorda quando os viu passar, ela vestida de branco, ele com um fato azul-escuro que realçava os cabelos loiros. Recorda-se de lhes ter atirado flores. Todas as crianças por onde passavam faziam o mesmo. Tem uma vaga ideia de ter sido a mãe a mandá-la esperar pelos noivos e atirar-lhas. Mas já não tem a certeza. O facto é que se lembrava dele. Lindo, com aquele olhar misterioso, a olhar para ela e a sorrir. A noiva parecia encolher-se de cada vez que sentia alguém atirar mais flores. Não a achou uma noiva feliz. 

Soube que tinha sido colocado na Guiné. Depois do 25 de abril de 1974 os militares começaram a regressar. Ele também regressou para junto da mulher e da filha que entretanto nascera. Tiveram que arranjar casa pois a mulher tinha ficado a viver com a mãe. E foi ali, mesmo ao lado da casa dela que conseguiram. Ela conseguia vê-lo pelas janelas. Sabia quando saía e quando entrava e passava horas a olhar para ele. Apesar de ser ainda muito nova (tinha 12 anos quando se deu a revolução dos cravos) ele falava com ela como se se dirigisse a uma mulher...

A aldeia era pobre e a maioria das casas, para além de não ter luz elétrica, não tinham grandes comodidades. A dela era uma exceção. Tinham luz elétrica e água canalizada. O pai era um empreendedor e o facto de terem vivido algum tempo fora da aldeia, numa cidade com todas essas comodidades, contribuíra para que já não conseguissem passar sem elas. As noites lá em casa quase nunca eram calmas. Numa época em que a televisão ainda era considerada um privilégio, todos a queriam ver. Todos queriam seguir as séries que apareciam. Por esse motivo a casa era frequentada por quem pedia para assistir à televisão. Ele ia para lá quase todas as noites. 

Lembra-se da época em que foi exibida a série Sandokan – O tigre da Malásia. Ele não perdeu um episódio. Ou melhor, não perdia a oportunidade de passar o serão, sentado à lareira com ela e com os irmãos. Os pais ainda acompanhavam durante um bocado, mas depois, com a desculpa de estarem cansados e terem que se levantar cedo iam-se deitar. Não sem antes recomendar que se portassem com juízo. Lembra-se que, em vez de olhar para a televisão ele passava o tempo a olhá-la e se por acaso os seus olhares se cruzavam os seus lábios sussurravam palavras ternas. Ela ruborescia com medo que os irmãos se apercebessem mas eles não despregavam os olhos da televisão. 

 “Linda” era como a tratava, em vez de utilizar o diminutivo por que todos a conheciam. Ela insistia que esse não era o seu nome e corrigia-o, mas ele insistia “para mim é assim que tu te chamas, porque tu ÉS linda”. Ela sorria, meio envergonhada, meio encantada. As noites passadas a ver televisão começaram a ser preocupantes, por mais de uma vez a mãe quase o apanhou a sussurrar-lhe um “amo-te” ou a atirar-lhe discretamente um beijo. 

Não havia um dia em que não encontrassem um motivo para se verem. Para estarem juntos. A sós. Nas festas da aldeia era habitual ele ser convidado para cantar. Tocava acordeão e cantava. E fazia-o com mestria. Não era por acaso que integrava um agrupamento musical, um “conjunto” como na altura eram designados e que eram convidados para eventos com alguma importância. Quando havia bailes conseguia sempre um pretexto para a tirar para dançar. Eram danças apaixonadas, em que ela acabava sempre por ruborescer com o que ele lhe dizia ao ouvido e convencida de que toda a gente se tinha apercebido do modo como se abraçavam. Ele dizia-lhe sempre que não, que ninguém notava. 

Quantas vezes se encontraram e ficavam abraçados. Trocavam beijos quentes, apaixonados, de uma intensidade que só a paixão consegue conferir. Ficar ali, encostada ao peito dele, a ouvir o bater acelerado do seu coração era uma das coisas que ela mais gostava. Era capaz de passar assim toda a eternidade. À noite, sentado junto à janela, ele cantava para ela. Apesar da presença da mulher era para ela que cantava. Que compunha músicas e lhas dedicava. 
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Adelina Antunes
24-fev-2013

2 comentários:

  1. Pegando nas suas palavras, pode não ser uma obra de arte, mas certamente que é uma aventura literária que nos permite a nós todos desfrutar do seu imaginário, descontraindo e abstraindo do que se passa à nossa volta. Continue a partilhar este fértil imaginário.Bjs.Nuno.

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  2. Assim farei! Este foi um "bichinho" que veio para ficar!

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