quinta-feira, 25 de abril de 2013

"Porque aprendi"



Há momentos nas nossas vidas que se transformam em “Mementos” que devem ser recordados. Lembrados. Tornados imortais.

Podem ser curtos. Pequenos. Simples… Mas grandiosos pelo que encerram em si.

Fui alvo de um desses “Mementos”! 

Saí cedo do trabalho. Ou melhor, à hora certa, e como sempre dirigi-me para a paragem do autocarro. 

“Fones” nos ouvidos, disposta a mergulhar num mundo só meu e abstrair-me de tudo à minha volta, estava na fila do autocarro, quando, depois de alguns minutos de espera, alguém a meu lado me aborda. 

Mostra-me um talão de pagamento de um prémio do Euromilhões: 3 euros e poucos cêntimos, e comenta “Já viu isto? Tantos anos a jogar, tanto dinheiro gasto e sai isto? O que é que se pode fazer com isto?”

Tantos anos a jogar. Tantas esperanças. Tantos sonhos. Tantos anseios… Nada mais me ocorreu dizer se não que deixasse para lá “Quem sabe se isso não é um principio?”

Sorriu-me e disse que gostou da resposta. Que eu tinha razão e que tinha aprendido uma coisa comigo. Tentei voltar a por os auscultadores e dar a conversa por encerrada. Ignorar a pessoa e mergulhar na minha música. Mas ele parecia querer falar pelo queme esforcei por ouvi-lo.

Sou sincera. Ao entrar para o autocarro procurei um banco de um só lugar onde me pudesse sentar sozinha e abrir um livro porém o único nessas condições tinha outro igual de frente. Com um pedido de licença seguido de um agradecimento quando acedi a que se sentasse, o meu interlocutor sentou-se á minha frente.

Durante a viagem falou de si. Do que faz e do que tem feito. Disse que, apesar de serem apenas três euros e poucos cêntimos, esse prémio era para partilhar. Só porque tinha dito que se fosse premiado o valor seria repartido. É pouco, não dá para nada, a não ser para manter a palavra dada.

Ex militar aprendeu na tropa como tratar lesões musculares. Como recolocar no sítio um osso deslocado. Como "consertar" um tendão. E porque aprendeu, não hesita em usar os conhecimentos adquiridos. 

“Porque aprendi” diz. 

Em tom de conversa ligeira vai falando. Fala das pessoas como se eu as conhecesse. Menciona-as pelos nomes. Pelo que fizeram. Pelo que disseram. Pelo que fez por elas. Sem se gabar. Sem procurar colher louros. Apenas em tom de conversa de circunstância. 

Há pessoas que não reconhecem o que se faz por elas, diz. Mas também há as que ficam gratas. Que querem pagar ou de algum modo retribuir. Isso não lhe interessa. Não procura recompensas. Faz o que faz porque acha que, se lhe pedem ajuda, o deve fazer. “Porque sei!” “Porque aprendi!”

Explica como se faz. Como “consertar” um tendão deslocado. Um ombro. Um pé.

E fá-lo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Conta que um dia “consertou” um braço a um médico. Que este lhe disse que ele devia ter um diploma. Qualquer coisa que lhe garantisse que podia fazer o que tão bem sabe fazer. Para quê? Não é um papel que vai alterar nada. Não procura visibilidade. Apenas faz o que faz porque lhe pedem. Porque sabe. Porque aprendeu!

Não assume compromissos. Um compromisso, quando se assume, tem que ser cumprido seja ele qual for. Nem que seja como o prémio que agora ganhou e que, repartido, nem sequer chega para registar uma nova aposta. Mas assumiu o compromisso. Tem que o honrar…

Não oferece ajuda. Limita-se a estar disponível e a responder quando lha pedem. 

Porquê?

“Porque aprendi!”

Quantas coisas que aprendemos ao longo da nossa vida nunca são postas em prática? Quantas esquecemos porque nunca lhe damos a devida utilidade?

“Porque aprendi!”

O Sr. Luís diz que aprendeu uma coisa comigo. A acreditar!

Também eu aprendi uma coisa com ele: ajudar sem nada pedir em troca. Apenas porque há algo que aprendemos, que sabemos e que pode, de um modo ou de outro, ser útil a alguém. Sem compromissos. Sem nada pedir em troca…

Ajudar, apenas porque sabemos. Porque somos capazes. Porque conseguimos.

Porque aprendemos!

Obrigada Sr. Luís! Foi um prazer conhecê-lo!

Continue a aprender!

Continue a ajudar!



Adelina Antunes
24-abril-2013.

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