quarta-feira, 29 de maio de 2013

Coisas dificeis


Há coisas que sabemos que não devemos fazer. Situações que precisamos de ultrapassar. Há dias difíceis. Noites fáceis…

Há momentos na vida que gostaríamos de poder esquecer. De conseguir ultrapassar sem que nos fizessem sofrer. Há sempre algo de que nos podemos queixar. Alguma coisa que nos faça sofrer.

Há momentos errados. Mal vividos. Mal consumados. Há de tudo um pouco e do que mais se quiser.

Há uma vida inteira para se julgar. Para se concretizar. Para se viver.

Desde que saibamos como o fazer.

Há ternuras imensas que podemos sentir. O céu, as estrelas, as nuvens e o mar. Há esperança e carinho para quem os consegue alcançar. Amores eternos que nos fazem vibrar (ainda que possam durar apenas um segundo).

Assim queiramos ou os saibamos aproveitar.

Há muito que se poderia dizer sobre o que está certo ou errado. Mas quem pode julgar? Quem nunca errou para poder acusar?
Há momentos perdidos e de desilusão. Sentimentos feridos, dores de coração. Desesperos que passam, outros que talvez não.
E no meio disto tudo algo que convém não esquecer. Que por vezes, distraídos, parecemos não perceber.

Há alguém ao nosso lado que nos ajuda a sofrer. Minimiza a dor. Faz-nos sentir melhor.

Alguém que permanece mesmo sem se ver. Nos oferece carinho sem nada pedir. Espera por nós para nos acompanhar. Desculpa. Perdoa…

Sabe entender!

Alguém a quem um dia teremos que agradecer. Todo o carinho. Toda a devoção…

Que segue connosco e nos dá a mão!




Adelina Antunes
29-maio-2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

Quero sentir



Quero sentir-me alguém mas não consigo

Procuro dentro de mim mas nada há para encontrar

Procuro-me junto a ti e nada consigo ver

Talvez porque nada exista que, de facto, tenha valor

Talvez porque afinal eu nada tenha para dar

Procuro…

E nesta procura incessante, perco-me a cada instante

Nada há para procurar

Nada que possa encontrar

Procuro o que não existe

O que nunca teve valor.

No entanto insisto em procurar

Insisto em querer ver…, encontrar.

Para quê?

se só em fantasia a minha existência é possível

se não existo, se nada sou, se ninguém me vê?

Para quê?

Diz-me que pare de me procurar

Diz-me que o futuro não existe e nada há que eu possa fazer

Diz-me que desista

Diz-me que me deixe morrer!



Adelina Antunes
28-maio-2013

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Para sempre



O tempo não espera.
A variante infinita pela qual se orienta não se compadece com sentimentos
As coisas não são o que eram ou deveriam ter sido.
Não há como evitar o sucedido. Passado. Remorsos. Saudades.
Da ternura dos dias que não são o que eram, ficou o eco
Grotesco. Discreto…
Sombra de tudo o que entretanto vivemos…
Saudade que pretende fazer recordar a ternura passada e a que irá sobrevir.
Sem pressas. Sem esquecer!
Almas aflitas empreendem buscas minuciosas percorrendo caminhos tortuosos.
Circundam dias. Semanas. Meses passados.
Para trás…
Como se buscassem algo há muito perdido.
Como se quisessem ser sem saber o sentido
Não basta dizer que sofremos
Não chega dizer que amamos
Constantemente somos postos á prova num mundo indiferente
Sem sentimentos e isento de esperança
De nada vale almejar
De nada serve sentir
Esperanças ultrapassadas travam lutas sem quartel
Sem esperança. Sem valor.
De que adianta a ternura? A esperança? O amor?
De que adiantam os sentidos que acabam por ser ignorados
Proibidos. Massacrados?
Num mundo obscuro em que apenas restam sombras
Difusas. Cinzentas. Obtusas.
De que serve dizer: amo-te! Qual o sentido da ternura?
Para que proferir palavras de amor? De esperança? De ternura ou de dor?
Não espero ser compreendida no meio de toda esta loucura
Não pretendo ser amada. Não mais receber ternura
As sombras dispersas em teus pensamentos fazem-me sofrer
Congelam a vida. Congelam sentimentos
Fazem-me regredir a um mundo distante em que tudo era belo
Em que o amor era permitido. Louvado. Sentido
E no meio do nada, sinto um grito surgir
De mim para ti, para o mundo me ouvir
Não desistas. Segue em frente
Luta para que o amor…
seja para sempre!
 
Adelina Antunes 
fevereiro-2013

sábado, 25 de maio de 2013

Anjo negro



Eu sei o que todos esperam. O que eu próprio espero. 

Sei mas não me ralo. Descobri que apesar de ser o que quero, não o quero ainda. Não o quero exatamente por ser o que todos querem. 

Não sei há quanto tempo aqui estou mas parece-me que é demasiado. Já quase nem sinto o meu corpo.
Sei que não fui perfeito. Que cometi erros. Muitos erros, mas quem não os cometeu? Quem pode dizer que é perfeito? Não pretendo passar por nada que não tenha sido. Ou feito. Mas gostava de ter um pouco de paz. Pelo menos agora!...

Há já muito que não andava bem.  Mais do que saber sentia-o em cada fibra do meu ser mas decidi não me queixar. Para quê? Chega a um ponto em que apenas queremos ver o fim. Em que tudo deixa de fazer sentido. Mas nunca pensei chegar a este ponto…

Trouxeram-me para aqui porque me senti mal. Cheio de dores.  Porque eu próprio considerei que seria o melhor a fazer. Mas eu não queria vir! No fundo sabia que não o deveria fazer. Que essa era uma opção que, apesar de ser a opção certa, não deveria ser tomada. Agora é demasiado tarde. Estou aqui. Preso a esta cama sem me conseguir esquivar. 

Vejo-os de volta de mim quais corvos sequiosos pelas suas presas. 

Sinto-os dentro de mim, remorsos antigos que ainda me prendem. Sufocam-me. Esgotam-me as forças…

Vejo o anjo negro que surge e que já antes se tinha tentado aproximar. Entrou lentamente como se de uma visita normal se tratasse. Acercou-se de mim e falou baixinho. Com aquela voz que só ele tem… Tentei afastar-me. Afastá-lo! E fiquei com a certeza de o ter conseguido. De todas as vezes que aqui esteve voltou para trás… 

Hoje voltou. Circulou pelo quarto. Aproximou-se. Afastou-se. Sem qualquer pudor ou preocupação e sem nenhum tipo de contemplações. Mais uma vez está aqui. Só que desta vez está diferente. Mais negro, mais circundante, menos percetível mas muito mais visível. Não gosto de o ver! Os outros afastam-se quando ele chega. Será que também eles o veem? É curiosa a maneira como falam e se desviam à sua passagem. Diria que se sentem temerosos. A sua figura negra impõe respeito. Assusta.

Tento gritar que saia. Que não o quero ver. Mas nenhum som é emitido pela minha garganta. Tento evitar que se aproxime. Mas os meus gestos desesperados transformam-se em trejeitos descoordenados. Sem forças para o impedir, deixo-me cair neste leito de morte. Os outros aproximam-se. Bestas que farejam o sangue. Que persentem a chegada da morte. Que querem apreciá-la! 

SAIAM!

Ou fiquem, mas só por amor! Em silêncio! Respeitem a minha dor!

Grito na minha consciência. Deixem-me em paz! CALEM-SE!

Sobretudo calem-se! Não me veem? Não veem o estado em que me encontro? Calem-se ou saiam. Saiam e calem-se. Mas parem, por favor. 

Não posso ouvir-vos. Não posso ver-vos. Sempre com esses meios sorrisos. Sempre com meias palavras quando sei que se estão a agredir mutuamente. Pensam que não vejo como agem uns com os outros? Pensam que não os conheço o suficiente para saber que estão em luta constante? Porque é que vêm para aqui? Para me torturar um pouco mais? Não basta o facto de estar limitado a uma cama? Preso, sem nada poder fazer? PAREM! Deixem-me morrer!

Finalmente saíram. Todos sem exceção. Um pouco de paz neste leito de morte onde fui deixado entregue à minha sorte. 

Paz! Silencio! Agora sim, sinto-me bem. As dores que tinha e que tanto me incomodavam partiram. Não as sinto. Consigo pensar. Consigo sentir. Consigo estar comigo mesmo sem estar a sofrer. Ninguém para me questionar. Ninguém para fingir sentir o que não sente. Dizer o que pensa que eu quero ouvir. Ninguém… Apenas eu e os meus pensamentos. E são tantos… Toda uma vida para analisar. Pensar. Reviver. Toda uma vida que nem sempre foi o que devia. Em que nem sempre fiz o mais correto. Onde por vezes falhei mas outras fui herói. Uma vida que vivi. Bem ou mal, quem sou eu para julgar? Fiz o que considerei certo no momento correto. Se voltava a fazer tudo o que fiz? Provavelmente não. Talvez aqui e ali mudasse este ou aquele pormenor. Esta ou aquela atitude….

Se há coisas de que me arrependo? Claro que sim! Tantas. Mas são coisas pelas quais voltaria, na sua maioria a passar. Afinal de contas são os erros que nos fazem crescer. E viver! …

Sinto a sua presença. Sei que está aqui de novo. Anjo negro. Anjo de morte. Que veio para completar a minha sorte. Sei que desta vez não vou conseguir evitar. Sei que vou acompanhá-lo seja para onde for. Mas não me importo. Estou pronto para partir. Tento falar-lhe. Dizer-lhe que se pode aproximar mas descubro que não é necessário. Ele sabe o que tem que fazer e aproxima-se. Olha-me nos olhos e sorri. Com um sorriso meigo como só ele sabe ter. Anjo negro. Anjo de morte. Sorri e o seu sorriso ilumina-lhe o rosto. Ilumina-me… não é um anjo negro!... Sigo-o!

Para além da morte!


Adelina Antunes
25-maio-2013

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Maio continua frio…



Lembro-me de em criança ouvir a minha avó dizer, com aquele ar de sabedoria que só os avós conseguem ter: “Em maio ainda se comem cerejas ao borralho!”... 

E se comem!

Este ano o tempo é propício a dar razão a este ditado popular. Adoro cerejas! Mas, infelizmente não as posso comer “ao borralho”…  

Num mundo feito de cimento e betão as antigas casas com lareira que povoaram a nossa infância resumem-se a recordações. Não há lareiras que nos permitam comer cerejas enquanto apreciamos o calor da lenha a arder. Não existem as brasas que resplandeçam enquanto nos deliciamos com estas pequenas maravilhas da natureza.

As recordações da infância e dos tempos felizes passados a correr pelos campos, a subir às árvores, a colher cerejas ou comê-las sentada nos ramos das cerejeiras, invadiram-me hoje!

Lembro-me da minha avó. Dos campos em flor. Lembro-me de uma criança a correr despreocupada, sem pensar no futuro, no passado nem sequer no presente. Lembro-me da facilidade com que vivia o dia-a-dia e penso nas nossas crianças. No mundo que hoje não nos é possível proporcionar-lhes. Não lhes podemos oferecer um campo aberto onde correr. Uma árvore a que possam subir. Cerejas, para apanhar da árvore e comer. Ali! Assim. Com toda a simplicidade que nos foi dado viver…

Olho os prédios e as crianças pela mão. Muitas com olhos tristes. Postos no chão.

Infantários fechados onde ficam de manhã. Escolas guardadas. Públicas ou privadas… fechadas!...
Vejo crianças que não sabem sorrir. Não sabem brincar. Que crescem ao sabor de um tempo que não tem o que lhes oferecer. Crianças adultas com responsabilidades crescentes. Que mal nascem têm um futuro marcado. Decidido. Ao qual não se podem esquivar… e nós sem nenhum futuro para lhes oferecer!
Lembro-me da alegria que era brincar sem barreiras. Sem seguranças. Sem fronteiras.
E olho as crianças que seguem em fila indiana. Caminhos orientados. Forçados. Decididos e controlados…
E sonho que um dia isto pode mudar. Que temos crianças que irão crescer e querer algo melhor.
Um mundo que não conseguiram ter mas que vão lutar por conseguir. Um mundo sem barreiras onde as futuras crianças consigam correr sem medo de se perder. Apenas pela liberdade de o poder fazer.
Um mundo melhor!
E quem me pode culpar por sonhar? Quem me pode recriminar? 
Criança que fui e na qual consigo lembrar a alegria de viver. Os momentos de prazer. A liberdade de poder brincar, correr e sonhar.
É isto que gostava de poder legar. Um mundo onde as nossas crianças possam crescer. Um mundo onde possam brincar, correr e sonhar. Sem terem que se preocupar. Sem sentirem a necessidade de saber o que irá acontecer. Sem terem que se preocupar…
Afinal o mundo é das crianças. As preocupações são dos adultos. As medidas a tomar devem refletir uma preocupação da qual têm o direito de se alhear. 
Poder ser criança e conseguir brincar. Crescer apenas porque tem que ser. Sem ter nada em que pensar a não ser que um dia, quando esse dia chegar, também elas serão adultas e aí, terão tempo para se preocupar.


Adelina Antunes
23-maio-2013

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Invisível na multidão

Sabias que a solidão mais profunda só se consegue no meio da multidão?

Se estiveres sozinho e chorares, estiveres triste ou gritares todos te vêm. 

Mas se estiveres no meio de uma multidão podes chorar. Podes rir. Podes gritar. Podes até fazer o pino que ninguém te vê!

Tem dias que preciso disso. Acho que é por isso que gosto tanto de Lisboa. Sozinha na multidão!

Posso andar ou parar. Posso chorar se me apetecer. Posso fotografar. Posso ver o que os outros não querem ver. Posso ser eu mesma ou fingir ser quem eu quiser…

Posso ser tudo ou não ser nada. Posso até parar e morrer que ninguém quer saber.

De vez em quando sinto-me assim. Anónima. Transparente. Invisível. E depois descubro que gosto desse silencio. Que gosto de estar invisível na multidão. Que não preciso de máscaras. Que posso ser eu mesma. Sem um sorriso. Sem uma palavra agradável. Sem nenhuma espécie de cortesia…

Invisível. Inexistente. Dona de nada e senhora do mundo. Posso ir para onde quiser que ninguém me vai questionar. Posso fazer o que fizer que ninguém vai saber. Ninguém quer saber. Não importa! Eu não existo!

Quando preciso desse silencio saio. Saio de casa ou do emprego… Saio! 

Misturo-me na multidão e espero que alguém me encontre. Nunca ninguém me viu!... 

Vá para onde for. Faça o que fizer. Ninguém me vê. Ninguém me pede nada. Ninguém precisa de mim. 

Porque eu não existo. Sou invisível para quem me rodeia. Posso morrer se me apetecer! Ninguém vai sentir. 

Ninguém vai saber. Ninguém se vai importar.

E eu posso querer! 

Posso querer ser invisível. Transparente. Ignorada. 

Passar por onde quiser sem ninguém se importar. 

Fazer o que me apetecer sem ninguém questionar. 

Andar ou não andar. 

Parar ou não parar. 

Só por me apetecer. Sem dar explicações. Sem ninguém saber. Sem ninguém se ralar…

Sem sequer existir…

Adelina Antunes

07-maio-2013

domingo, 5 de maio de 2013

Dia da mãe



Sou mulher. Sou filha e sou mãe!

Sou filha e como filha não posso deixar passar em branco um dia que se quer especial para as mães. Não posso deixar de agradecer ao ser que me deu a vida, que me ensinou e que me fez crescer como pessoa. 

Que me transmitiu valores. Que me ensinou a ser o que sou hoje!

Amar é educar! E nesse aspeto fui, e continuo a ser, muito amada. Amar é fazer crescer. Ensinar e aprender. Por muito longa que seja a nossa existência o papel da mãe nunca é esquecido. Por muito que por vezes não seja lembrado. Mãe é amor. Dizem! Amar é dor!

E uma mãe ama como mais ninguém o consegue fazer. Sem esperar retorno. Reconhecimento ou qualquer espécie de agradecimento. A mãe ama e está presente, mesmo quando fisicamente ausente. A mãe quer o melhor do mundo para os seus filhos. Mesmo que estes nem sempre o reconheçam. Mesmo que estes muitas vezes a esqueçam.

E porque mãe é amor enquanto amar é dor, ser mãe sem ver o seu amor reconhecido é uma dor ainda maior. Há filhos queridos. Há filhos rebeldes. Há filhos esquecidos. Há filhos…. E filhos!

E todos eles têm o seu valor. Todos eles merecem a sua dose de amor. Há filhos que lembram a mãe todos os dias. Há filhos que não querem nem dela saber. Há filhos que pensam na mãe com carinho e há outros que não querem nem dela ouvir falar…

Mas a mãe compreende e continua a amar. Ser mãe é assim! Amar sem condição. Seja ela lembrada, esquecida ou amada. Seja ela presente, ausente ou mesmo já inexistente. Ser mãe é uma espécie de tarefa divina que se assume à nascença de cada novo ser. Ser mãe é algo que dura para sempre. Com filho ou sem filho… sempre com muito amor! 


Adelina Antunes
05-maio-2013