sábado, 25 de maio de 2013

Anjo negro



Eu sei o que todos esperam. O que eu próprio espero. 

Sei mas não me ralo. Descobri que apesar de ser o que quero, não o quero ainda. Não o quero exatamente por ser o que todos querem. 

Não sei há quanto tempo aqui estou mas parece-me que é demasiado. Já quase nem sinto o meu corpo.
Sei que não fui perfeito. Que cometi erros. Muitos erros, mas quem não os cometeu? Quem pode dizer que é perfeito? Não pretendo passar por nada que não tenha sido. Ou feito. Mas gostava de ter um pouco de paz. Pelo menos agora!...

Há já muito que não andava bem.  Mais do que saber sentia-o em cada fibra do meu ser mas decidi não me queixar. Para quê? Chega a um ponto em que apenas queremos ver o fim. Em que tudo deixa de fazer sentido. Mas nunca pensei chegar a este ponto…

Trouxeram-me para aqui porque me senti mal. Cheio de dores.  Porque eu próprio considerei que seria o melhor a fazer. Mas eu não queria vir! No fundo sabia que não o deveria fazer. Que essa era uma opção que, apesar de ser a opção certa, não deveria ser tomada. Agora é demasiado tarde. Estou aqui. Preso a esta cama sem me conseguir esquivar. 

Vejo-os de volta de mim quais corvos sequiosos pelas suas presas. 

Sinto-os dentro de mim, remorsos antigos que ainda me prendem. Sufocam-me. Esgotam-me as forças…

Vejo o anjo negro que surge e que já antes se tinha tentado aproximar. Entrou lentamente como se de uma visita normal se tratasse. Acercou-se de mim e falou baixinho. Com aquela voz que só ele tem… Tentei afastar-me. Afastá-lo! E fiquei com a certeza de o ter conseguido. De todas as vezes que aqui esteve voltou para trás… 

Hoje voltou. Circulou pelo quarto. Aproximou-se. Afastou-se. Sem qualquer pudor ou preocupação e sem nenhum tipo de contemplações. Mais uma vez está aqui. Só que desta vez está diferente. Mais negro, mais circundante, menos percetível mas muito mais visível. Não gosto de o ver! Os outros afastam-se quando ele chega. Será que também eles o veem? É curiosa a maneira como falam e se desviam à sua passagem. Diria que se sentem temerosos. A sua figura negra impõe respeito. Assusta.

Tento gritar que saia. Que não o quero ver. Mas nenhum som é emitido pela minha garganta. Tento evitar que se aproxime. Mas os meus gestos desesperados transformam-se em trejeitos descoordenados. Sem forças para o impedir, deixo-me cair neste leito de morte. Os outros aproximam-se. Bestas que farejam o sangue. Que persentem a chegada da morte. Que querem apreciá-la! 

SAIAM!

Ou fiquem, mas só por amor! Em silêncio! Respeitem a minha dor!

Grito na minha consciência. Deixem-me em paz! CALEM-SE!

Sobretudo calem-se! Não me veem? Não veem o estado em que me encontro? Calem-se ou saiam. Saiam e calem-se. Mas parem, por favor. 

Não posso ouvir-vos. Não posso ver-vos. Sempre com esses meios sorrisos. Sempre com meias palavras quando sei que se estão a agredir mutuamente. Pensam que não vejo como agem uns com os outros? Pensam que não os conheço o suficiente para saber que estão em luta constante? Porque é que vêm para aqui? Para me torturar um pouco mais? Não basta o facto de estar limitado a uma cama? Preso, sem nada poder fazer? PAREM! Deixem-me morrer!

Finalmente saíram. Todos sem exceção. Um pouco de paz neste leito de morte onde fui deixado entregue à minha sorte. 

Paz! Silencio! Agora sim, sinto-me bem. As dores que tinha e que tanto me incomodavam partiram. Não as sinto. Consigo pensar. Consigo sentir. Consigo estar comigo mesmo sem estar a sofrer. Ninguém para me questionar. Ninguém para fingir sentir o que não sente. Dizer o que pensa que eu quero ouvir. Ninguém… Apenas eu e os meus pensamentos. E são tantos… Toda uma vida para analisar. Pensar. Reviver. Toda uma vida que nem sempre foi o que devia. Em que nem sempre fiz o mais correto. Onde por vezes falhei mas outras fui herói. Uma vida que vivi. Bem ou mal, quem sou eu para julgar? Fiz o que considerei certo no momento correto. Se voltava a fazer tudo o que fiz? Provavelmente não. Talvez aqui e ali mudasse este ou aquele pormenor. Esta ou aquela atitude….

Se há coisas de que me arrependo? Claro que sim! Tantas. Mas são coisas pelas quais voltaria, na sua maioria a passar. Afinal de contas são os erros que nos fazem crescer. E viver! …

Sinto a sua presença. Sei que está aqui de novo. Anjo negro. Anjo de morte. Que veio para completar a minha sorte. Sei que desta vez não vou conseguir evitar. Sei que vou acompanhá-lo seja para onde for. Mas não me importo. Estou pronto para partir. Tento falar-lhe. Dizer-lhe que se pode aproximar mas descubro que não é necessário. Ele sabe o que tem que fazer e aproxima-se. Olha-me nos olhos e sorri. Com um sorriso meigo como só ele sabe ter. Anjo negro. Anjo de morte. Sorri e o seu sorriso ilumina-lhe o rosto. Ilumina-me… não é um anjo negro!... Sigo-o!

Para além da morte!


Adelina Antunes
25-maio-2013

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