sábado, 4 de maio de 2013

Chamaram-me poetisa



Pelo que escrevo. Pelo que digo. Pelo que faço. Pelas fotografias que tiro e que conjugo com as palavras, chamaram-me poetisa. Não sou poeta e não gosto da expressão poetisa. Não porque seja depreciativa ou por qualquer outro motivo. Apenas porque um poeta é um poeta, independentemente do sexo. 

Alguém me disse um dia que os poetas não têm sexo e apesar de nunca ter falado sobre o assunto com essa mesma pessoa as nossas ideias coincidem. Um poeta não tem sexo. Não há “o poeta” ou “a poetisa”. Gosto de pensar num poeta como algo superior a estas designações. Alguém que se supera. Que supera o facto de ser deste ou daquele sexo. Que escreve a poesia com o sentimento que lhe vai na alma sem pensar no facto de ser homem ou mulher. 

Não sou poeta. Não pretendo ser poeta (poetisa, se assim o desejarem). Não sinto que possa ser designada por tão alto atributo.

Dizem-me que tenho “o dom da palavra”, que sou “poetisa” que “escrevo com a alma” e que consigo captar a poesia de um nascer do sol.

A isto respondo que gostava que fosse verdade que tenha o dom da palavra. Que escrevo com a alma, se com a minha se com as almas que me despertam os sentimentos que transmito que importa? Gosto de ver o sol nascer e de transmitir a sensação maravilhosa que isso me desperta. A esperança num dia radioso. Num dia melhor que o anterior…

Escrevo. Mas escrevo o que me é transmitido por aqueles com quem me cruzo. Pelos sentimentos espelhados no rosto e na alma de cada um. Pelo que palavras ditas ao acaso me transmitem. Pelo olhar, mais ou menos profundo, mais ou menos sofredor, que os meus olhos conseguem alcançar. Se vejo uma imagem que me transmite algum tipo de sentimento, registo-a. Conjugo-a com as palavras, com os sentimentos, com as alegrias e tristezas, com os amores e devaneios que apreendo. Nem sempre um texto ou um poema é ilustrado pela imagem que corresponde ao sentimento que o despertou ou levou a que a captasse. Mas quase sempre ambas contribuem para que a mensagem fique mais clara…

Escrevo. Mas não escrevo poesia. Escrevo poemas. Sem nexo ou sentido. Com razão ou sentimento. Conforme o que me indique o momento. Mas também escrevo o que pomposamente gosto de designar por “crónicas”. Pequenos textos que, de vez em quando, me levam a manifestar a minha opinião. E escrevo histórias. Pequenas histórias que não pretendem retratar nada nem ninguém, mas que são sempre motivadas por alguém. 

Em cada frase que escrevo deixo uma parte de mim. Em cada imagem que capto há algo meu que aí fica. Tal como acontece em tudo o que faço. Em tudo o que crio. Nas pessoas que conheço ou com quem simplesmente me cruzo. Há sempre algo que fica. 

Mas também há sempre algo de novo que passa a acompanhar-me. Cada frase em que alguém se reveja. Cada foto com que alguém se sensibilize. Cada palavra que oiço e que me é dirigida. Cada imagem que registo e que mantenho intacta para a vida… A cada momento uma nova conquista. A cada palavra, a cada gesto, em cada sentimento…

Há sempre algo que consigo dar. Ou um pouco de mim que consigo transmitir. 

Mas há muito mais para ganhar. Novas experiencias. Novos sentimentos. Novos sentires…

Não sou poeta mas gosto de encontrar a poesia que me rodeia e à qual, na maioria dos casos, somos indiferentes. Gosto de encontrar a magia de um olhar… e da a transmitir. Gosto de ver um coração sorrir. E de o por a sonhar. Custa-me ver uma alma sofrer e tudo faço para lhe minorar a dor. 
Se não há mais nada que possa fazer… 

Escrevo e espero que cada um que me leia consiga encontrar um pouco do que quer que seja que procura. Que se reveja... 

Que sinta naquilo que lê “sou eu! foi sobre mim que ela escreveu…”


Adelina Antunes
04-maio-2013


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