quinta-feira, 23 de maio de 2013

Maio continua frio…



Lembro-me de em criança ouvir a minha avó dizer, com aquele ar de sabedoria que só os avós conseguem ter: “Em maio ainda se comem cerejas ao borralho!”... 

E se comem!

Este ano o tempo é propício a dar razão a este ditado popular. Adoro cerejas! Mas, infelizmente não as posso comer “ao borralho”…  

Num mundo feito de cimento e betão as antigas casas com lareira que povoaram a nossa infância resumem-se a recordações. Não há lareiras que nos permitam comer cerejas enquanto apreciamos o calor da lenha a arder. Não existem as brasas que resplandeçam enquanto nos deliciamos com estas pequenas maravilhas da natureza.

As recordações da infância e dos tempos felizes passados a correr pelos campos, a subir às árvores, a colher cerejas ou comê-las sentada nos ramos das cerejeiras, invadiram-me hoje!

Lembro-me da minha avó. Dos campos em flor. Lembro-me de uma criança a correr despreocupada, sem pensar no futuro, no passado nem sequer no presente. Lembro-me da facilidade com que vivia o dia-a-dia e penso nas nossas crianças. No mundo que hoje não nos é possível proporcionar-lhes. Não lhes podemos oferecer um campo aberto onde correr. Uma árvore a que possam subir. Cerejas, para apanhar da árvore e comer. Ali! Assim. Com toda a simplicidade que nos foi dado viver…

Olho os prédios e as crianças pela mão. Muitas com olhos tristes. Postos no chão.

Infantários fechados onde ficam de manhã. Escolas guardadas. Públicas ou privadas… fechadas!...
Vejo crianças que não sabem sorrir. Não sabem brincar. Que crescem ao sabor de um tempo que não tem o que lhes oferecer. Crianças adultas com responsabilidades crescentes. Que mal nascem têm um futuro marcado. Decidido. Ao qual não se podem esquivar… e nós sem nenhum futuro para lhes oferecer!
Lembro-me da alegria que era brincar sem barreiras. Sem seguranças. Sem fronteiras.
E olho as crianças que seguem em fila indiana. Caminhos orientados. Forçados. Decididos e controlados…
E sonho que um dia isto pode mudar. Que temos crianças que irão crescer e querer algo melhor.
Um mundo que não conseguiram ter mas que vão lutar por conseguir. Um mundo sem barreiras onde as futuras crianças consigam correr sem medo de se perder. Apenas pela liberdade de o poder fazer.
Um mundo melhor!
E quem me pode culpar por sonhar? Quem me pode recriminar? 
Criança que fui e na qual consigo lembrar a alegria de viver. Os momentos de prazer. A liberdade de poder brincar, correr e sonhar.
É isto que gostava de poder legar. Um mundo onde as nossas crianças possam crescer. Um mundo onde possam brincar, correr e sonhar. Sem terem que se preocupar. Sem sentirem a necessidade de saber o que irá acontecer. Sem terem que se preocupar…
Afinal o mundo é das crianças. As preocupações são dos adultos. As medidas a tomar devem refletir uma preocupação da qual têm o direito de se alhear. 
Poder ser criança e conseguir brincar. Crescer apenas porque tem que ser. Sem ter nada em que pensar a não ser que um dia, quando esse dia chegar, também elas serão adultas e aí, terão tempo para se preocupar.


Adelina Antunes
23-maio-2013

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