terça-feira, 25 de junho de 2013

Noite




A noite é um bálsamo que devemos aproveitar

Morrer

e voltar a viver

A noite é um passo que nos permite passar para um novo dia

Um novo destino, se tivermos forças para o agarrar!

Que importa que morra se vou voltar a viver?

Que importa que viva se vou voltar a morrer?

A noite é um bálsamo que não sabemos aproveitar

Porque esperamos que o dia que nasce seja para continuar

A viver

A sofrer

A amar ou o que quer que seja que estamos habituados a fazer

Que importa a noite se a não sabemos utilizar?

A noite é um bálsamo para todas as dores

lembrar imagens, esquecer dissabores… 

e recomeçar!

Vale a pena dormir apenas para acordar

Recomeçar de novo se assim tiver que ser

Vale a pena sentir que nascemos de novo

Qual esperança perdida e que queremos conservar

Cada novo dia

Uma nova esperança

Na diferença

Na semelhança

Vale a pena apostar?

Cada noite morremos um pouco para voltar a nascer

Vale a pena a vida? 

Continuar a viver?

Cada dia uma nova esperança…

Um novo renascer…

E nós…

O que fazemos para o aproveitar?




Adelina Antunes
25-junho-2013

Monólogo



Eu sei que estás aí! 

Que me ouves.

Que partilhas tudo o que digo. O que sonho. O que desejo.

Sei que, tal como eu, vives na esperança de que um dia algo possa acontecer.

Um gesto. Uma palavra. Um sonho mais profundo… 

um beijo!...

Um gesto de carinho que faça os sonhos despertar.

Sei que sofres tal como eu sofro, no entanto…

… descobri que não gosto de monólogos. 

Não gosto de falar sem obter resposta. 

Não gosto quando nada tens para dizer. 

Quando ouves em silêncio. Como se nada estivesses a perceber…

Reduziste-me a tudo o que não gosto, o que não quero sentir

Pelo menos..., podias fazer o favor de desaparecer. 

Um monólogo acompanhado é bem pior de suportar. 

Não quero os teus silêncios. 

Não suporto as ausências a que constantemente me submetes… 

na tua presença.

Não fiques se não é isso que queres fazer

Não estejas se isso te faz sentir desconfortável.

Sofrer

Sinto o que neste momento ambos estamos a sentir

e sofro…

Por nada poder fazer!

Reduziste-me a um monólogo ininteligível em que sou a única a falar

Um monólogo que és o único a ouvir, porque eu

Recuso-me a escutar!

Recuso ouvir os teus silêncios que me fazem sofrer

Que nos fazem sofrer

Sem que isso te importe

Sem que disso queiras saber

Reduziste-me a um monólogo mas no fundo

O monólogo não sou eu…

Somos nós!

Um monólogo onde ambos dizemos o que queremos dizer

Sem esperar que o outro responda… 

seja o que for

Uma conversa de surdos onde um fala sem que o outro consiga escutar…

Não gosto de monólogos!

Monólogos acompanhados onde cada um fala para seu lado

Sem ser escutado

Sem se deixar ouvir

Sem que um da presença do outro se consiga aperceber 

e no fim…

Ambos terminem a sofrer.



Adelina Antunes
25-junho-2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Lembra-te de mim


... e se por acaso me sentires distante, fria ou calculista

Pensa que talvez haja uma razão para que tal aconteça

Talvez eu não seja assim

Talvez as contrariedades sejam mais do que consigo suportar

Talvez não saiba onde encontrar forças para continuar

Libertar-me desta angústia que me atormenta

Desta esta dor que me invade a alma e me violenta ...

Lembra-te de mim

Só como sou, sem qualquer subterfúgio

Sem esta máscara, este refúgio

De como era. De como desejo ser

Lembra-te de mim nos dias felizes

Lembra-te de mim nas tardes e noites sem fim.

Apenas…

Lembra-te de mim!

 

Adelina Antunes

 14-junho 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Depois do silêncio



Depois do silêncio em que se mergulhou por tanto tempo

Há maneira de sair impune?

De retomar a luz sem ferimentos de alma?

Encontrar um caminho, uma planície calma?

Depois das trevas e da falta de luz

Há maneira de reagir sem dor?

Encontrar as estrelas, seguir um destino sem medo ou receio de poder voltar?

A luz que aparenta dar vida e dar cor

Será ela também uma fonte de amor?

Seguir as estrelas, o sol e a lua

Será uma hipótese a considerar?

Procurar caminhos há muito escondidos

Não é uma porta mais para se ferir?

Uma luz que surge e começa a brilhar

Pode servir apenas para fazer sofrer?

Sair do silêncio e não mais voltar

Uma esperança, um alento que se deve agarrar

Sair do silêncio, não só por sair

Mas porque se tem meios de lá mais não voltar.




Adelina Antunes
12-junho-2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Viver o luto - ser eterno

Ninguém se prepara para a viver a morte ou o luto.

Ninguém se prepara para receber a morte mediante a doença de um ente querido. Mesmo que essa doença seja tão mortal como o cancro.

Ninguém faz o luto antes da pessoa falecer. Durante o tempo em que se é obrigado a conviver com a doença, com o sofrimento de alguém que nos é querido. Cresce a revolta. Aumenta o desespero. A sensação de impotência perante algo que quereríamos evitar mas que sabemos nada poder fazer.

Cresce a saudade de alguém que ainda não partiu mas que, no fundo, já não está connosco. O pior é que quando essa pessoa parte, ninguém está preparado para aceitar a morte. Ninguém a aceita. É difícil fazer o luto.

E porquê? Porque nos habituamos à dor. Ao sofrimento. A uma morte que não sendo morte já não era vida. A não ter um ente querido que ainda ali está mas que no fundo já quase não existe…
E cresce uma revolta que se mistura com saudade. Que não nos deixa sofrer o que sofreríamos numa situação de perda menos dramática. Que não nos deixa chorar porque há muito deixamos de o conseguir fazer. Qua não nos deixa viver o luto como deveríamos viver.

Uma perda implica que façamos o luto pelo ente querido. E devemos fazer o luto. Sofrer. Chorar. Desesperar se isso tiver que ser… Para continuar a viver!

Numa situação de doença prolongada o sofrimento enraíza-se nos nossos corações. Invade-nos a alma. E permanece muito para além da morte.

A necessidade de lutar pela vida de alguém que sabemos estar a sofrer torna-se um ponto fulcral da nossa existência. A impotência perante a doença faz com que nos esqueçamos de nós e passemos a ver apenas a possibilidade de lutar por quem tanto amamos…
Mas,… e há sempre um mas, a morte chega e a vida continua. Para quem fica surge a necessidade de viver o luto. De deixar que quem partiu possa seguir em paz. Viveu a vida. Dêmos-lhe dignidade na morte. Deixemos que morra. Permitamos que parta.

É difícil de aceitar que, agora sim temos que sofrer. Chorar. Sentir saudade. Reviver momentos felizes e tristes vividos em conjunto. Recordar coisas boas e coisas más. Lembrar a pessoa que partir. Como pessoa que foi. Com qualidades e defeitos. Com dias bons e outros menos bons. Enfrentar o sofrimento. Encará-lo de frente e sofrer.

Custa! Claro que custa. Mas só assim poderemos continuar. Sofrer o suficiente. Chorar o bastante. Desesperar o necessário até conseguirmos recordar sem sofrer. Até sentirmos que nos libertamos do sofrimento. Da dor. Da saudade…

Até sentirmos que perdemos alguém que recordamos com carinho. Com saudade mas com uma saudade “saudável” que nos leva a recordar bons e maus momentos tal como eles realmente foram. Sem serem empolados pelos sentimentos que nos controlaram durante o período de sofrimento.

Até conseguirmos libertar-nos dos sentimentos que, durante a doença e logo após a morte, nos levam a ver apenas o bom. A colorir o mau com cores que nos agradam. A embelezar a recordação e que apenas contribuem para o aumento de uma saudade que se adensa com o tempo.

A memória, a recordação, o que lembramos devem e têm que ser saudáveis.

Não vamos recordar só coisas boas. Não vamos ver o ente perdido como se fosse intocável. Como se nunca tivesse errado ou como se fosse isento de defeitos. Vamos lembrar as birras, as brigas, os conflitos, as más acções e as más decisões. Vamos reviver situações conflituosas. Vamos sentir abraços e beijos. Carinhos e mimos. Vamos ver a pessoa que foi e que connosco conviveu. No seu melhor e no seu pior. Como pessoa que realmente foi e não idolatrada pelo período da doença. Não “endeusada” pela morte e pela saudade.

Afinal as boas recordações acabarão por prevalecer e as más serão atenuadas. Pesadas. Ponderadas no seu contexto real. Seremos capazes de ver o certo e o errado. De reconhecer a pessoa que era. Que foi e que ajudou a construir o que hoje somos.
Vamos poder falar sem chorar. Porque a recordação dói mas não magoa.

Vamos poder lembrar o que passou e reviver o quanto amamos. O quanto nos amou.

Vamos sentir que a deixamos partir. Que afinal a pessoa que foi mantém-se dentro de nós. Contribuiu para a pessoa que somos e que um dia, outros poderão sentir por nós o que agora sentimos. Que somos a continuidade dos que partiram. Que seremos o início dos que ficarem. Que assim, e só assim, seremos eternos!



Adelina Antunes
12-junho-2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

Não



 Não tenho quem me dê flores… e gosto delas de todas as cores

Não tenho quem me dê carinho, atenção

Não tenho quem grite ao mundo que sou eu quem está no seu coração

Não tenho nada e nada espero

Não tenho uma vida que possa viver e gritar ao mundo o que estou a fazer

Não passo os dias só para te ver

Não espero o mundo pois sei que não o vou ter

Não sei o que sinto, o que estás a sentir

Não sei para onde vou, que caminho seguir

Não posso dizer que te amo sem estar a mentir

Não posso ouvir-te dizer que me queres sem saber que me estás a enganar

Não há um universo sem fim dentro de mim

Não há vida

Não há esperança

Não há nada que eu queira a não ser uma lembrança

Não quero esquecer

Não quero lembrar

Não quero que digas que me podes amar

Não quero o amor e menos ainda a ilusão

Não quero ciúmes

Não quero paixão

Não quero nada que não me consigas dar

Não quero esquecer-te

Não te quero deixar



Adelina Antunes
10-junho-2013