segunda-feira, 3 de junho de 2013

Obrigada por ter sido quem foi!



Nem sempre conseguimos exteriorizar o que nos vai na alma. Nem sempre somos capazes de falar sobre o que mais nos magoa. A morte é um tema que, por norma, é tabu. Custa perder um ente querido. Custa aceitar que deixamos de ver aqueles de quem gostamos. 

Nem sempre estes sentimentos são exclusivos da família. Há pessoas que nos fazem sentir esta falta. Pelo que foram. Pelo que representaram. Pelas marcas que, de algum modo, deixaram nas nossas vidas.

Há algum tempo atrás uma das pessoas que marcou a minha existência caiu numa cama de hospital. Foi a 17 de Abril e o que inicialmente parecia não ser nada de grave veio a mostrar-se fatal. 

Estar deitado numa cama, sujeitado a constantes exames sem que nenhum deles revele do que realmente se sofre é, provavelmente, o pior que pode acontecer numa situação destas. O dizerem ao doente que afinal está tudo bem e que pode ir para casa é o que se espera que aconteça a todo o momento.

Ao fim de alguns dias de internamento e do recurso a diversos exames a decisão foi a de que poderia ir para casa. A alta foi tratada. O doente vestiu-se com intenção de sair e regressar para junto da família. Embora não se sentisse a cem por cento o desejo de voltar a casa impediu-o de se queixar. 

Em todo o lado há profissionais mais ou menos competentes. Mais ou menos atentos. Mas ou menos dispostos a ver o que se passa à sua volta. Em todo o lado há profissionais que, quando iniciam o seu dia de trabalho, começam a executar as suas tarefas sem se prenderem com a burocracia. O pessoal de enfermagem não é diferente. Naquela tarde, quando a enfermeira entrou au serviço, foi “ver” o doente. Sentiu que ele tinha dificuldades respiratórias e, indiferente ao facto de ter alta, decidiu ver o que se passava.

As dificuldades respiratórias eram muitas, imensas, o que a levou a chamar um médico e a alta foi revogada…

Novos exames. Novas perguntas. Novas procuras de respostas…

Não sei, nem vou analisar, o tipo de tratamento a que foi sujeito. Não estive em permanência nem o tempo suficiente para saber se foi ou não o mais adequado. Não sei se foram envidados todos os esforços ou se mais alguma coisa poderia ter sido feita. Não vou tirar conclusões. Não quero tirar conclusões…

Conhecíamos os antecedentes cancerígenos. Tal como sabíamos que a doença, apesar de controlada, parecia dar mostras de se estar a desenvolver. O que não esperávamos era o que aconteceu a seguir. Num curto espaço de tempo a doença tinha alastrado com proporções descomunais. Nada havia a fazer. Nenhum tratamento seria já eficaz.

No meio do turbilhão em que se transformaram as vidas do doente e de quem o rodeava, restava apenas uma certeza: fazer tudo para minorar a dor até ao seu último suspiro.

O que fazer numa situação destas? Como enfrentar o doente? A família chegada? Como lidar com uma morte anunciada que pode chegar a qualquer instante? Que se sabe que não há forma de atrasar. De evitar e menos ainda de impedir que aconteça? Como explicar à mulher que dentro de dias, ou horas, pode perder aquele que é o seu único apoio? Como convencer um filho que aquela pode ser a última vez que vê o pai vivo? Como dizer aos netos que conviveram com o avô desde que nasceram e que ainda há dias o viam com aparente saúde, que podem não o voltar a ver?

Como enfrentar tudo e todos? Apoiar tudo e todos sem vacilar, mesmo que nós próprios estejamos a precisar de apoio?

Não há respostas para estas perguntas e se quando é necessário, conseguimos enfrentar as situações. Responder às solicitações que nos são feitas, dificilmente saberemos explicar como o fizemos.

A 24 de maio a situação atingira um nível de gravidade tal que a decisão foi administrar morfina. As últimas horas não tinha que ser de agonia! Vê-lo nessa tarde foi extremamente doloroso. Se  por um lado já não mostrava sinais de reconhecer quem o rodeava, se a voz ou o olhar já não respondiam ao que a mente ainda poderia desejar, os trejeitos de dor eram evidentes. A agitação e o mal-estar manifestavam-se de tal modo que foi necessário aumentar a dosagem.

Não é fácil assistir aos últimos momentos de quem já nem forças tem para lutar pela vida. Sentir que algo ainda parece querer revelar-se e nada poder fazer. 

Não é fácil sair de um quarto de hospital onde se sabe que não se volta a entrar. De onde se sabe que o doente já não voltará a sair…

A 25 de maio, sábado pela manhã, um toque de telemóvel deu a notícia ainda antes deste ser atendido. “Sabe porque lhe estou a ligar?” Como se a pergunta fosse necessária.

A 27 de maio foi o funeral daquele que para muitos era só o meu sogro. O pai do meu marido. O avô dos meus filhos… Mas foi também o funeral daquele que durante os últimos trinta anos sempre esteve presente. Para o filho. Para mim. Para os netos. Daquele que nunca soube dizer que não quando se lhe pedia alguma coisa. Independentemente do dia ou da hora. Daquele que, fosse qual fosse a dificuldade em que nos encontrávamos, tentava solucionar.

Por tudo isto, e porque há pessoas que merecem todo o nosso reconhecimento:

Obrigada por ter sido quem foi.



Adelina Antunes
03-junho-2013

1 comentário:

  1. A despedida é um momento nunca superado. Força minha querida ficará sempre na memória de todos. Bjs

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