quarta-feira, 12 de junho de 2013

Viver o luto - ser eterno

Ninguém se prepara para a viver a morte ou o luto.

Ninguém se prepara para receber a morte mediante a doença de um ente querido. Mesmo que essa doença seja tão mortal como o cancro.

Ninguém faz o luto antes da pessoa falecer. Durante o tempo em que se é obrigado a conviver com a doença, com o sofrimento de alguém que nos é querido. Cresce a revolta. Aumenta o desespero. A sensação de impotência perante algo que quereríamos evitar mas que sabemos nada poder fazer.

Cresce a saudade de alguém que ainda não partiu mas que, no fundo, já não está connosco. O pior é que quando essa pessoa parte, ninguém está preparado para aceitar a morte. Ninguém a aceita. É difícil fazer o luto.

E porquê? Porque nos habituamos à dor. Ao sofrimento. A uma morte que não sendo morte já não era vida. A não ter um ente querido que ainda ali está mas que no fundo já quase não existe…
E cresce uma revolta que se mistura com saudade. Que não nos deixa sofrer o que sofreríamos numa situação de perda menos dramática. Que não nos deixa chorar porque há muito deixamos de o conseguir fazer. Qua não nos deixa viver o luto como deveríamos viver.

Uma perda implica que façamos o luto pelo ente querido. E devemos fazer o luto. Sofrer. Chorar. Desesperar se isso tiver que ser… Para continuar a viver!

Numa situação de doença prolongada o sofrimento enraíza-se nos nossos corações. Invade-nos a alma. E permanece muito para além da morte.

A necessidade de lutar pela vida de alguém que sabemos estar a sofrer torna-se um ponto fulcral da nossa existência. A impotência perante a doença faz com que nos esqueçamos de nós e passemos a ver apenas a possibilidade de lutar por quem tanto amamos…
Mas,… e há sempre um mas, a morte chega e a vida continua. Para quem fica surge a necessidade de viver o luto. De deixar que quem partiu possa seguir em paz. Viveu a vida. Dêmos-lhe dignidade na morte. Deixemos que morra. Permitamos que parta.

É difícil de aceitar que, agora sim temos que sofrer. Chorar. Sentir saudade. Reviver momentos felizes e tristes vividos em conjunto. Recordar coisas boas e coisas más. Lembrar a pessoa que partir. Como pessoa que foi. Com qualidades e defeitos. Com dias bons e outros menos bons. Enfrentar o sofrimento. Encará-lo de frente e sofrer.

Custa! Claro que custa. Mas só assim poderemos continuar. Sofrer o suficiente. Chorar o bastante. Desesperar o necessário até conseguirmos recordar sem sofrer. Até sentirmos que nos libertamos do sofrimento. Da dor. Da saudade…

Até sentirmos que perdemos alguém que recordamos com carinho. Com saudade mas com uma saudade “saudável” que nos leva a recordar bons e maus momentos tal como eles realmente foram. Sem serem empolados pelos sentimentos que nos controlaram durante o período de sofrimento.

Até conseguirmos libertar-nos dos sentimentos que, durante a doença e logo após a morte, nos levam a ver apenas o bom. A colorir o mau com cores que nos agradam. A embelezar a recordação e que apenas contribuem para o aumento de uma saudade que se adensa com o tempo.

A memória, a recordação, o que lembramos devem e têm que ser saudáveis.

Não vamos recordar só coisas boas. Não vamos ver o ente perdido como se fosse intocável. Como se nunca tivesse errado ou como se fosse isento de defeitos. Vamos lembrar as birras, as brigas, os conflitos, as más acções e as más decisões. Vamos reviver situações conflituosas. Vamos sentir abraços e beijos. Carinhos e mimos. Vamos ver a pessoa que foi e que connosco conviveu. No seu melhor e no seu pior. Como pessoa que realmente foi e não idolatrada pelo período da doença. Não “endeusada” pela morte e pela saudade.

Afinal as boas recordações acabarão por prevalecer e as más serão atenuadas. Pesadas. Ponderadas no seu contexto real. Seremos capazes de ver o certo e o errado. De reconhecer a pessoa que era. Que foi e que ajudou a construir o que hoje somos.
Vamos poder falar sem chorar. Porque a recordação dói mas não magoa.

Vamos poder lembrar o que passou e reviver o quanto amamos. O quanto nos amou.

Vamos sentir que a deixamos partir. Que afinal a pessoa que foi mantém-se dentro de nós. Contribuiu para a pessoa que somos e que um dia, outros poderão sentir por nós o que agora sentimos. Que somos a continuidade dos que partiram. Que seremos o início dos que ficarem. Que assim, e só assim, seremos eternos!



Adelina Antunes
12-junho-2013

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