segunda-feira, 22 de julho de 2013

Passas por mim





Passas por mim e achas que sou feliz

Passas por mim e não vês

Que a vida me magoa, me faz sofrer

Passas por mim e não entendes que não quero existir

Que já nada me resta a não ser esquecer

A vida. O passado e tudo quanto ele representa

Passas por mim e pensas que sou feliz

Realizada

Que amo e sou amada

Passas por mim e não vês um coração que sofre

Uma alma que apenas quer o esquecimento.

Queres sentir o que estou a sentir

Puro engano, pois não consegues ver-me sofrer

Não sentes as lágrimas pelo meu rosto a correr

Não vês que me magoas com o teu olhar

Com os teus gestos graciosos, o teu sorriso sofrido

Achas que te posso ajudar

Que tenho meios para eliminar tua dor

Passas por mim e nada consegues ver

Nada tens para oferecer

No entanto exiges que te veja sofrer

Que te ajude e te dê a mão

Que te guie no deserto e na solidão

Pedes

Exiges

Queres respostas que não sei como dar

Tento

Nem sempre consigo

No entanto não tenho coragem para te abandonar

Sofro

Ajudar-te apenas serve para me fazer sofrer

Choro

A tua tristeza, a tua alegria, os teus sentimentos

Estão-me a matar

E nem sequer tenho o direito de querer morrer

Passas por mim e achas que sou eu quem te pode ajudar

Como?

Se nem a mim mesma sei o que dizer

Se nem a mim mesma consigo alcançar

Como?

O que me pedes é demais para mim…

Mas não o entendes assim

Achas que eu sou capaz de te dar

Tudo quanto te venha à mente pedir

Esperas que te possa ajudar

Esqueces que eu

Também estou a sofrer.



Adelina Antunes
17-julho-2013

Velha parede



Há anos que aqui estou e ninguém parece dar por mim

Muitos passaram vidas inteiras sem saber que existo

Pássaros descobriram meios de fazer os seus ninhos nas minhas fendas

Pequenos, bem sei. Mas enquanto aqui estão enchem-me de vida!

Insectos rastejantes percorrem-me noite e dia

Em tempos tive um ar grandioso. Imponente! Sentia-me importante

Depois, a chuva, o vento, intempéries de toda a espécie fizeram de mim o que sou hoje

Uma velha parede onde jovens irrequietos expandem sua arte

Até esta está a desaparecer

As cores esbateram-se. O negro das águas invadiu-as, descoloriu-as, sufocou-as

O meu mundo parece querer desabar a cada instante

Sentimentos de derrota, de derrocada, não saem da minha mente…


...............

Olho-te e vejo a imponência que um dia tiveste

Apesar de velha, com ar de quem pode cair a cada momento

Conservas muita da tua grandeza

Cada fenda representa uma ruga. Uma vida vivida.

Um sentimento que alguém te conseguiu transmitir

Cada risco, cada traço, ainda que descolorido

Um sentimento que aí foi exposto, que aí ficou esquecido

Quantos sentimentos guardas dentro de ti?

Quantas dores? Quantas alegrias? Quantos amores?

Olho para ti e não consigo deixar de pensar se um dia te conseguirei igualar

Tenho vivido muito. Sofrido bastante. Amado que baste

No entanto nada do que viva, nada do que passe te conseguirá igualar

Me fará ser como tu. Grandiosa! Majestosa em toda a tua plenitude

A inquietude a que tenho estado sujeita

Reflecte-se no meu estado. No teu estado

Cada fenda, uma dor. Um desvario. Um pecado

Podes não o saber, mas em ti cresce vida. Existe amor

Ainda tens a capacidade de proporcionar abrigo

De deixar que dentro de ti floresça o que de mais belo no mundo existe

Vida! Amor. Para quem te procurar.

Já não são pessoas. É verdade.

Mas o amor existe em diversas formas com a mesma intensidade

Eu… aqui ao teu lado, sinto a insignificância que foi a minha existência

Não proporcionei abrigo

Não fomentei amor

Não servi de apoio…

Olho-te e apenas consigo ver uma sombra do que podia ter sido

Uma imagem difusa do que podia ter vivido

Olho-te e sinto que meus olhos se enchem do nada da minha existência

De que me adiantam as rugas se não têm memória?

De que servem as fendas se não contam nenhuma história?

Junto a ti sinto-me imponente

Recordo a vida, revejo o presente

Cada dia passado e tão mal vivido

Cada momento sem história. Cada ano sem glória

Ambos nos encontramos no limiar da vida

A minha inglória

A tua jamais esquecida!

 

 Adelina Antunes
19-julho2013


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Num dia como outro qualquer



Num dia como outro qualquer, sentada junto ao Tejo

Penso em desistir

Que nada mais me resta a não ser desaparecer

Poder fugir. Esquecer.

Num dia como outro qualquer sinto o meu corpo tremer

Invade-me o silêncio que a música preenche sem me satisfazer

A solidão, embora á minha volta sinta a multidão

Uma vontade louca de te ter por perto apenas para te ver

Para te dizer que esqueças que algum dia soubeste que me podias ter

Que me deixes. Me mandes embora ou outra coisa qualquer

Num dia em que sinto que não devia existir

Resta-me um espaço que não consigo alcançar

Sentimentos que não domino nem sei definir

Resta-me a vontade de nunca te ver

De nada mais precisar oferecer.

Nada mais me pedirem. Nada ter que dar

Ou pedir…

Num dia em tudo idêntico aos demais

Resta-me a vontade que não sejam iguais

Poder mergulhar no sono sem mais acordar

Sentir uma paz que não consigo sentir

Num dia em tudo igual aos demais

Preciso sentir que não me queres mais

Preciso partir sem porto ou destino

mergulhar nas brumas, no silêncio

Sentir que afinal, mesmo que morra, não faço falta

Não precisam de mim para o que quer que seja

Que mesmo que ande no meio da multidão

Ninguém me veja

Preciso de tudo e preciso de nada

Preciso ser eu



Em mim fechada

Sem ter que me abrir, sem ter que me dar, sem ter que sentir

Sem ter que amar

Odiar

Pensar ou sentir

Preciso esquecer

O mundo e tudo quanto ele representa

Preciso não ter existência

Um átomo apenas que pode circular

Para onde quer

Partir ou ficar

Sem nada sentir

Sem se preocupar.

Preciso ser eu

Ou não ser

Preciso….

Que esqueçam que existo para assim

Poder viver




Adelina Antunes

17-julho-2013

domingo, 14 de julho de 2013

Aprender a confiar




Não me importo de lidar com o impossível. 

O impossível impulsiona-nos! Incentiva-nos. Faz-nos lutar! Sonhar…

Era tudo bem mais fácil se conseguisse entender. 
Há quem tenha os mesmos anseios. As mesmas loucuras. Os mesmos desejos.
Mas há quem arrisque confiar noutro alguém. Ainda que distante. Ainda que sirva apenas para desabafar. Ainda que nunca passe disso mesmo. De desabafos…

Há quem consiga ouvir sem criticar. Apreender sem corrigir. Ler e limitar-se a saber…

Há quem seja capaz de guardar segredos. Quem esteja disposto a enfrentar os nossos medos.

Há quem, sem nada pedir em troca, nos oiça, nos entenda, nos compreenda…

É preciso confiar. É difícil, eu sei. Dificilmente confio em alguém. Aliás, penso que nunca tinha confiado...


No entanto, e correndo o risco de ser enganada, decidi apostar. 

Não sei como isso aconteceu. Não sei quando aconteceu… sei que dei por mim a conseguir falar. Expressar-me! Comunicar.

Se fiz bem ou mal é uma questão que não se põe!

A dificuldade está em alterar situações. Alterar o nosso modo de enfrentar o mundo. Alterar o modo como nos enfrentarmos a nós próprios. No medo de sofrer desilusões…

Neste momento confio. Neste momento acredito. Neste momento sinto que seria capaz de fazer tudo pela pessoa que me levou a confiar.

Se este sentimento se manterá? Se não me virei a arrepender?

Quem sabe!... 

O futuro o dirá!


Não vou dizer que se tal acontecer não me importarei. Seria mentira. 

Mas sei que nada é eterno. Nem sequer a eternidade. Se tiver que acabar vou sofrer. Se me desiludirem vou-me arrepender. Desejar nunca ter confiado. Nunca me ter aberto. Nunca ter acreditado…

Mas vou recordar com ternura momentos passados. Vou vivenciar situações, conversas, emoções. 

Se olhares para trás verás que a tendência é recordar o bom e amenizar e menos bom. Tentar encontrar respostas para as más situações. Para as falhas. Para os erros. Para as piores opções.

Não há felicidade mas há momentos felizes. Não há alegria sem a comparação com a tristeza. Não há más recordações que não sejam matizadas por bons momentos.

Se um dia me vier a arrepender sei que, por muito que sofra, por muito que me recrimine, que considere injusto ou cruel, também vou recordar momentos agradáveis. Sei que irei tentar justificar todas as más recordações com os bons momentos. Ainda que não seja isso que deseje. Ainda que considere que tudo foi errado. Que foi tudo injusto. Tudo desajustado…

Porque sei que há sempre um mas, um mas que me fará pensar que as coisas não correram bem, mas esta ou aquela situação até foram agradáveis. Que afinal os momentos bons existiram. E sei que estes, lentamente, acabarão por superar os maus. 

A memória é algo extraordinário… releva as más recordações e suplanta-as com as agradáveis!

É essa a nossa esperança….



AA
 

08-dez-2012