segunda-feira, 22 de julho de 2013

Velha parede



Há anos que aqui estou e ninguém parece dar por mim

Muitos passaram vidas inteiras sem saber que existo

Pássaros descobriram meios de fazer os seus ninhos nas minhas fendas

Pequenos, bem sei. Mas enquanto aqui estão enchem-me de vida!

Insectos rastejantes percorrem-me noite e dia

Em tempos tive um ar grandioso. Imponente! Sentia-me importante

Depois, a chuva, o vento, intempéries de toda a espécie fizeram de mim o que sou hoje

Uma velha parede onde jovens irrequietos expandem sua arte

Até esta está a desaparecer

As cores esbateram-se. O negro das águas invadiu-as, descoloriu-as, sufocou-as

O meu mundo parece querer desabar a cada instante

Sentimentos de derrota, de derrocada, não saem da minha mente…


...............

Olho-te e vejo a imponência que um dia tiveste

Apesar de velha, com ar de quem pode cair a cada momento

Conservas muita da tua grandeza

Cada fenda representa uma ruga. Uma vida vivida.

Um sentimento que alguém te conseguiu transmitir

Cada risco, cada traço, ainda que descolorido

Um sentimento que aí foi exposto, que aí ficou esquecido

Quantos sentimentos guardas dentro de ti?

Quantas dores? Quantas alegrias? Quantos amores?

Olho para ti e não consigo deixar de pensar se um dia te conseguirei igualar

Tenho vivido muito. Sofrido bastante. Amado que baste

No entanto nada do que viva, nada do que passe te conseguirá igualar

Me fará ser como tu. Grandiosa! Majestosa em toda a tua plenitude

A inquietude a que tenho estado sujeita

Reflecte-se no meu estado. No teu estado

Cada fenda, uma dor. Um desvario. Um pecado

Podes não o saber, mas em ti cresce vida. Existe amor

Ainda tens a capacidade de proporcionar abrigo

De deixar que dentro de ti floresça o que de mais belo no mundo existe

Vida! Amor. Para quem te procurar.

Já não são pessoas. É verdade.

Mas o amor existe em diversas formas com a mesma intensidade

Eu… aqui ao teu lado, sinto a insignificância que foi a minha existência

Não proporcionei abrigo

Não fomentei amor

Não servi de apoio…

Olho-te e apenas consigo ver uma sombra do que podia ter sido

Uma imagem difusa do que podia ter vivido

Olho-te e sinto que meus olhos se enchem do nada da minha existência

De que me adiantam as rugas se não têm memória?

De que servem as fendas se não contam nenhuma história?

Junto a ti sinto-me imponente

Recordo a vida, revejo o presente

Cada dia passado e tão mal vivido

Cada momento sem história. Cada ano sem glória

Ambos nos encontramos no limiar da vida

A minha inglória

A tua jamais esquecida!

 

 Adelina Antunes
19-julho2013


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