terça-feira, 10 de setembro de 2013

Eternas crianças


Ao entrar no autocarro fui confrontada com uns olhos abertos de expressão infantil e com uma mão que se estendia na minha direção, qual criança que clama pela atenção de quem se aproxima. Instintivamente o meu olhar percorreu os rostos mais próximos à procura de outro de não andaria longe. Lá estava. Por detrás desses olhos ansiosos, outros; velhos, cansados, emoldurados por um semblante de tristeza, um rosto enrugado e cabelos quase totalmente brancos.

Lembro-me delas há mais de vinte e cinco anos atrás. Um corpo adolescente com olhos de criança. Gestos em eterna procura, qual menininha que pretende alcançar algo que deseja. Já então a mãe tinha o ar cansado de quem leva pela mão um eterno bebé que, com o tempo, ganhou corpo de adolescente. Tal como na altura a mãe continua a levá-la pela mão. Tal como então não fala. Limita-se a pequenos trejeitos de boca e alguns gestos languidos como que querendo agarrar o que lhe surge pela frente. Os olhos continuam abertos, numa constante procura, no entanto o brilho que então ainda detinham já lá não está. O rosto apresenta algumas rugas. Os cabelos começam a ficar grisalhos. O corpo, agora de adulta, parece ter dificuldade em obedecer. Desder do autocarro revela-se uma aventura difícil de ultrapassar. Mas lá seguem as duas. A mãe, com idade de ser avó, leva pela mão a filha com idade de ser mãe mas que, mentalmente, continua a ser um bebé!

Não pude evitar um estremecimento! Por muito amor que uma mãe consiga dedicar a uma filha com deficiências profundas, até quando conseguirá aguentar? Que é feito da vida destas duas pessoas? O que será da criança em corpo de adulta, que não fala, que não dispõe de qualquer autonomia quando aquela mãe lhe faltar?

Num mundo em que a esperança de vida continua a aumentar, as instituições de solidariedade social são cada vez mais o apoio destas pessoas. A família, à força do cansaço de cuidar de um bebé que vai adquirindo corpo de criança, adolescente, adulto, vai sentindo as forças esvaírem-se. No entanto continuam ali! De pedra e cal! Quantas vezes deixando de lado a sua própria existência…

Adelina Antunes

11-07-2012

(Destak 19-07-2012)


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