sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Violência doméstica



Quem trabalha ou já passou longos períodos numa urgência hospitalar já se deparou com certeza com situações caricatas em que o utente (ou, na maioria dos casos, a utente) dá entrada na urgência com hematomas, escoriações e por vezes mesmo com membros partidos atribuídos a quedas aparatosas e complicadas da qual terá sido vítima.

Um ouvido apurado ou mesmo a proximidade provocada pelo espaço destinado à espera leva a que por vezes se “apanhem” bocados de conversas. Ameaças veladas ou comentários sobre o que realmente aconteceu. Descobre-se então tratar-se não de uma vítima de queda mas sim de violência doméstica. O que fazer em tal situação? A violência doméstica é já um crime público e que pode ser denunciado mas… 

Na maioria das situações, e se é outro utente que se apercebe da situação, a reacção natural é ignorar. Fingir que não ouviu nada do que ali se passou ainda que ao chegar a casa ou em conversa com familiares ou amigos comente a situação. Os diálogos que ouviu. As ameaças, mais abertas ou ditas entre dentes de modo a não ser percebida. Não há, salvo raras excepções, uma tomada de atitude por parte de quem se vê perante uma situação destas. Não se pode dizer que exista um sentimento de civismo, de solidariedade que leve a que alguém confrontado com estas situações decida actuar. Decida que pode. Que deve. Que tem obrigação de comunicar a situação à polícia que está sempre presente nestas instituições.

E que faz um funcionário que, por mero acaso, se aperceba que o motivo é, não uma queda mas sim violência? Toma uma atitude e informa a polícia? Devo dizer que, em muitas situações já é isso que acontece. Já existe nestes funcionários a consciência de que não podem ignorar a situação e, mesmo contra a vontade do utente, a denunciam.

Mas… e as vitimas? O que as leva a aceitar uma situação no mínimo degradante? Humilhante?

O que faz com que uma vítima de violência doméstica cale e prefira fingir que sofreu uma queda, um acidente doméstico ou qualquer outra situação do que ser directo e acusar o agressor?

Na maioria, se não na totalidade dos casos, porque esse é a última pessoa de quem esperariam tal atitude. Um marido (ou esposa), um pai, um filho, um irmão… alguém com quem convivem e em quem deveriam poder confiar. Alguém de quem esperariam protecção e não atitudes violentas, de coacção, ameaças, sejam elas físicas ou mentais. Na maioria dos casos porque sentem vergonha de serem vítimas dentro das suas próprias casas. Porque até gostam do agressor. Porque esperam que tal não se repita. Porque sente que, se calhar, até teve culpa. Que se mudar de atitude em relação ao agressor este talvez volte a ser o ser carinhoso de que se lembra…

O que leva a que alguém agrida quem é suposto amar? Proteger? Apoiar? 

Muitas razões podem ser, e são, apontadas. O desespero por uma situação de desemprego. O uso de drogas ou outro tipo de estupefacientes. O consumo de bebidas alcoólicas…  ciúmes, traição… poderia enumerar muitas que pretendem ser validadas pela situação de quem comete este tipo de crime. Não vejo no entanto que, seja qual for a razão, alguém possa validar uma situação deste tipo.

Em pleno século XXI, e malgrado as campanhas que vão sendo feitas para alertar para estas situações, ainda há vítimas que se calam até às últimas consequências. Ainda há quem tenha conhecimento de situações ultrajantes passadas em casa de familiares, amigos, vizinhos ou conhecidos sem ter a coragem de as denunciar. Ainda há espaço para se apelar à não-violência. 

Onde pára o civismo? A humanidade de que todos nos deveríamos orgulhar?

Onde está a solidariedade para agir em situações deste tipo?

Até quando agressores e vítimas continuarão a conviver, a agredir e a ser agredidos?

Num mundo que deveria ser civilizado os casos de vítimas de violência e de abusos por parte de quem com eles priva, de agressões sexuais ou outras, continua a ser uma realidade não apenas em países ditos do terceiro mundo, como em países ditos civilizados.

Vivemos num mundo que se orgulha de combater a violência. Que invade países com a desculpa de proteger os direitos humanos. 

Vivemos num mundo em que os governos fazem cimeiras ditas para proteger os direitos humanos.

Vivemos num mundo em que os militares percorrem milhares de quilómetros para defender as vítimas do terrorismo…

Vivemos num mundo que continua a ignorar as vítimas mais próximas. Aquelas com quem, muitas vezes, convivemos diariamente.

Porque são invisíveis aos nossos olhos. Porque calam a vergonha de serem vítimas. Porque…

Temos vergonha de assumir no caso de sermos vítimas.

Temos preconceitos que nos dizem que não nos devemos “meter” na vida dos outros…

Até quando?


Adelina Antunes
09-set-2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Noite...


Tudo à sua volta tem uma tonalidade difusa. As imagens e os objectos esbatem-se como que envoltos num nevoeiro espesso. Sabe que tem que avançar. Sabe que, por qualquer motivo que de momento não lhe ocorre, tem de seguir em frente. Uma missão a cumprir… Uma missão? Sim. Trata-se provavelmente de uma missão pois nada mais o faria andar num ambiente tão hostil. 

Sombras apressadas passam por si. Sombras de alguém que segue na mesma direcção ou em sentido contrário. Tenta uma aproximação. Tenta falar-lhes mas estas não parecem notar a sua presença ou estão demasiado longe para que o consigam ouvir. Grita na esperança de lhes chamar a atenção. Sente o grito mas não o consegue ouvir pois este esbate-se na densidade opaca do nevoeiro que o envolve.

Roda em torno de si mesmo na esperança de localizar algo que lhe indique onde está. Que rumo seguir. Que direcção tomar. O mundo gira à sua volta e com ele o destino que deveria ser certo mas que teima em fugir-lhe por entre os dedos. Sente-se perdido e no desespero de encontrar algo sólio a que se agarrar, tacteia o ar à sua volta sem no entanto obter qualquer resultado.

Uma sensação de desequilíbrio, de queda, de mergulho num poço sem fundo apodera-se de si. O desespero aumenta ao ritmo que a capacidade de raciocínio vai diminuindo. Ecoam-lhe palavras desmotivadoras num cérebro prestes a desistir de lutar. “Desiste!” “Entrega-te ao desespero!” “Não lutes!”… A entrega é fácil. A opção mais evidente e a que apetece tomar. Tão fácil deixar-se ficar sem nada fazer. Entregar-se e depois…

Sabe que desistir não é opção. Que independentemente de tudo o que possa ocorrer, tem que reagir. Encontrar uma saída. Ela existe! É preciso é saber onde procurar. Onde a encontrar. O simples pensamento de que precisa reagir parece aumentar-lhe as forças e reavivar um ânimo quase inexistente. Lentamente vai sentido o corpo, a mente e a alma revigorarem-se. Não procura um motivo para reagir pois não saberia onde o procurar. O simples facto de estar vivo terá que ser o bastante.

Olha à sua volta. As sombras tornam-se mais nítidas. Mais próximas. Reconhece algumas. Figuras com que conviveu em tempos passados e que o olham como se também elas o reconhecessem. Tenta uma aproximação mas estas ao mais ligeiro sinal de proximidade, retraem-se. Afastam-se e seguem apressadas em direcção ao nada que os envolve. Presta atenção ao modo como surgem. Como desaparecem. Surgem do nada e desaparecem na neblina que persiste. Sente-se invadido por uma solidão estranha. Indefinível e que lhe gera mau estar.

A sua memória é percorrida por cenas há muito esquecidas. Momentos vividos e que foram arquivados algures nos meandros de uma mente demasiado ocupada. Pequenos nadas. Pequenos pormenores. Nada que merecesse atenção quando ocorreu. Nada que parecesse importante. Nada que devesse ser memorizado mas que agora surgem perante os seus olhos. Revê-os. Revive-os enquanto estes ganham forma e tamanho. Enquanto o envolvem quais sombras que o cercam envoltas num nevoeiro espeço e asfixiante. Quer livrar-se delas e da sensação que estas lhe provocam. Pequenos nadas! Porquê então esta angústia? Esta sensação de impotência e de desamparo? Porquê agora?

Talvez esteja na hora de os enfrentar, os descodificar e entender. Talvez deva fazer-lhes frente. Questioná-los. A decisão não é fácil pois não sabe até que ponto será arrastado para esse passado há tanto esquecido. À sua volta o nevoeiro parece cada vez mais denso. Mais impenetrável mas ao mesmo tempo as sombras parecem ganhar mais vida e circular com mais naturalidade. Uma em especial aproxima-se. Um movimento subtil dá a entender que estará disposta a falar-lhe. A responder-lhe. Cautelosamente, não vá ela afastar-se, aproxima-se e ao seu gesto a sombra responde aproximando-se também. Está já muito perto. Timidamente esboça um gesto na sua direcção sem que ela se retraia. Quem sabe se a conseguirá questionar? Procura as palavras exactas com que se lhe dirigir e…

Ao longe uma música suave indica que são horas de se levantar...


Adelina Antunes

24-out-2013

Um dia na vida de um solitário



Acordar cedo tornou-se uma rotina, não porque precise mas porque não consegue permanecer na cama. Sabe que tem tempo e que é demasiado cedo para sair para o trabalho mas não é por isso que permanece deitado mais tempo.

Olha as pessoas que à sua volta correm para os transportes e continua com calma. Como se não fizesse parte desse mundo apressado. Devagar, como se carregasse aos ombros um fardo difícil de suportar, faz o caminho que o leva ao emprego. Não quer chegar. Não quer iniciar mais um dia em que desenvolve automaticamente tarefas que não são do seu agrado. Em que os colegas passam por ele e parecem não o ver. Há muito que se sente invisível no trabalho. Circula. Cumpre as suas obrigações. Sai para almoçar e deambula pelas ruas próximas até à hora de regressar. Executa o seu trabalho com competência e profissionalismo. Cumprir os compromissos assumidos é para si é um ponto de honra. Não espera qualquer espécie de agradecimento. Não anseia o reconhecimento. O simples facto de se saber competente naquilo que faz basta-lhe. No entanto há colegas que parecem temê-lo como se de algum modo pensassem que lhes poderia “tirar” o lugar. 

Sabe que há comentários e mexericos sobre o seu silêncio. A sua forma de estar. O facto de se isolar e não se misturar com os colegas mas isso não o incomoda. Raramente participa em almoços, jantares ou qualquer espécie de convívio organizado quer pela empresa quer pelos colegas e das poucas vezes que o faz acaba por arranjar uma desculpa para sair mais cedo.

Ao fim do dia, quando todos se apressam para sair do trabalho e regressar às suas casas, é capaz de ficar mais um pouco. Uma tarefa inacabada. Um telefonema de última hora. O computador que demora a encerrar. Tudo serve de desculpa para demorar um pouco mais. Não tem pressa. Nada há que faça com que necessite apressar-se a regressar a casa. 

Sai do serviço, dirige-se ao jardim ou até à margem do rio e senta-se um pouco a observar o movimento à sua volta. Pessoas que correm apressadas. Umas para irem, talvez, para uma qualquer escola ou faculdade. Algumas, para um segundo emprego ou mesmo o único mas que funciona em horários desfasados. A maioria que corre para regressar a casa. 

Lentamente inicia uma marcha que o levará aquela que deixou de ver como a sua casa. O seu lar. Atravessa nas passadeiras ou espera calmamente que a luz verde para peões surja. Descobre pormenores à sua volta que tem a certeza de não serem vistos por ninguém tal é o frémito em que se vive nos dias de hoje. Cruza-se com alguém conhecido. Também ele apressado. Também ele em passo de quase corrida e fá-lo parar. Cumprimenta e tenta encetar uma conversa que, sabe, não surtirá efeito porque o outro tem pressa. Porque tem alguém à sua espera. Porque os transportes, por muito que haja quem diga o contrário, cumprem os horários e não se pode dar ao luxo de os perder…

Segue o caminho momentaneamente interrompido com a sensação de ter sido rejeitado. A rejeição é algo a que não se consegue habituar! Dizem que nos habituamos a tudo na vida mas não consegue convencer-se disso. É por isso que continua a tentar contactar com os amigos. Telefona. Envia mensagens. Procura na Internet. As respostas invariavelmente são as mesmas: o trabalho que é muito. A tempo que é pouco… fica a promessa de um contacto posterior que nunca acontece.

Há muito que se sente marginalizado. Excluído do mundo. Do trabalho. Da família. Da sua própria casa. Não consegue explicar quando ou como aconteceu mas sabe que há muito tempo que se sente assim. Demasiado tempo, diria.

O mundo continua igual. O trabalho é o mesmo. A casa continua lá tal como a família. Nada parece ter mudado no entanto nada é igual ao que deveria ser. É impossível de explicar. De dizer porque sente esta marginalidade. Aparentemente nada mudou nos últimos anos no entanto nada é o que era. Pequenos nadas que se perdem e que, juntos, fazem um todo enorme e alteraram um mundo em que se sentia pleno e realizado.

Onde foi que perdeu o rumo?

Onde se desviou daquela vida que parecia sempre tão igual a si mesma?

O que o fez mudar? 

Foi ele que mudou ou foi tudo à sua volta?

O mundo. O seu mundo já não é o que tinha. O que contava ter.

A sua casa. O seu lar. O lar que construiu com tanto empenho desapareceu algures dando lugar ao um espaço inóspito no qual não consegue permanecer. Está tudo lá! Tudo! Como sempre foi e de como se lembra. No entanto nada é o que era. Não se vê a dormir nas ruas e nem sequer tem outro sítio para onde ir mas também não sente que possa ou deva deitar-se na cama que durante tanto tempo foi sua. Que continua a ser sua.

As horas passam e apesar do cansaço, de desejar dormir, não consegue deitar-se e permanece em frente do computador. A Internet é um mundo. Um convívio global e espera encontrar aí alguém com quem falar. Alguém a quem posso dizer como foi o seu dia. Com quem possa trocar impressões sobre o estado da nação, política, falar de futebol ou mesmo do tempo mas neste universo em que vidas e destinos se cruzam à velocidade de um clic, ninguém parece notar a sua presença. Sabe que alguns amigos estão, também eles, em frente de um qualquer computador. Muitos provávelmente a falar entre si. Sobre a vida. Sobre amores e desamores. Sobre tudo ou sobre nada. Sabe porque um universo de pequenas luzes verdes assim lho indicam. Escolhe um ou outro e tenta o diálogo. Dá uma ou outra opinião em conversas a decorrer mas de imediato estas cessam. As respostas vagas e as despedidas acontecem. 

Permanece ligado até que todas as luzes verdes desparecem e então, no meio de uma solidão que foi aumentando ao longo do dia, decide que são horas de proporcionar ao corpo, cada vez mais cansado, um pouco de descanso. 

Na cama a companhia de há muitos anos dorme profundamente. Com cuidado para não a acordar deita-se na beira da cama. O sono que teimosamente demora a chegar dá lugar a sonhos mirabolantes que tanto recordam tempos passados como idealizam dias futuros. A noite, constantemente interrompida por ligeiros acordares, termina com o toque do despertador e dá lugar a mais um dia igual ao anterior…


Adelina Antunes
22-set-2013