quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Noite...


Tudo à sua volta tem uma tonalidade difusa. As imagens e os objectos esbatem-se como que envoltos num nevoeiro espesso. Sabe que tem que avançar. Sabe que, por qualquer motivo que de momento não lhe ocorre, tem de seguir em frente. Uma missão a cumprir… Uma missão? Sim. Trata-se provavelmente de uma missão pois nada mais o faria andar num ambiente tão hostil. 

Sombras apressadas passam por si. Sombras de alguém que segue na mesma direcção ou em sentido contrário. Tenta uma aproximação. Tenta falar-lhes mas estas não parecem notar a sua presença ou estão demasiado longe para que o consigam ouvir. Grita na esperança de lhes chamar a atenção. Sente o grito mas não o consegue ouvir pois este esbate-se na densidade opaca do nevoeiro que o envolve.

Roda em torno de si mesmo na esperança de localizar algo que lhe indique onde está. Que rumo seguir. Que direcção tomar. O mundo gira à sua volta e com ele o destino que deveria ser certo mas que teima em fugir-lhe por entre os dedos. Sente-se perdido e no desespero de encontrar algo sólio a que se agarrar, tacteia o ar à sua volta sem no entanto obter qualquer resultado.

Uma sensação de desequilíbrio, de queda, de mergulho num poço sem fundo apodera-se de si. O desespero aumenta ao ritmo que a capacidade de raciocínio vai diminuindo. Ecoam-lhe palavras desmotivadoras num cérebro prestes a desistir de lutar. “Desiste!” “Entrega-te ao desespero!” “Não lutes!”… A entrega é fácil. A opção mais evidente e a que apetece tomar. Tão fácil deixar-se ficar sem nada fazer. Entregar-se e depois…

Sabe que desistir não é opção. Que independentemente de tudo o que possa ocorrer, tem que reagir. Encontrar uma saída. Ela existe! É preciso é saber onde procurar. Onde a encontrar. O simples pensamento de que precisa reagir parece aumentar-lhe as forças e reavivar um ânimo quase inexistente. Lentamente vai sentido o corpo, a mente e a alma revigorarem-se. Não procura um motivo para reagir pois não saberia onde o procurar. O simples facto de estar vivo terá que ser o bastante.

Olha à sua volta. As sombras tornam-se mais nítidas. Mais próximas. Reconhece algumas. Figuras com que conviveu em tempos passados e que o olham como se também elas o reconhecessem. Tenta uma aproximação mas estas ao mais ligeiro sinal de proximidade, retraem-se. Afastam-se e seguem apressadas em direcção ao nada que os envolve. Presta atenção ao modo como surgem. Como desaparecem. Surgem do nada e desaparecem na neblina que persiste. Sente-se invadido por uma solidão estranha. Indefinível e que lhe gera mau estar.

A sua memória é percorrida por cenas há muito esquecidas. Momentos vividos e que foram arquivados algures nos meandros de uma mente demasiado ocupada. Pequenos nadas. Pequenos pormenores. Nada que merecesse atenção quando ocorreu. Nada que parecesse importante. Nada que devesse ser memorizado mas que agora surgem perante os seus olhos. Revê-os. Revive-os enquanto estes ganham forma e tamanho. Enquanto o envolvem quais sombras que o cercam envoltas num nevoeiro espeço e asfixiante. Quer livrar-se delas e da sensação que estas lhe provocam. Pequenos nadas! Porquê então esta angústia? Esta sensação de impotência e de desamparo? Porquê agora?

Talvez esteja na hora de os enfrentar, os descodificar e entender. Talvez deva fazer-lhes frente. Questioná-los. A decisão não é fácil pois não sabe até que ponto será arrastado para esse passado há tanto esquecido. À sua volta o nevoeiro parece cada vez mais denso. Mais impenetrável mas ao mesmo tempo as sombras parecem ganhar mais vida e circular com mais naturalidade. Uma em especial aproxima-se. Um movimento subtil dá a entender que estará disposta a falar-lhe. A responder-lhe. Cautelosamente, não vá ela afastar-se, aproxima-se e ao seu gesto a sombra responde aproximando-se também. Está já muito perto. Timidamente esboça um gesto na sua direcção sem que ela se retraia. Quem sabe se a conseguirá questionar? Procura as palavras exactas com que se lhe dirigir e…

Ao longe uma música suave indica que são horas de se levantar...


Adelina Antunes

24-out-2013

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