quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Um dia na vida de um solitário



Acordar cedo tornou-se uma rotina, não porque precise mas porque não consegue permanecer na cama. Sabe que tem tempo e que é demasiado cedo para sair para o trabalho mas não é por isso que permanece deitado mais tempo.

Olha as pessoas que à sua volta correm para os transportes e continua com calma. Como se não fizesse parte desse mundo apressado. Devagar, como se carregasse aos ombros um fardo difícil de suportar, faz o caminho que o leva ao emprego. Não quer chegar. Não quer iniciar mais um dia em que desenvolve automaticamente tarefas que não são do seu agrado. Em que os colegas passam por ele e parecem não o ver. Há muito que se sente invisível no trabalho. Circula. Cumpre as suas obrigações. Sai para almoçar e deambula pelas ruas próximas até à hora de regressar. Executa o seu trabalho com competência e profissionalismo. Cumprir os compromissos assumidos é para si é um ponto de honra. Não espera qualquer espécie de agradecimento. Não anseia o reconhecimento. O simples facto de se saber competente naquilo que faz basta-lhe. No entanto há colegas que parecem temê-lo como se de algum modo pensassem que lhes poderia “tirar” o lugar. 

Sabe que há comentários e mexericos sobre o seu silêncio. A sua forma de estar. O facto de se isolar e não se misturar com os colegas mas isso não o incomoda. Raramente participa em almoços, jantares ou qualquer espécie de convívio organizado quer pela empresa quer pelos colegas e das poucas vezes que o faz acaba por arranjar uma desculpa para sair mais cedo.

Ao fim do dia, quando todos se apressam para sair do trabalho e regressar às suas casas, é capaz de ficar mais um pouco. Uma tarefa inacabada. Um telefonema de última hora. O computador que demora a encerrar. Tudo serve de desculpa para demorar um pouco mais. Não tem pressa. Nada há que faça com que necessite apressar-se a regressar a casa. 

Sai do serviço, dirige-se ao jardim ou até à margem do rio e senta-se um pouco a observar o movimento à sua volta. Pessoas que correm apressadas. Umas para irem, talvez, para uma qualquer escola ou faculdade. Algumas, para um segundo emprego ou mesmo o único mas que funciona em horários desfasados. A maioria que corre para regressar a casa. 

Lentamente inicia uma marcha que o levará aquela que deixou de ver como a sua casa. O seu lar. Atravessa nas passadeiras ou espera calmamente que a luz verde para peões surja. Descobre pormenores à sua volta que tem a certeza de não serem vistos por ninguém tal é o frémito em que se vive nos dias de hoje. Cruza-se com alguém conhecido. Também ele apressado. Também ele em passo de quase corrida e fá-lo parar. Cumprimenta e tenta encetar uma conversa que, sabe, não surtirá efeito porque o outro tem pressa. Porque tem alguém à sua espera. Porque os transportes, por muito que haja quem diga o contrário, cumprem os horários e não se pode dar ao luxo de os perder…

Segue o caminho momentaneamente interrompido com a sensação de ter sido rejeitado. A rejeição é algo a que não se consegue habituar! Dizem que nos habituamos a tudo na vida mas não consegue convencer-se disso. É por isso que continua a tentar contactar com os amigos. Telefona. Envia mensagens. Procura na Internet. As respostas invariavelmente são as mesmas: o trabalho que é muito. A tempo que é pouco… fica a promessa de um contacto posterior que nunca acontece.

Há muito que se sente marginalizado. Excluído do mundo. Do trabalho. Da família. Da sua própria casa. Não consegue explicar quando ou como aconteceu mas sabe que há muito tempo que se sente assim. Demasiado tempo, diria.

O mundo continua igual. O trabalho é o mesmo. A casa continua lá tal como a família. Nada parece ter mudado no entanto nada é igual ao que deveria ser. É impossível de explicar. De dizer porque sente esta marginalidade. Aparentemente nada mudou nos últimos anos no entanto nada é o que era. Pequenos nadas que se perdem e que, juntos, fazem um todo enorme e alteraram um mundo em que se sentia pleno e realizado.

Onde foi que perdeu o rumo?

Onde se desviou daquela vida que parecia sempre tão igual a si mesma?

O que o fez mudar? 

Foi ele que mudou ou foi tudo à sua volta?

O mundo. O seu mundo já não é o que tinha. O que contava ter.

A sua casa. O seu lar. O lar que construiu com tanto empenho desapareceu algures dando lugar ao um espaço inóspito no qual não consegue permanecer. Está tudo lá! Tudo! Como sempre foi e de como se lembra. No entanto nada é o que era. Não se vê a dormir nas ruas e nem sequer tem outro sítio para onde ir mas também não sente que possa ou deva deitar-se na cama que durante tanto tempo foi sua. Que continua a ser sua.

As horas passam e apesar do cansaço, de desejar dormir, não consegue deitar-se e permanece em frente do computador. A Internet é um mundo. Um convívio global e espera encontrar aí alguém com quem falar. Alguém a quem posso dizer como foi o seu dia. Com quem possa trocar impressões sobre o estado da nação, política, falar de futebol ou mesmo do tempo mas neste universo em que vidas e destinos se cruzam à velocidade de um clic, ninguém parece notar a sua presença. Sabe que alguns amigos estão, também eles, em frente de um qualquer computador. Muitos provávelmente a falar entre si. Sobre a vida. Sobre amores e desamores. Sobre tudo ou sobre nada. Sabe porque um universo de pequenas luzes verdes assim lho indicam. Escolhe um ou outro e tenta o diálogo. Dá uma ou outra opinião em conversas a decorrer mas de imediato estas cessam. As respostas vagas e as despedidas acontecem. 

Permanece ligado até que todas as luzes verdes desparecem e então, no meio de uma solidão que foi aumentando ao longo do dia, decide que são horas de proporcionar ao corpo, cada vez mais cansado, um pouco de descanso. 

Na cama a companhia de há muitos anos dorme profundamente. Com cuidado para não a acordar deita-se na beira da cama. O sono que teimosamente demora a chegar dá lugar a sonhos mirabolantes que tanto recordam tempos passados como idealizam dias futuros. A noite, constantemente interrompida por ligeiros acordares, termina com o toque do despertador e dá lugar a mais um dia igual ao anterior…


Adelina Antunes
22-set-2013

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