quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Noite de Natal



A mesa está posta! A tradição cumpre-se mais uma vez e o bacalhau com todos é o rei. Um a um os lugares são ocupados e ela, tal como acontece nos últimos anos, ocupa o lugar que lhe está destinado. As conversas, contrariamente ao habitual, não fluem à mesa e se um ou outro tenta manter o diálogo, este soa estranho. Forjado! Ninguém parece sentir-se à vontade. Ou melhor: ninguém está confortável!

Tinha chegado cedo. Sozinha em casa não havia nada que a ocupasse pelo que decidiu que o melhor era ir andando. Sabia que não ia ser fácil. Sabia que não o queria fazer mas tinha-se comprometido a tentar. Ou melhor… Quando disse que este ano o Natal não fazia sentido foi confrontada com o que sentiriam os netos se ela lhes negasse o Natal tal tinham tido desde que nasceram? Claro que este seria diferente! Competia a todos lutar um pouco para que essa diferença não fosse muito sentida!

A nora e a filha foram para a cozinha e quando ela quis entrar disseram que não. Não pode evitar sentir-se excluída, posta de parte. Na companhia do filho tentou manter uma conversa de circunstância que a impedisse de pensar no que se passava na cozinha. Não conseguiu evitar um comentário. Não conseguiu mostrar o quanto se sentia posta de parte. Na verdade o papel dela ao longo dos anos sempre fora tratar dos fritos e isso a nora sempre fizera questão de preservar. Fazia-os como tinha aprendido com a mãe e a avó. A nora sempre disse que na sua aldeia a tradição era diferente e que os fritos não se faziam assim mas sempre lhe deu a liberdade de os fazer à sua maneira. Ainda que por vezes nem sequer os provasse.

Ao fim de algum tempo a nora pediu-lhe que tratasse dos fritos. Fê-los como sempre fizera. E ficaram bons. Este ano correram-lhe mesmo bem! 

Na hora de ir para a mesa bateu a saudade. Foi naquele momento que sentiu verdadeiramente a falta do marido falecido há uns meses atrás. Até ali, ocupada com os fritos, quase parecia um Natal como tantos outros mas agora, com aquele lugar vazio à mesa, as forças desapareceram e os soluços que tinha tentado evitar durante todo o dia, surgiram. A neta, sentada ao seu lado, pareceu não dar por nada. Ninguém pareceu dar por nada. O seu rosto crispou-se de dor. As lágrimas inundaram-lhe os olhos e um suspiro saiu do mais fundo do seu ser. Como que por acaso, a nora olhou-a “coma, senhora!”, outro suspiro! Um arrepio percorreu-lhe o corpo e mais uma vez os olhos ficaram marejados de lágrimas. Tinha que conseguir recompor-se. Tinha de esconder bem fundo aquele sentimento. Aquela saudade. Aquela falta que não consegue deixar de sentir desde que o marido a deixou. 

Recorda o que a nora lhe disse: “Deixe-o morrer! Deixe que ele viva a morte em paz!” 

Uma contradição. Viver a morte! Na altura achou aquilo um autêntico disparate. Mas ao pensar nas vezes que chama o marido. Que evoca a sua presença. Que o sente ao seu lado … Como se estivesse ali. Vivo! A abraçá-la ternamente… Aquelas frases parecem ganhar sentido. Sempre acreditou que existe algo depois da morte. Vive para o momento em que esta a leve para junto daquele que amou por mais de cinquenta anos. Morrer para o encontrar! Para poder voltar a sentir o calor do seu abraço. A preocupação na sua voz quando lhe dizia que tivesse cuidado ao andar na rua. Quando escondia o que sentia por se preocupar com os sentimentos dela…

Um último suspiro mais fundo que os anteriores e um estremecimento percorre-a dos pés à cabeça. Lentamente começa a comer. Um pouco de bacalhau e de couves… Costumava arranjar-lhe o bacalhau. Tirava-lhe sempre as espinhas e compunha-lhe o prato como se de uma criança se tratasse. Ele deixava! Comia o que ela lhe punha no prato. Por vezes nem sequer era bem aquilo que queria, mas… lá ia pegando no que mais lhe apetecia sem deixar de comer o que ela lhe arranjara.

Quando a nora foi para a cozinha, levantou-se da mesa. Não era habitual ajudar. Ou melhor, há anos que por causa da doença, o não fazia. A nora evitava que fizesse esforços. Mas hoje precisava ocupar-se. Necessitava mascarar a saudade. A dor. A ausência…

“Deixe-me arrumar a cozinha!” Ainda ouviu um não, mas ao ver os olhos marejados de lágrimas a nora aproximou-se. Abraçou-a com força e deu-lhe um beijo cheio de ternura. Tinham as suas divergências. Mas sabia que estava a ser sincera! Embrenhou-se na cozinha. A loiça não foi para a máquina como poderia. Senti-la nas mãos. Sentir a água a correr. Sentir-se ocupada, era o que estava a precisar naquele momento.
Na hora da troca de presentes fez o papel que o marido sempre fizera…

Sentiu a sua presença! Afinal, mesmo quando perdemos alguém que nos é muito querido, pode sempre haver Natal! Podemos sempre mantê-los no nosso coração e depois… há todos os outros. Aqueles que continuam cá e que, embora de maneiras diferentes, também nos amam!


Adelina Antunes
24-dez-2013

Sem comentários:

Enviar um comentário