terça-feira, 26 de agosto de 2014

Como nasce uma amizade?



Será possível escolher quem queremos como amigo? Será possível obrigar alguém a gostar de nós? A fazer com que nos considere amigos?

Que nos queira ao seu lado. Acredite. Confie em nós e considere que somos dignos da sua amizade? Do seu companheirismo. De estar ao nosso lado, e querer-nos ao seu lado, em qualquer situação?

Será possível construir algo baseado em promessas. Cedências. Na entrega unilateral?

Poderá a amizade “nascer” apenas porque uma das partes assim o entende?

Não há forma de forçar uma amizade. Não importa quanto se tente. Quanto se entregue. Quanto se ceda. Por muito que se queira. Por muito que se esforce esta acontece ou não acontece. E quando acontece… é por si mesma!

Não é porque consideramos que alguém deve ser nosso amigo que entre nós surge, como que por magia, aquela confiança. Aquela entrega. Aquele sentimento de que, aconteça o que acontecer, estaremos juntos. A amizade constrói-se, é um facto, mas com base na confiança. Na cedência mútua. No companheirismo. Na não dependência.

A verdadeira amizade não pede. Não exige. Mas também não cede. Não pede que o amigo seja desta ou daquela maneira. Que faça isto ou aquilo só porque é amigo. Não exige assim como não cede só porque o “amigo” assim o quer. Um amigo é alguém especial que, mesmo quando não está connosco, sabemos que nos apoia. Ainda que também saibamos que, se for necessário, é capaz de nos repreender. Nos chamar à razão. Aplaudir-nos quando estamos certos mas os primeiros a dizer-nos quando estamos errados.
Alguém disse um dia que o amigo é o primeiro a estender-nos a mão quando caímos… depois de conseguir parar de rir. Na realidade aquele que, quando pára de rir é capaz de nos estender a mão, pode e deve ser considerado um amigo. Afinal ele não nos abandonou.

É compreensível e até razoável que o amigo seja o primeiro a criticar-nos. A contradizer-nos. A “dar-nos na cabeça” quando merecemos, pois é o amigo a pessoa que está em melhores condições para nos conhecer. Saber o que está certo e reconhecer o que está errado. Porque nos conhece. Porque se interessa. Porque se preocupa…

No entanto alguns (talvez muitos) de nós, não gosta de receber criticas. Ainda que vindas de amigos. Ainda que construtivas. Uma crítica, quando construtiva, ajuda-nos a crescer. A sermos mais nós próprios. A identificar o certo e reconhecer o errado. Claro que temos a família mas esta por vezes está demasiado envolvida. Demasiado próxima ou com demasiado medo de nos magoar.

Um amigo, um amigo de verdade é capaz de nos magoar? De nos fazer sofrer? É bom que seja! É bom que tenha amizade suficiente para saber quando deve ou pode magoar. E que tenha a presença de espírito que, por vezes, nós não temos.

Valorizar a amizade passa também por aí. Por saber que, mesmo quando nos magoa, o amigo o faz pelas razões certas. Pelas razões que, dado o nosso estado de espírito, não conseguimos ver ou não queremos aceitar.

Valorizar as atitudes dos que nos querem bem leva a que muitas vezes tenhamos que acreditar no inacreditável. A confiar no que não nos parece confiável.

Não é fácil, mas o que é que é fácil nesta vida? As dificuldades existem apenas e só para serem ultrapassadas. Sozinhos, sentimos muitas vezes que o desespero é a única opção. Sozinhos, perdemos o rumo demasiadas vezes. Sozinhos, sofremos não só pelo que nos consome, mas também pela solidão que nos envolve.

Não é fácil conquistar uma amizade e é, por vezes, demasiado simples perde-la!

Não é fácil aceitar críticas de amigos, mas é bem mais doloroso quando estas vêm de outros que mal nos conhecem. Que não compreendem, não entendem ou que desconhecem a nossa realidade.

Não é fácil manter uma amizade. Até porque muitas vezes ela está em quem menos esperamos. Naquele que nunca pensamos que pudesse ser nosso amigo.

Não se consegue forçar uma amizade. Mas devemos ser capazes de nos forçar a entender uma amizade. Saber quando ela é sincera e… procurar não forçar.

Não se fabricam amizades. Mas quando estas surgem… é algo mágico que devemos cultivar. Com os seus altos e baixos. Com as suas curvas e espinhos. Com amarguras, choros e abraços…

Mas sempre com muita amizade!



Adelina Antunes

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

"Des"Igualdade entre os sexos


Durante muito tempo, todos os dias dava uma vista de olhos pelo Correio da Manhã. Não sendo o meu jornal de eleição estava disponível no serviço e sempre acabava por ler este ou aquele artigo. Foi o que aconteceu com a notícia publicada por Helena Silva e João Oliveira a 12 de novembro de 2012, pg. 22, e que versava sobre poder paternal.

Um antigo deputado do PS teria que se sujeitar a testes de ADN para averiguação de paternidade.

Lembrei-me duma conversa com uma amiga a respeito da escolha de um tema para um trabalho da faculdade em que lhe sugerira a desigualdade entre os sexos. Estando ela a cursar uma licenciatura no âmbito do Serviço Social considerei que seria um tema interessante.

Se eu mencionar a Lei n.º 16/2007, de 17 de Abril, poucos saberão do que estou a falar mas se disser que trata da exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez, todos dirão que me refiro à lei do aborto. A mulher pode, até às dez semanas de gestação por opção e embora mediante determinadas condições, não concretizar a gravidez. Pode optar por não ser mãe (não falo aqui de situações em que a gravidez ocorre por violação). Este "poder" que a Lei confere à mulher garante-lhe uma tomada de decisão sem outros intervenientes. Sem que o parceiro (ou os pais nos casos de menores), tenham necessáriamente de ter conhecimento. Liberdade sobre o corpo e sobre o direito de decisão!

Um homem que seja confrontado com uma gravidez não desejada pode sempre dizer à mulher que não quer assumir a paternidade. Pode pedir-lhe que faça um aborto (pode impor-lhe dirão alguns). Pode pagar-lhe para fazer um aborto. Pode afastar-se. Pode ignorar a criança que vier a nascer… Mas a última palavra será sempre da mulher. Ou dos Tribunais!

Mais! Caso decida que não quer mesmo assumir a paternidade a mulher tem o direito de recorrer ao tribunal. E não adianta adiar. Pode demorar anos mas acabará por ser obrigado pelo tribunal a fazer o teste e a assumir um filho que não quis. Do qual nunca teve conhecimento. Que não desejou. Que tentou a todo o custo evitar…

Igualdade entre os sexos? 

Não contesto o direito da mulher optar por concretizar ou não uma gravidez indesejada! Não sou ninguém para julgar! No entanto, num mundo que se quer cada vez mais igual, onde está o direito do homem a optar? Quando é que ele tem o direito de decidir se quer o não ser pai. Se é ou não conveniente, naquela altura da vida, assumir tal responsabilidade?

Sem evocar razões específicas, as mulheres evocam as mais variadas desde as dificuldades económicas, uma relação problemática ou que findou, um caso furtuíto do qual não querem "testemunhos"... Não deveria o homem ter também o direito a pronunciar-se?

Num outro artigo, penso que também do Correio da Manhã e que foi o que inicialmente me alertou para esta situação, dizia o autor (e peço desculpas mas não me recordo do nome) que o homem também deveria ter direito de opção. Se a mulher tem até às dez semanas para decidir se quer ou não assumir uma maternidade que nem sempre surge na hora exata. Que nem sempre é desejada, também ao homem deveria ser dada uma oportunidade de se pronunciar. De decidir se quer ou não assumir uma paternidade que pode surgir na hora mais incómoda!

Claro que o tempo para se pronunciar deveria ser devidamente balizado. Bem legislado, acautelado, caso contrário poderia jogar contra e não a favor do seu interesse atendendo a que este tem conhecimento da situação pela mulher o que o pode colocar em desvantagem. Corre o risco de só ter conhecimento após as dez semanas contempladas na lei para que a mulher interrompa…

Num mundo em que as lutas pela igualdade entre os sexos se tem desenrolado ao longo dos séculos, é a Lei, feita maioritáriamente por homens, que dita uma das mais flagrantes desigualdades.

O que mais impressiona não é existir esta desigualdade mas sim o facto de  ninguém parecer dar por ela. Somos perfeitamente capazes de aceitar, compreender e apoiar uma mulher que decide não ser mãe e que opta pelo aborto. No entanto se é um homem a querer tomar a mesma atitude, não a parte do aborto mas sim a de não querer aceitar uma paternidade inoportuna, com a qual não contava ou que surge na altura imprópria, aí estão os tribunais para o obrigarem a aceitar. Ainda que sejam necessários os cada vez mais eficazes testes de paternidade.






Adelina Antunes

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"E"terno



Espero que digas o que tens para me dizer. Uma espera que cansa pois não há meio de o fazeres. Volteias com as palavras que esgrimes com mestria num vaivém desconcertante. Penso se de facto sabes o que queres. O que sentes. O que tens afinal para me dizer que custe assim tanto? Acaso não nos conhecemos o suficiente para que possas falar com o à vontade que te é caraterístico?

Penso que a dificuldade está no facto de me quereres dizer que está tudo acabado entre nós. Que nada mais existe… é isso que queres dizer-me?

Que aquele amor eterno que sempre prometeste, não era assim tão eterno? Que chegou ao fim? Porque temes dizer tal coisa? Acaso não foi lindo, maravilhoso enquanto durou?

A noção de eternidade tolhe-te a facilidade de falar. De te exprimires. Não sabes qual o seu significado e confundes “eterno” com “para sempre”…

Separa a palavra. Se “para sempre” é composto por duas palavras, faz com que “eterno” também o seja. Vais ver que é mais fácil.

Retira a essência do que realmente queres (quiseste) que seja eterno. Não te deixes distrair por devaneios que nada têm a ver com o assunto.

Lembra-te dos dias e noites passados. Do que sentias. Do que sentíamos. Do quanto eramos importantes um para o outro e de como, sem mim, a tua vida não fazia sentido!

Lembra-te das vezes que pronunciaste a palavra “amo-te” e do quanto ela foi sincera. Um amor pleno! Cheio de desejos, de fantasias, de sonhos e de esperanças. O que sentiste de cada vez que o disseste? Lembras-te? Foste sincero?

As juras de amor que fizeste (que fizemos). Os sorrisos que nasceram nos teus lábios. O brilho no olhar quando olhavas para mim e me sentias tua… A sensação de plena felicidade quando mergulhávamos em noites sem fim… eras tu! Era eu! Eramos nós e uma plenitude de sentimentos diversos. Dispersos. Unos. Grotescos. Sinceros. Contraditórios… Eramos o que de mais importante existia no universo. Dois seres… um único verso!

Lembraste? Amamos e fomos amados como dificilmente alguém o conseguirá ser alguma vez! Que importa se acabou? Foram os momentos mais poderosos e intensos de toda a nossa existência. Se se poderão repetir? Quem sabe?

Se um dia encontrares (se eu encontrar) alguém que tenha para te dar tanto quanto recebeste, ou mais ainda, o que irás fazer? Recusar? Claro que não a não ser que de todo consideres que não o mereces. Que não lhe consegues corresponder! Aceita-o! Vive-o! Com toda a intensidade e paixão que o teu coração o permita. Não penses em nós, mas se por acaso o fizeres, pensa no quanto fomos felizes enquanto durou. Eterno! Não, espera… deixa-me reformular: ETERNO! A capitalização das letras contribui para a dimensão do que realmente foi: ETERNO.

Sugeri que separasses a palavra. Que tal como “para sempre” transformasses “Eterno” em duas palavras. Não foi em vão nem sequer por pura nostalgia mas apenas para que tomasses consciência da palavra em si. É difícil de aceitar que algo que consideramos “eterno” termine. No entanto essa dificuldade prende-se com fatores tão subjetivos que nem sequer damos por eles. “Eterno, ainda que dure apenas um segundo” Embora não seja a frase exata é o que costumo dizer e que tantos criticam porque não entendem.

Pensa, amor! Um dia, quando estiveres no outono da vida e olhares para trás, vais recordar todos os momentos porque passaste. Vais sorrir a cada doce recordação do mesmo modo que vais pensar em como poderias ter evitado as más… Sejamos pois uma recordação que, para além de um sorriso, tenha o poder de te “incendiar” de te fazer reviver cada minuto, cada segundo passados juntos. Não importa quantos minutos, horas dias ou anos passaram depois disso ou com quem. Apenas que te lembres de nós e que… um sorriso ilumine o teu rosto pois, se isso acontecer, o nosso amor foi eterno.

“Eterno” “Para sempre” ou como lhe queiras chamar. Desde que pleno de ternura. De desejo. De amor.

Não é pelo tempo que dura mas sim pelo que lhe consegues impregnar de amor. Sentimento e ternura. Separa a palavra (se fores capaz de o fazer) e vais ver que para que algo seja “eterno” basta apenas que seja “e terno”!

Pleno de ternura. De amor. De sentimentos ou desejos. Mais do que “eterno” que seja “e terno”!

Retira-lhe o “e” se por acaso te faz confusão. Guarda apenas o que vale a pena ficar em teu coração. Um amor. Um sentimento. Um gesto. Um momento. TERNO. E TERNO!


Adelina Antunes


domingo, 27 de julho de 2014

"A minha vida"

Quero tanto falar contigo…

Preciso tanto de falar contigo!

Mas, embrenhado como andas naquela que dizes ser a tua vida nem dás por mim. Nem percebes que à tua volta há um mundo que não para e que, quer tu queiras quer não, é tão parte da tua vida como tu és da dele.

Dizes “a minha vida” como se essa fosse só tua. Não é! A tua vida não é só tua tal como a minha não é só minha. Nada há que seja exclusivamente nosso. Não somos ilhas isoladas sem contacto com ninguém. Não podemos tomar seja que decisão for sem que essa afete, de uma forma ou de outra, quem nos rodeia. Falas de ti como se ninguém importasse. Como se mais ninguém existisse na tua vida.

Afinal o que quer dizer “A minha vida”?

Podes, por acaso, afirmar que a vida é só tua? Que se deixares de existir mais ninguém será afetado? Que tudo e todos continuarão a viver a normalidade dos seus próprios dias sem sequer notar a diferença?

Dizes que ninguém sente a tua falta. Que todos ficariam melhor sem ti. Falas dos teus filhos e da liberdade que sempre tiveram. Da independência que adquiriram. São maiores de idade. Podem seguir o rumo que quiserem… é verdade! Podem seguir o caminho que escolherem desde que o mundo à sua volta se mantenha tal como o conhecem e idealizaram. Desde que não sejam colhidos de surpresa por decisões que nem sequer tomaram… e os obrigue a mudar de rumo!

Esqueces os colegas de trabalho. Aqueles que ficariam sobrecarregados com as tuas tarefas e o teu horário se por acaso faltasses. O empregado que todos os dias te serve uma chávena de café ou o mecânico que revê o teu automóvel e se veriam privados de um cliente. Esqueces a família, mesmo aquela com quem não convives há anos. Aquele vizinho que vai sempre pedir-te um pouco de salsa, de sal ou que qualquer coisa de somenos importância apenas para ter com quem falar. Esqueces mesmo aquelas pessoas que mal conheces mas com quem te cruzas e que apenas te cumprimentam. As amizades virtuais que criaste e que tens vindo a desenvolver. Até esses seriam atingidos.

Porque te cruzaste com eles algures nessa tua vida que passou a ser um pouco deles. E recebeu um pouco da deles. Porque é isso que acontece. Porque constantemente damos e recebemos. Não importa se bom se mau. Se agradável ou desagradável. Há sempre os dois lados pois apenas a existência de um menos agradável, menos favorável ou mais “sofrido” nos permite apreciar o valor do outro. O quanto vale a pena viver.

Não digas “a minha vida” como se eu nada tivesse a ver com ela! Como se ninguém tivesse nada a ver com ela. A vida, a tua, a minha, a de uma familiar ou amigo, até a daquele colega irritante que tanto te enerva quando começa a falar e nunca mais se cala, estão de tal modo ligadas que se uma faltar todas as outras serão mais ou menos afetadas. Todas terão de sofrer maiores ou menores ajustes…

Queria muito falar contigo!

Explicar-te porque é que a minha vida sem ti fica diferente. Não sei se melhor se pior mas por certo diferente. No entanto estás de tal modo embrenhado na tua vida que não vês o quão todas as outras à tua volta estão a mudar. Só porque não queres saber. Só porque não te interessa. Só porque decidiste que a tua vida é só tua sem dares aos outros o direito de quererem que a vida deles seja só deles. É impossível isolar uma vida! É impossível isolarmo-nos pois quer queiramos quer não, cada um de nós recebe um pouco de quantos nos rodeiam, do mesmo modo que deixamos um pouco de nós em cada um que connosco se cruza.

Adelina Antunes

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Há pessoas assim



Não é por acaso que gostamos de estar com esta ou com aquela pessoa. Não é por acaso que procuramos esta ou aquela companhia. Há pessoas que nos marcam pelo que são. Pelo que dizem ou pelo que fazem. Há pessoas capazes de nos levantarem e nos tirarem do buraco mais fundo em que nos encontramos. Mesmo quando achamos que não precisamos de nada nem de ninguém. Estão ali! Ao nosso lado! Prontas para nos ajudarem. Dispostas a dar aquela mão de que tanto necessitamos… Mesmo sem sabermos. Mesmo que não consigamos perceber isso. Mesmo que, na altura, sintamos que nos estão a importunar.

Há pessoas assim!

Que nos entendem. Nos compreendem sem ser preciso falarmos. Há pessoas que nos ouvem quando estamos em silêncio. Quando choramos ou rimos. Quando não queremos falar ou não conseguimos estar calados. Sem termos que dizer o que quer que seja. Capazes de ouvir uma lágrima cair. Capazes de sentir um sorriso que não existe e de o fazer despertar. Capazes de nos dizer, da maneira mais suave, “Eu estou aqui” “Estou contigo!”.

Há pessoas assim!

E o que fazemos? Magoamos. Ferimos. Causamos danos por vezes irreparáveis. Só porque não somos capazes de perceber. Só porque somos egoístas e não conseguimos ver além daquilo que somos. Que sentimos. Do que estamos a passar.

No entanto algo nos diz que as devemos procurar. Que são essas pessoas que queremos ao nosso lado quando não somos capazes de nos enfrentarmos a nós mesmos. E procuramos! E esperamos que nos entendam. Que estejam ali. Que nos escutem. Nos ouçam. Nos entendam e compreendam.

Há pessoas assim!

Que por muito que as façamos sofrer não desistem de nós. Porquê? Porque merecemos? Ou será porque conseguem ver-nos como nós próprios somos incapazes de nos ver? Não importam os porquês desde que consigamos entender que as temos ao nosso lado. Que contamos com elas nas melhores e nas piores situações…

Não importa? Será que, de facto não importa? Será que é um dado adquirido que há quem se interesse, se preocupe e esteja ao nosso lado independentemente do que façamos ou sintamos?

Há pessoas assim.

É um facto. E o que fazemos para merecer tal ato? O que fazemos para agradecer esta dedicação. Este carinho. Esta companhia?

Gostaria de dizer que correspondemos da mesma maneira. Que estamos ali para elas tal como elas estão para nós. Gostaria de dizer que também nós somos capazes de sentir uma lágrima cair. De ver um sorriso mesmo antes dele acontecer e que contribuímos para que ele nasça, floresça e o consigamos ver crescer… Gostaria! Mas a verdade é que muitas vezes estamos demasiado embrenhados em nós próprios. Nos problemas que consideramos ser superiores aos de todos os outros. Mais difíceis. Mais complicados. Mais irresolúveis. E esquecemo-nos!

Esquecemos que há pessoas que merecem tudo quanto lhes possamos dar!

Mais do que preocupações, esperança. Mais do que tristezas, alegria. Mais do que lágrimas, sorrisos…

Não é preciso muito para que possamos corresponder. Não é necessário um esforço extraordinário para agradar a alguém que gosta de nós. Se preocupa connosco e se mantém ao nosso lado em toda e qualquer situação.

Basta que consigamos ver! Basta que tenhamos a capacidade de sentir que estão connosco e corresponder. Sermos para elas o que elas são para nós. Elas vão compreender. Vão gostar e vão continuar ao nosso lado porque…

Há pessoas assim!

Adelina Antunes.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pequenos “tudos”, grandes “nadas”


Pegou numa balança e equilibrou-a. Uma balança antiga, do tempo em que ainda criança via a avó servir-se para pesar os ingredientes com que fazia os deliciosos bolos de que tanto gostava. Uma balança com dois pratos nos quais vira tantas vezes equilibrar minúsculos pesos de um lado e um pouco de açúcar do outro até atingir as quantidades certas. Sabia que tinha que estar bem calibrada pois só assim forneceria os dados correctos.

Lentamente, com a lentidão que lhe exigia o esforço a que estava a sujeitar-se, foi colocando de um lado tudo quanto de mau tinha feito. Era uma tarefa árdua pois exigia-lhe que se visse ao espelho da vida e enfrentasse aquela pessoa de quem não gostava e que tanto temia. Sabia que tinha provocado sofrimento em quantos o rodeavam. Que toda a vida pensou primeiro em si sem permitir que outro alguém merecesse a primazia. Sempre se considerou certo, dono da verdade…

A morte de alguém muito próximo tinha-o levado a pensar no que fora a sua vida até ali. Dos pequenos “tudos” aos grandes “nadas”, das pequenas lembranças às recordações mais extraordinárias, de memórias há muito perdidas ou escondidas, foi extraindo coisas e situações que julgava ultrapassadas. Algumas ignoradas, outras fingidas. Muitas amordaçadas pelo tempo e pela memória.

Uma a uma foi-as colocando num dos pratos da balança. Olhar para o espelho significava descobrir mais uma recordação, um sentimento ou uma memória esquecida. Quis parar. Um prato estava a ficar cada vez mais pesado enquanto o outro se mantinha vazio. Tinha que haver alguma coisa que o equilibrasse…

Forçou-se a continuar.

Cada acção provoca uma reacção. Sabia disso. Não passara pela vida impunemente e já tinha sofrido na pele as consequências de algumas das suas atitudes. Reconhecia que tinha errado muito mas também fizera coisas boas e a prova era que tinha dois filhos maravilhosos aos quais nunca tinha deixado que faltasse nada e pelos quais sempre fizera tudo. Então porque é que o espelho não lhe devolvia nada de bom? Porque é que tudo quanto lhe mostrara até ali era mau, nefasto ou de algum modo constrangedor?

Pequenos “tudos” que na altura considerou importantes, revelavam-se agora insignificantes. Grandes “nadas” que desvalorizara apareciam agora como catástrofes eminentes.

Precisava ser julgado!

Não por si mas por um juiz imparcial capaz de ver o mau mas ao mesmo tempo reconhecer o bom que fizera ao longo da vida. Ambicionava o castigo mas precisava da absolvição. Repetia a si mesmo que todas as acções têm a reacção correspondente e que, quer façamos mal ou pratiquemos o bem, seremos sempre castigados ou recompensados na justa medida. Um julgamento imparcial e justo.

Mas…

Quem nos irá jugar? Quem se dará ao trabalho de equilibrar os pratos da balança? Quem procurará ver em nós, não só o mal mas também o bem praticado? Haverá alguém tão absolutamente imparcial capaz de tal atitude? Que não se deixe dominar pelo mal mas que seja incapaz de se extasiar pelo que possa existir de bom?

Quer ser julgado! Quer sofrer o que tiver a sofrer para se poder libertar. Quer a morte como castigo supremo. Não quer a paz nem a redenção. Merece o castigo e não o perdão. Não quer viver.

Não quer morrer…

Não há castigo na morte. Não há redenção. Não há vitorias ou derrotas. Não há esperança. Não existe desilusão.

Não há o que esperar. Não há o que perder. Não há nada a dar nem a receber.

Há uma vida que acaba porque assim tem que ser. Uma passagem. Um nível que é preciso ultrapassar. Um recomeçar de novo.

Seja lá quando for…





Adelina Antunes

quinta-feira, 19 de junho de 2014

É próprio do homem ter medo


Desde tempos imemoriais o homem foi capaz de enfrentar os maiores desafios e vencer. Pequeno, insignificante, sem presas ou garras, venceu mamutes. Dominou o fogo. Desbravou mares revoltos. Enfrentou tempestades. Construiu desde a mais simples cabana aos edifícios mais imponentes e não se deu por satisfeito.

Restavam-lhe as estrelas e todo um universo pela frente.

Alcançou a Lua e ultrapassou-a! Quer mais. Ir mais longe. Ultrapassar fronteiras, desmontar barreiras. Quer mais!

É esta insaciedade constante que o leva a conseguir o que quer. A detectar os obstáculos e vencer.

A um nível mais modesto, no percurso individual de cada um, as barreiras poderão não ser tão imponentes. As fronteiras estarão por certo mais distantes. Vidas que se tornam cada dia mais solitárias, fazem com que as dificuldades aparentem sempre ser superiores ao que na realidade são.

É próprio do homem ter medo. Recear por si, pelo futuro, pela vida, pelo amor. Recear perder o que tem tal como temer não alcançar o que deseja.

Por vezes somos levados a pensar que não há caminho ou saída mas apenas um percurso sinuoso, repleto de curvas, subidas e declives de onde não conseguiremos sair e pelo qual é impossível progredir.

Por vezes deparamo-nos com o desespero, a desilusão e o desalento. Surgem as perguntas. As interrogações. Os medos e as hesitações. Sentimo-nos prisioneiros de nós mesmos, de pessoas ou de situações.

Nem sempre é fácil libertarmo-nos. Nem sempre é fácil e nem sempre queremos. Nem sempre sentimos capacidade de seguir em frente. Escalar as montanhas mais agrestes, descer aos vales mais sombrios, atravessar desertos áridos.

Nem sempre é fácil mas quem disse que a vida tem de ser fácil?

Num mundo em que o grupo de amigos virtuais é cada vez maior, o isolamento cresce na mesma proporção. Uma noite recheada de amigos virtuais, remete-se ao nada se por acaso "a net vai abaixo”. Resta o silêncio. O não saber o que fazer. Onde estar. Com quem falar. Resta o isolamento a que, com todas as tecnologias de comunicação e de interacção, cada vez mais nos remetemos.

E o receio, o medo de sucumbir, a impotência perante as dificuldades aumenta. A falta de um ombro amigo onde se possa descarregar aquela mágoa que paira no peito e que começou por ser uma simples impressão, leva a que esta atinja proporções inimagináveis e difíceis de ultrapassar.
É próprio do homem ter medo. Recear por si, pelo futuro, pela vida, pelo amor. Recear perder o que tem tal como temer não alcançar o que deseja.

É natural o homem ter amigos. Um ombro onde chorar. Um corpo quente a que se encostar. Alguém que o ajude a ultrapassar as situações mais dramáticas, dolorosas ou, aparentemente, inultrapassáveis.

Dos seres destemidos que fomos no passado. Que continuamos a ser no presente. Daqueles homens capazes das audácias mais incríveis por mais assustadoras que sejam... O que resta quando estamos sós? Onde fica a coragem? A audácia? O ser destemido capaz de desbravar os mares mais agrestes? De alcançar a Lua e voltar?

Não somos seres solitários e a amizade, o companheirismo, a camaradagem são algo de que não nos podemos esquivar. Que não devemos esquecer!

É fantástico ter uma comunidade de amigos virtuais. Alcançar as centenas de amigos e ter sempre um presente quando nos ligamos à rede. É extraordinário ver os comentários a tudo quanto postamos. Mesmo quando são desfavoráveis pois até esses podem ser construtivos. Ainda que sejam apenas frases feitas.

É deprimente ver como este mundo virtual nos está a afastar das amizades verdadeiras. Sinceras. Daqueles amigos com quem podemos beber um copo. Ir assistir a um bom filme ou apenas tomar um café. Daqueles amigos que são capazes de nos olhar pela manhã, descobrir uma noite sem dormir e, sem uma palavra que seja, nos abrem os braços e nos dão o aconchego de um peito onde chorar…

Adelina Antunes.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

"Burcas" na Internet

Há meninas vendidas como escravas sexuais. Obrigadas a casar com homens com idade para serem seus avós. Que crescem sem saber o que é ser criança. Ser adolescente... Impedidas de conhecer o amor… Impedidas de terem uma imagem ou de serem elas mesmas.

Há mulheres para as quais os tempos não mudaram. A evolução da humanidade não tem qualquer significado. Continuam como há séculos atrás. Não porque não a aceitem mas porque outros assim o exigem.

Há mulheres que sofrem sevicias. Que são escravizadas. Vendidas. Usadas como moeda de troca sem que lhes seja reconhecido qualquer direito.

Há mulheres que usam um véu ou uma burca, que não podem mostrar o rosto, o cabelo ou mesmo o corpo. Só por ser mulher. Só porque a cultura, a religião ou a tradição assim o exigem. Só porque…

Há mulheres que lutam pelos seus direitos. Pela evolução que vêem passar ao seu lado e da qual querem fazer parte. E que são torturadas e mortas por isso.

Há mulheres que se escondem. Que criam falsas identidades. Falsos perfis. São capazes de coleccionar dezenas ou centenas de amigos na internet sem no entanto terem a coragem dizer quem são. Que “vestem” uma burca virtual composta por uma imagem bonita ou sugestiva ou pela ausência absoluta de imagem. De mensagens escritas por outras pessoas. De frases feitas…

Poder-se-á pensar que têm vergonha da sua imagem. Que não querem ser identificadas por familiares ou amigos. Que sofrem de um qualquer complexo mas…

O que as leva a ser assim num mundo (o da internet) em que tudo é permitido? Em que a tradição está a ser construída por quem entra nessa comunidade? Nesse mundo?

Num mundo virtual em que apenas se mostra o que se quer para quem se quer. Em que é possível seleccionar a comunidade na qual se é inserido. Em que cada um pode escolher livremente quem pertence ao seu grupo de amigos e na qual é suposto confraternizar, conhecer e fazer amigos para além dos que para ali se transportam da vida real… porquê esta ocultação? Por complexos? Por defesa da sua imagem ou integridade? Onde fica a confiança? A liberdade de imagem e de expressão?

Há mulheres que vivem uma vida sem serem reconhecidas por ninguém. Porque a tradição, a religião ou a comunidade em que nasceram assim as obriga mas que lutam contra esse anonimato. Que tentam gritar ao mundo o seu desejo de se moderem mostrar. De poderem ser identificadas por um sorriso. Um olhar. Um rosto ou mesmo o modo como usam o cabelo mas que são impedidas de o fazer.

Por elas. Pelo respeito que elas nos merecem. Pela sua luta inglória para terem direito a uma imagem nenhuma mulher se deveria esconder por detrás de uma burca virtual.

Não temos que ter medo, vergonha ou complexos da imagem que somos. Se escolhemos os nossos amigos. A nossa comunidade virtual, contribuamos para que essa sim, seja uma comunidade evoluída. Em que todos e cada um pode mostrar quem realmente é. Ser quem realmente é sem qualquer tipo de ocultação. Sem burcas. Sem imagens que em vez de nos apresentarem nos escondem.

Há mulheres que vivem por detrás de uma burca. Porque a tradição as obriga. Há mulheres que não podem fazer amigos. Porque a religião as impede. Há mulheres impedidas de pertencerem à comunidade em que estão inseridas. Que não podem ir mais além do seu núcleo familiar…

Há um mundo de culturas, religiões e tradições que oprime as mulheres sem que haja necessidade de que elas se oprimam a si próprias.

Ainda há um longo caminho a percorrer para que essas mulheres adquiram o direito a uma identidade. A uma imagem. A escolherem com quem querem confraternizar. Tentemos nós, mulheres ditas evoluídas e que temos à nossa disposição um mundo onde tudo nos é permitido, contribuir para essa luta. Contribuir para que tenham direito à sua imagem.

Tiremos nós as burcas virtuais na esperança de que elas um dia possam mostrar o que tentamos esconder…

A nossa imagem!

Adelina Antunes
11-maio-2014

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Um sorriso, um gesto, uma vida...


Os relatos surgem de quando em vez… alguém que salvou uma vida (ou várias) do fogo… de morrer afogada… de ser atingida por uma bala em cheio no peito… Imediatamente esse alguém é transformado em herói. Compreende-se! Afinal acabou de salvar o que de mais valioso há em nós...

A vida!

Nem sempre, no entanto, para se salvar uma vida é necessário que esta corra um perigo imediato. Vidas há que são salvas de uma forma bem mais subtil. Mais discreta…

Um sorriso, um gesto, a palavra oportuna no momento certo, têm por vezes o condão de salvar vidas. De transformar vidas de modo a que o seu futuro seja alterado de uma forma substancial.

Quantos de nós já dissemos “salvaste-me a vida” sem no entanto ter nunca corrido o risco de, verdadeiramente, a perder?

Quantos de nós já tivemos a sensação de, com uma palavra, um abraço, um sorriso que fosse, alterar de algum modo uma vida?
Pequenos pormenores, por vezes quase imperceptíveis, podem contribuir para que uma vida inteira seja alterada. Para que o mundo seja visto de maneira diferente. De uma forma menos agreste. Não que este melhore! O mundo não melhora pelo simples facto de conseguirmos encarar as situações de uma forma mais positiva, mas… Se conseguirmos sorrir. Se conseguirmos estender a mão. Se conseguirmos ajudar alguém ao nosso lado…

Cada vez mais as pessoas se evitam. Cada vez mais se fecham em si mesmas. Vizinhos que não se conhecem. Colegas de trabalho que mal se falam. Famílias que se separam e entram em disputas pelos filhos, por uma herança, porque um disse umas verdades que o outro não gostou de ouvir…

Vidas que se vão degradando. Que se afastam umas das outras e que perdem a capacidade de lutar. De seguir em frente. De “viver”…
Por vezes uma palavra. Outras ainda, um ligeiro sorriso ou um pequeno gesto seriam o suficiente para salvar uma vida de um rumo que não deveria seguir. De um destino do qual acabará por se arrepender…

Teremos nós ainda capacidade para sorrir? Para um gesto amigo? Para estender a mão em vez de virar as costas?

Uma palavra, um gesto, um sorriso, uma mão que se estende na altura certa…

…e vidas poderiam ser salvas…


Adelina Antunes
22-fev-2014