quarta-feira, 18 de junho de 2014

"Burcas" na Internet

Há meninas vendidas como escravas sexuais. Obrigadas a casar com homens com idade para serem seus avós. Que crescem sem saber o que é ser criança. Ser adolescente... Impedidas de conhecer o amor… Impedidas de terem uma imagem ou de serem elas mesmas.

Há mulheres para as quais os tempos não mudaram. A evolução da humanidade não tem qualquer significado. Continuam como há séculos atrás. Não porque não a aceitem mas porque outros assim o exigem.

Há mulheres que sofrem sevicias. Que são escravizadas. Vendidas. Usadas como moeda de troca sem que lhes seja reconhecido qualquer direito.

Há mulheres que usam um véu ou uma burca, que não podem mostrar o rosto, o cabelo ou mesmo o corpo. Só por ser mulher. Só porque a cultura, a religião ou a tradição assim o exigem. Só porque…

Há mulheres que lutam pelos seus direitos. Pela evolução que vêem passar ao seu lado e da qual querem fazer parte. E que são torturadas e mortas por isso.

Há mulheres que se escondem. Que criam falsas identidades. Falsos perfis. São capazes de coleccionar dezenas ou centenas de amigos na internet sem no entanto terem a coragem dizer quem são. Que “vestem” uma burca virtual composta por uma imagem bonita ou sugestiva ou pela ausência absoluta de imagem. De mensagens escritas por outras pessoas. De frases feitas…

Poder-se-á pensar que têm vergonha da sua imagem. Que não querem ser identificadas por familiares ou amigos. Que sofrem de um qualquer complexo mas…

O que as leva a ser assim num mundo (o da internet) em que tudo é permitido? Em que a tradição está a ser construída por quem entra nessa comunidade? Nesse mundo?

Num mundo virtual em que apenas se mostra o que se quer para quem se quer. Em que é possível seleccionar a comunidade na qual se é inserido. Em que cada um pode escolher livremente quem pertence ao seu grupo de amigos e na qual é suposto confraternizar, conhecer e fazer amigos para além dos que para ali se transportam da vida real… porquê esta ocultação? Por complexos? Por defesa da sua imagem ou integridade? Onde fica a confiança? A liberdade de imagem e de expressão?

Há mulheres que vivem uma vida sem serem reconhecidas por ninguém. Porque a tradição, a religião ou a comunidade em que nasceram assim as obriga mas que lutam contra esse anonimato. Que tentam gritar ao mundo o seu desejo de se moderem mostrar. De poderem ser identificadas por um sorriso. Um olhar. Um rosto ou mesmo o modo como usam o cabelo mas que são impedidas de o fazer.

Por elas. Pelo respeito que elas nos merecem. Pela sua luta inglória para terem direito a uma imagem nenhuma mulher se deveria esconder por detrás de uma burca virtual.

Não temos que ter medo, vergonha ou complexos da imagem que somos. Se escolhemos os nossos amigos. A nossa comunidade virtual, contribuamos para que essa sim, seja uma comunidade evoluída. Em que todos e cada um pode mostrar quem realmente é. Ser quem realmente é sem qualquer tipo de ocultação. Sem burcas. Sem imagens que em vez de nos apresentarem nos escondem.

Há mulheres que vivem por detrás de uma burca. Porque a tradição as obriga. Há mulheres que não podem fazer amigos. Porque a religião as impede. Há mulheres impedidas de pertencerem à comunidade em que estão inseridas. Que não podem ir mais além do seu núcleo familiar…

Há um mundo de culturas, religiões e tradições que oprime as mulheres sem que haja necessidade de que elas se oprimam a si próprias.

Ainda há um longo caminho a percorrer para que essas mulheres adquiram o direito a uma identidade. A uma imagem. A escolherem com quem querem confraternizar. Tentemos nós, mulheres ditas evoluídas e que temos à nossa disposição um mundo onde tudo nos é permitido, contribuir para essa luta. Contribuir para que tenham direito à sua imagem.

Tiremos nós as burcas virtuais na esperança de que elas um dia possam mostrar o que tentamos esconder…

A nossa imagem!

Adelina Antunes
11-maio-2014

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