quinta-feira, 19 de junho de 2014

É próprio do homem ter medo


Desde tempos imemoriais o homem foi capaz de enfrentar os maiores desafios e vencer. Pequeno, insignificante, sem presas ou garras, venceu mamutes. Dominou o fogo. Desbravou mares revoltos. Enfrentou tempestades. Construiu desde a mais simples cabana aos edifícios mais imponentes e não se deu por satisfeito.

Restavam-lhe as estrelas e todo um universo pela frente.

Alcançou a Lua e ultrapassou-a! Quer mais. Ir mais longe. Ultrapassar fronteiras, desmontar barreiras. Quer mais!

É esta insaciedade constante que o leva a conseguir o que quer. A detectar os obstáculos e vencer.

A um nível mais modesto, no percurso individual de cada um, as barreiras poderão não ser tão imponentes. As fronteiras estarão por certo mais distantes. Vidas que se tornam cada dia mais solitárias, fazem com que as dificuldades aparentem sempre ser superiores ao que na realidade são.

É próprio do homem ter medo. Recear por si, pelo futuro, pela vida, pelo amor. Recear perder o que tem tal como temer não alcançar o que deseja.

Por vezes somos levados a pensar que não há caminho ou saída mas apenas um percurso sinuoso, repleto de curvas, subidas e declives de onde não conseguiremos sair e pelo qual é impossível progredir.

Por vezes deparamo-nos com o desespero, a desilusão e o desalento. Surgem as perguntas. As interrogações. Os medos e as hesitações. Sentimo-nos prisioneiros de nós mesmos, de pessoas ou de situações.

Nem sempre é fácil libertarmo-nos. Nem sempre é fácil e nem sempre queremos. Nem sempre sentimos capacidade de seguir em frente. Escalar as montanhas mais agrestes, descer aos vales mais sombrios, atravessar desertos áridos.

Nem sempre é fácil mas quem disse que a vida tem de ser fácil?

Num mundo em que o grupo de amigos virtuais é cada vez maior, o isolamento cresce na mesma proporção. Uma noite recheada de amigos virtuais, remete-se ao nada se por acaso "a net vai abaixo”. Resta o silêncio. O não saber o que fazer. Onde estar. Com quem falar. Resta o isolamento a que, com todas as tecnologias de comunicação e de interacção, cada vez mais nos remetemos.

E o receio, o medo de sucumbir, a impotência perante as dificuldades aumenta. A falta de um ombro amigo onde se possa descarregar aquela mágoa que paira no peito e que começou por ser uma simples impressão, leva a que esta atinja proporções inimagináveis e difíceis de ultrapassar.
É próprio do homem ter medo. Recear por si, pelo futuro, pela vida, pelo amor. Recear perder o que tem tal como temer não alcançar o que deseja.

É natural o homem ter amigos. Um ombro onde chorar. Um corpo quente a que se encostar. Alguém que o ajude a ultrapassar as situações mais dramáticas, dolorosas ou, aparentemente, inultrapassáveis.

Dos seres destemidos que fomos no passado. Que continuamos a ser no presente. Daqueles homens capazes das audácias mais incríveis por mais assustadoras que sejam... O que resta quando estamos sós? Onde fica a coragem? A audácia? O ser destemido capaz de desbravar os mares mais agrestes? De alcançar a Lua e voltar?

Não somos seres solitários e a amizade, o companheirismo, a camaradagem são algo de que não nos podemos esquivar. Que não devemos esquecer!

É fantástico ter uma comunidade de amigos virtuais. Alcançar as centenas de amigos e ter sempre um presente quando nos ligamos à rede. É extraordinário ver os comentários a tudo quanto postamos. Mesmo quando são desfavoráveis pois até esses podem ser construtivos. Ainda que sejam apenas frases feitas.

É deprimente ver como este mundo virtual nos está a afastar das amizades verdadeiras. Sinceras. Daqueles amigos com quem podemos beber um copo. Ir assistir a um bom filme ou apenas tomar um café. Daqueles amigos que são capazes de nos olhar pela manhã, descobrir uma noite sem dormir e, sem uma palavra que seja, nos abrem os braços e nos dão o aconchego de um peito onde chorar…

Adelina Antunes.

Sem comentários:

Enviar um comentário