sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pequenos “tudos”, grandes “nadas”


Pegou numa balança e equilibrou-a. Uma balança antiga, do tempo em que ainda criança via a avó servir-se para pesar os ingredientes com que fazia os deliciosos bolos de que tanto gostava. Uma balança com dois pratos nos quais vira tantas vezes equilibrar minúsculos pesos de um lado e um pouco de açúcar do outro até atingir as quantidades certas. Sabia que tinha que estar bem calibrada pois só assim forneceria os dados correctos.

Lentamente, com a lentidão que lhe exigia o esforço a que estava a sujeitar-se, foi colocando de um lado tudo quanto de mau tinha feito. Era uma tarefa árdua pois exigia-lhe que se visse ao espelho da vida e enfrentasse aquela pessoa de quem não gostava e que tanto temia. Sabia que tinha provocado sofrimento em quantos o rodeavam. Que toda a vida pensou primeiro em si sem permitir que outro alguém merecesse a primazia. Sempre se considerou certo, dono da verdade…

A morte de alguém muito próximo tinha-o levado a pensar no que fora a sua vida até ali. Dos pequenos “tudos” aos grandes “nadas”, das pequenas lembranças às recordações mais extraordinárias, de memórias há muito perdidas ou escondidas, foi extraindo coisas e situações que julgava ultrapassadas. Algumas ignoradas, outras fingidas. Muitas amordaçadas pelo tempo e pela memória.

Uma a uma foi-as colocando num dos pratos da balança. Olhar para o espelho significava descobrir mais uma recordação, um sentimento ou uma memória esquecida. Quis parar. Um prato estava a ficar cada vez mais pesado enquanto o outro se mantinha vazio. Tinha que haver alguma coisa que o equilibrasse…

Forçou-se a continuar.

Cada acção provoca uma reacção. Sabia disso. Não passara pela vida impunemente e já tinha sofrido na pele as consequências de algumas das suas atitudes. Reconhecia que tinha errado muito mas também fizera coisas boas e a prova era que tinha dois filhos maravilhosos aos quais nunca tinha deixado que faltasse nada e pelos quais sempre fizera tudo. Então porque é que o espelho não lhe devolvia nada de bom? Porque é que tudo quanto lhe mostrara até ali era mau, nefasto ou de algum modo constrangedor?

Pequenos “tudos” que na altura considerou importantes, revelavam-se agora insignificantes. Grandes “nadas” que desvalorizara apareciam agora como catástrofes eminentes.

Precisava ser julgado!

Não por si mas por um juiz imparcial capaz de ver o mau mas ao mesmo tempo reconhecer o bom que fizera ao longo da vida. Ambicionava o castigo mas precisava da absolvição. Repetia a si mesmo que todas as acções têm a reacção correspondente e que, quer façamos mal ou pratiquemos o bem, seremos sempre castigados ou recompensados na justa medida. Um julgamento imparcial e justo.

Mas…

Quem nos irá jugar? Quem se dará ao trabalho de equilibrar os pratos da balança? Quem procurará ver em nós, não só o mal mas também o bem praticado? Haverá alguém tão absolutamente imparcial capaz de tal atitude? Que não se deixe dominar pelo mal mas que seja incapaz de se extasiar pelo que possa existir de bom?

Quer ser julgado! Quer sofrer o que tiver a sofrer para se poder libertar. Quer a morte como castigo supremo. Não quer a paz nem a redenção. Merece o castigo e não o perdão. Não quer viver.

Não quer morrer…

Não há castigo na morte. Não há redenção. Não há vitorias ou derrotas. Não há esperança. Não existe desilusão.

Não há o que esperar. Não há o que perder. Não há nada a dar nem a receber.

Há uma vida que acaba porque assim tem que ser. Uma passagem. Um nível que é preciso ultrapassar. Um recomeçar de novo.

Seja lá quando for…





Adelina Antunes

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