domingo, 27 de julho de 2014

"A minha vida"

Quero tanto falar contigo…

Preciso tanto de falar contigo!

Mas, embrenhado como andas naquela que dizes ser a tua vida nem dás por mim. Nem percebes que à tua volta há um mundo que não para e que, quer tu queiras quer não, é tão parte da tua vida como tu és da dele.

Dizes “a minha vida” como se essa fosse só tua. Não é! A tua vida não é só tua tal como a minha não é só minha. Nada há que seja exclusivamente nosso. Não somos ilhas isoladas sem contacto com ninguém. Não podemos tomar seja que decisão for sem que essa afete, de uma forma ou de outra, quem nos rodeia. Falas de ti como se ninguém importasse. Como se mais ninguém existisse na tua vida.

Afinal o que quer dizer “A minha vida”?

Podes, por acaso, afirmar que a vida é só tua? Que se deixares de existir mais ninguém será afetado? Que tudo e todos continuarão a viver a normalidade dos seus próprios dias sem sequer notar a diferença?

Dizes que ninguém sente a tua falta. Que todos ficariam melhor sem ti. Falas dos teus filhos e da liberdade que sempre tiveram. Da independência que adquiriram. São maiores de idade. Podem seguir o rumo que quiserem… é verdade! Podem seguir o caminho que escolherem desde que o mundo à sua volta se mantenha tal como o conhecem e idealizaram. Desde que não sejam colhidos de surpresa por decisões que nem sequer tomaram… e os obrigue a mudar de rumo!

Esqueces os colegas de trabalho. Aqueles que ficariam sobrecarregados com as tuas tarefas e o teu horário se por acaso faltasses. O empregado que todos os dias te serve uma chávena de café ou o mecânico que revê o teu automóvel e se veriam privados de um cliente. Esqueces a família, mesmo aquela com quem não convives há anos. Aquele vizinho que vai sempre pedir-te um pouco de salsa, de sal ou que qualquer coisa de somenos importância apenas para ter com quem falar. Esqueces mesmo aquelas pessoas que mal conheces mas com quem te cruzas e que apenas te cumprimentam. As amizades virtuais que criaste e que tens vindo a desenvolver. Até esses seriam atingidos.

Porque te cruzaste com eles algures nessa tua vida que passou a ser um pouco deles. E recebeu um pouco da deles. Porque é isso que acontece. Porque constantemente damos e recebemos. Não importa se bom se mau. Se agradável ou desagradável. Há sempre os dois lados pois apenas a existência de um menos agradável, menos favorável ou mais “sofrido” nos permite apreciar o valor do outro. O quanto vale a pena viver.

Não digas “a minha vida” como se eu nada tivesse a ver com ela! Como se ninguém tivesse nada a ver com ela. A vida, a tua, a minha, a de uma familiar ou amigo, até a daquele colega irritante que tanto te enerva quando começa a falar e nunca mais se cala, estão de tal modo ligadas que se uma faltar todas as outras serão mais ou menos afetadas. Todas terão de sofrer maiores ou menores ajustes…

Queria muito falar contigo!

Explicar-te porque é que a minha vida sem ti fica diferente. Não sei se melhor se pior mas por certo diferente. No entanto estás de tal modo embrenhado na tua vida que não vês o quão todas as outras à tua volta estão a mudar. Só porque não queres saber. Só porque não te interessa. Só porque decidiste que a tua vida é só tua sem dares aos outros o direito de quererem que a vida deles seja só deles. É impossível isolar uma vida! É impossível isolarmo-nos pois quer queiramos quer não, cada um de nós recebe um pouco de quantos nos rodeiam, do mesmo modo que deixamos um pouco de nós em cada um que connosco se cruza.

Adelina Antunes

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Há pessoas assim



Não é por acaso que gostamos de estar com esta ou com aquela pessoa. Não é por acaso que procuramos esta ou aquela companhia. Há pessoas que nos marcam pelo que são. Pelo que dizem ou pelo que fazem. Há pessoas capazes de nos levantarem e nos tirarem do buraco mais fundo em que nos encontramos. Mesmo quando achamos que não precisamos de nada nem de ninguém. Estão ali! Ao nosso lado! Prontas para nos ajudarem. Dispostas a dar aquela mão de que tanto necessitamos… Mesmo sem sabermos. Mesmo que não consigamos perceber isso. Mesmo que, na altura, sintamos que nos estão a importunar.

Há pessoas assim!

Que nos entendem. Nos compreendem sem ser preciso falarmos. Há pessoas que nos ouvem quando estamos em silêncio. Quando choramos ou rimos. Quando não queremos falar ou não conseguimos estar calados. Sem termos que dizer o que quer que seja. Capazes de ouvir uma lágrima cair. Capazes de sentir um sorriso que não existe e de o fazer despertar. Capazes de nos dizer, da maneira mais suave, “Eu estou aqui” “Estou contigo!”.

Há pessoas assim!

E o que fazemos? Magoamos. Ferimos. Causamos danos por vezes irreparáveis. Só porque não somos capazes de perceber. Só porque somos egoístas e não conseguimos ver além daquilo que somos. Que sentimos. Do que estamos a passar.

No entanto algo nos diz que as devemos procurar. Que são essas pessoas que queremos ao nosso lado quando não somos capazes de nos enfrentarmos a nós mesmos. E procuramos! E esperamos que nos entendam. Que estejam ali. Que nos escutem. Nos ouçam. Nos entendam e compreendam.

Há pessoas assim!

Que por muito que as façamos sofrer não desistem de nós. Porquê? Porque merecemos? Ou será porque conseguem ver-nos como nós próprios somos incapazes de nos ver? Não importam os porquês desde que consigamos entender que as temos ao nosso lado. Que contamos com elas nas melhores e nas piores situações…

Não importa? Será que, de facto não importa? Será que é um dado adquirido que há quem se interesse, se preocupe e esteja ao nosso lado independentemente do que façamos ou sintamos?

Há pessoas assim.

É um facto. E o que fazemos para merecer tal ato? O que fazemos para agradecer esta dedicação. Este carinho. Esta companhia?

Gostaria de dizer que correspondemos da mesma maneira. Que estamos ali para elas tal como elas estão para nós. Gostaria de dizer que também nós somos capazes de sentir uma lágrima cair. De ver um sorriso mesmo antes dele acontecer e que contribuímos para que ele nasça, floresça e o consigamos ver crescer… Gostaria! Mas a verdade é que muitas vezes estamos demasiado embrenhados em nós próprios. Nos problemas que consideramos ser superiores aos de todos os outros. Mais difíceis. Mais complicados. Mais irresolúveis. E esquecemo-nos!

Esquecemos que há pessoas que merecem tudo quanto lhes possamos dar!

Mais do que preocupações, esperança. Mais do que tristezas, alegria. Mais do que lágrimas, sorrisos…

Não é preciso muito para que possamos corresponder. Não é necessário um esforço extraordinário para agradar a alguém que gosta de nós. Se preocupa connosco e se mantém ao nosso lado em toda e qualquer situação.

Basta que consigamos ver! Basta que tenhamos a capacidade de sentir que estão connosco e corresponder. Sermos para elas o que elas são para nós. Elas vão compreender. Vão gostar e vão continuar ao nosso lado porque…

Há pessoas assim!

Adelina Antunes.