segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Vagalumes


Não há forma de explicar o que sente. As palavras teimam em não surgir e quando aparecem são de tal modo “enroladas” que tem a sensação de se tratar de uma qualquer língua estranha e ininteligível. Os pensamentos vagueiam por tempos e vidas distantes. Tão distantes que é impossível distinguir até que ponto foram ou são reais. A consciência de quem é ou onde está abandonou-o por completo e o esforço por se manter sóbrio é demasiado pesado para o conseguir suportar.

Há quanto tempo está assim? O tempo deixou de ser uma realidade e na utopia em que se transformou, não há horas. Não há dias, meses ou anos. Não há tempo! Diria que está ali há uma eternidade se soubesse como a medir ou se pudesse, pelo menos, ter noção do que isso é! Um segundo... Talvez seja esse o tempo que o distancia do que antes se passou. Um mísero segundo! Um infindável segundo que teima em não passar apenas porque a realidade deixou de fazer sentido. Não é por certo uma eternidade mas de certeza que é muito mais do que um segundo. Anos! Décadas! Seculos…

Como encontrar a palavra certa para definir onde está ou o que sente? O termo perfeito? Qual o dicionário que lhe mostrará o sentido da vida, não no todo, mas segundo a segundo. Milésimo de segundo a milésimo de segundo? Há dicionários para tudo. Por certo existirá um capaz de explicar o sentido de cada segundo mas não basta encontra-lo. Um dicionário é algo de absolutamente inútil até ao momento em que descobrimos que não é para ler. Um livro é sempre para ler, dizem! Mas um dicionário não! Não se lê um dicionário. Consulta-se! Não do mesmo modo que se consulta um médico, se estamos doentes. Um advogado se temos problemas com a justiça ou um padre se sentimos que a nossa vida se transformou num caos e que precisamos de ajuda para a “consertar”. 

Mas consulta-se.

Não se concertam vidas do mesmo modo que não se mede a eternidade. A esperança é de que estas possam ser mudadas. Alteradas na medida do possível ou ao sabor do desejável. Mudar de vida! Mudar de tempo e de lugar. Mudar de ser e de estar. Mudar! Mas não apenas por mudar… Renascer noutro tempo e noutro ser. Noutro espaço e noutro lugar. Noutra vida. Noutro tudo quanto possa existir. Renascer!

As possibilidades, no entanto, assemelham-se a pequenos vagalumes que passam e nem damos por eles. Ou damos! Vemo-los e perdemo-los tão rápidos que são. Apercebemo-nos da sua presença pelo brilho que emitem. É preciso estar no escuro para os conseguir ver. É necessário penetrar na escuridão para conseguir mudar!

Sente que há muito vagueia num universo escuro e caótico pelo que a mudança tem obrigatoriamente que estar para breve. Tem de ser este o momento certo. Apenas necessita ver a luz do vaga-lume antes que este se aproxime demasiado. Não pode perder a oportunidade de o deixar passar e é sabido o quanto são rápidos. Um milésimo de segundo. Ou menos! É o tempo de que dispõe para se aperceber da chegada do vaga-lume e de o agarrar. É obrigatório que esteja atento não vá dar-se o caso de o deixar passar. E são tão raros…

Há noites em que surgem em abundância. Em que parecem nascer ao nosso lado e vaguear à nossa volta. Seres volantes e brilhantes que nos encantam pela beleza da luz que emitem. E é esse mesmo encanto que nos faz permanecer a vê-los sem os conseguir alcançar! Não se agarram vagalumes pois o contacto com a nossa mão mata-os ou fá-los deixar de brilhar. Preferimos vê-los brilhar. Esvoaçar à nossa volta e seguir o seu caminho. Não se agarram vagalumes!

As oportunidades não são vagalumes! Surgem nas nossas vidas e dão-nos a oportunidade de as agarrar. Ou não! Um pequeno descuido. Uma desatenção mínima e passam sem que demos por elas. Mais tarde, quando pensamos na noite em que estivemos envolvidos, somos capazes de recordar como se apresentaram. Como as vimos e assistimos à sua passagem (qual vagalume).

As oportunidades não são vagalumes! Há que vê-las. Senti-las. Analisá-las e não as deixar passar!
Há que despertar do torpor em que por vezes mergulhamos e seguir em frente. Não importa quanto tempo durou, desde que consigamos acordar. Que interessa se o mundo mudou ou se somos nós a mudar? Há momentos na vida que não se podem perder. Que são demasiado importantes para se virem a esquecer… ou lembrar. Há momentos na vida aos quais não podemos fugir. Ainda que nos façam sofrer. Ainda que nos façam sorrir. Mesmo que nos façam amar ou odiar. São esses os momentos que nos levam a viver.


Adelina Antunes.

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