terça-feira, 17 de março de 2015

Esclarecer para acusar


Para se poder julgar uma pessoa há que conhecer a realidade dos factos que se evocam. Não basta um conhecimento ligeiro. Uma interpretação pessoal. De preferência deve-se procurar o máximo possível de elementos de prova. Testemunhos. Documentos. Tudo quanto possa de algum modo contribuir para o esclarecimento da verdade.

Todos temos uma ideia de que os tribunais servem para acusar e defender. Todos desejamos que, quando um caso chegue ao tribunal, o Juiz seja imparcial. Ouça o máximo de testemunhas possível. Procure por todos os meios esclarecer a verdade para que, quando absolve a absolvição seja justa e quando condena o castigo seja merecido. Sabemos que nem sempre isso acontece. Para isso existem os recursos. Também sabemos que até os juízes são humanos, logo passíveis de erro. Não vou dizer que também podem existir alguns corruptos pois nãovem agora ao caso.

Quando se trata de questões públicas acabamos todos por formar uma opinião. Tomar um partido. Mesmo quando a verdade “vem ao de cima” podemos concordar ou não com a sentença. Mas reconhecemos a razão. Reconhecemos que a verdade foi procurada de modo a não restarem dúvidas. A nível pessoal é bem mais difícil esse reconhecimento. Temos tendência a formar opinião, julgar e condenar sem sequer darmos oportunidade de defesa. Sem solicitar esclarecimentos. Sem procurar provas do que consideramos ser uma verdade inquestionável.

Os mal-entendidos, as confusões, as meias verdades ou mesmo as mentiras, são o que mais contribui para as confusões e desentendimentos entre familiares e amigos. Famílias chegam a separar-se porque as acusações são muitas e os esclarecimentos nenhuns. Amizades acabam porque é fácil acusar mas muito difícil pedir explicações. Averiguar a verdade. E a mágoa aumenta. A dor impede que nos aproximemos de quem nos magoou a fim de perceber o que, de facto, se passou.

Surgem as acusações: Insensível. Sem sentimentos. Dura. Complicada… Corta-se o contacto. Desligam-se os telefones e, se por acaso nos cruzamos na rua, fingimos nem sequer ver a pessoa em causa. Mas se por acaso nos dirige a palavra, somos capazes de gritar. Acusar. Falar sem ouvir…

E tudo porquê? Um telemóvel que se desligou na hora imprópria. Uma frase que se disse e foi erroneamente interpretada. Um comentário que se ouve, por vezes através de outra pessoa. Qualquer coisa pode originar mal-entendidos. Mal-estar. Situações que nos levam a culpar e a acusar. Nem sequer nos lembramos que o telemóvel pode ter ficado sem rede ou sem bateria. Pensamos de imediato que nos desligaram a chamada “na cara”. Se nos dizem que o nosso companheiro tem outra, revoltamo-nos contra quem o diz. Acusamos essa pessoa, seja da família ou amiga, de ser uma falsa amiga. Egoísta. De nos querer mal. Nos estar a fazer sofrer de um modo insensível e cruel…

Dificilmente somos capazes de restabelecer a ligação e perguntar porque nos desligou a chamada. Ficamos! Calados. Sentidos. Magoados. Incapazes de pedir esclarecimentos mas capazes de comentar com terceiros que nos desligaram a chamada. Do mesmo modo que somos incapazes de perguntar a quem nos dá uma notícia daquelas porque nos está a dizer isso. No entanto exigimos saber quem é…

Deixamos que a relação termine. Doridos. Magoados. Revoltados e com a certeza de que fomos traídos. Afinal confiamos e revelou-se uma falsa. Uma impostora. Hipócrita. E tomamos a decisão de nos afastarmos dessa pessoa absolutamente indigna de confiança sem sequer nos tentarmos por no lugar dela. Sem pedir esclarecimentos. Completamente parciais vemos apenas o nosso lado. A nossa razão. E temos a absoluta certeza de estarmos certos. Afinal somos pessoas sinceras. Honestas. Incapazes de mentir, de dar maus conselhos ou fazer o que quer que seja que viole qualquer norma de amizade, educação ou boa conduta. Somos perfeitos, como todos deveriam ser.

Jamais seriamos capazes de dizer à nossa irmã ou à nossa melhor amiga que a chamada caiu por falta de rede só para que ela não se sentisse ignorada. Que o seu companheiro (ou companheira, caso se tratasse dum irmão ou de um amigo) tinha outra pessoa. Porque faríamos isso? Porque lhe diríamos o que, de uma maneira ou de outra acabaria por saber? Para a magoarmos? Para que se sentisse humilhada? Para que viesse a confirmar o que lhe dissemos? Não! Jamais faríamos isso. Jamais magoaríamos uma pessoa com uma verdade que acabaria por descobrir de outra forma. Jamais!

E porquê? Porque não é para isso que os amigos servem. Não é para nos ajudarem nas aflições. Nos fazerem ver as coisas como realmente são. Os amigos são para nos darem palmadinhas nas costas. Nos apoiarem. Nos dizerem que somos pessoas fantásticas e maravilhosas. Nos ouvirem sem dar opiniões nem conselhos. Estarem presentes e nos ajudarem a perceber situações dúbias das quais nem sequer os pomos a par…

Para que quereríamos uma amigo que nos fizesse ver a verdade? Que nos dissesse o que está certo quando, por qualquer motivo, não conseguimos ver? Para serem os primeiros a rir e a chorar connosco quando necessitamos? Não! Os amigos não servem para isso. Os amigos não nos devem magoar com as verdades nem dizer-nos o que não queremos ouvir. Não nos devem apoiar nas piores situações e muito menos estar ao nosso lado quando não temos mais ninguém. Nunca! Para isso temos…

Para isso temos…

… os amigos???

Adelina Antunes

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