Contos e outros tantos


A traição


Tinha vindo de África com o marido e os filhos no pós 25 de abril de 74, como muitos outros que por lá tinham vivido. A vida que lá era fácil e bem estruturada desmoronou-se por completo. Recomeçar de novo com todas as dificuldades porque passaram todos os retornados era uma tarefa difícil. Mas, com vontade de vencer, em poucos anos alcançaram um nível de vida que lhes permitia oferecer aos filhos  condições para construirem um futuro, se não grandioso, pelo menos estável. Ele conseguiu um bom emprego, bem remunerado, ela tratava da casa e dos filhos e ajudava-o na sua atividade. Tudo parecia compor-se. Tudo parecia estar bem encaminhado, mas a vida é por vezes cruel e uma doença grave levou-o quando ainda tinha muito para dar. Uma vida pela frente para viver.

Sozinha com dois filhos que, se bem que já trabalhassem, ainda precisavam muito da sua ajuda e acompanhamento, teve que repensar toda a sua existência. Conhecer aquele homem, mais novo mas que estava na faixa etária em que ainda se sentia foi uma loucura. Ele era apaixonado e muito envolvente. Cheio de carinho, de ternura e de amor para dar. Viveram tempos intenso de amor e desejo até ao dia em que ela decidiu montar um negócio próprio com a ajuda de um amigo. Mais velho do que o atual companheiro. Casado e também ele com filhos mas cheio de sonhos. De desejos por concretizar. O companheiro ideal em quem se apoiar.

O que de início não passava de negócios depressa se transformou num sonho de amor. Apaixonados juraram amor eterno. Uma vida em comum. Sozinhos contra tudo e contra todos se tal fosse necessário. Mais do que um local de trabalho construíram um ninho de amor. A dois. Longe de tudo quanto na vida os torturava. Longe das agruras familiares, dos problemas do quotidiano, da família…

Durante meses viveram num sonho idílico. Viagens românticas que os levavam aos lugares que ambos gostavam. Praias desertas, jardins encantados. Em todos os lugares o seu amor era vivido. As juras de amor eterno não os fizeram deixar as famílias. Ela continuava com o companheiro. Ele a viver uma vida dupla em que de um lado tinha o amor arrebatado que ela lhe proporcionava, do outro a estabilidade que a esposa lhe dava. Uma amiga comum sabia o que se passava. Era confidente. Aquela em quem confiava.

Mas ela queria mais. Passou a exigir mais tempo e atenção. Sentia-se no direito de ter mais do que aqueles momentos de paixão e falou com a amiga que, sempre atenta, lhe dava os melhores conselhos. Que continuasse assim. Que respeitasse os desejos dele. Que lhe fizesse as vontades. Afinal já não era propriamente uma criança e tinha a ventura de o ter ao seu lado…

O ninho de amor construído a dois foi no entanto conspurcado. O amor que ele lhe jurava eterno não era mais do que um subterfugio para conseguir dela o que queria. Insatisfeito consigo e com a vida considerava que tudo lhe era devido. Mulheres, para ele, serviam apenas para ser utilizadas. A seu bel-prazer. Que interessava se o amavam? Isso, ele não conseguia fazer. Não se conseguia apaixonar. Sempre as procurara pelo prazer físico. Uma espécie de recalcamento que trazia desde os tempos de meninice e juventude fazia delas objetos sem qualquer espécie de consideração. E foi assim que o ninho de amor passou a englobar mais um elemento. Nas horas em que ela não estava, era a amiga que o frequentava. Também ela casada e não pretendia destruir a vida estável que tinha. Queria a segurança que o marido lhe dava mas não conseguiu resistir às investidas dele. Passou a trair o marido em casa e a amiga no seu próprio território. Sem que a primeira soubesse entrou numa relação perigosa. Correndo o risco de serem apanhados, também eles fizeram daquele o seu santuário de amor profano.

Naquele dia tinham saído todos com outros amigos. Tinham-se divertido. Tinha sido uma noite agradável mas, ao regressar a casa já os dois sozinhos, estalou a discussão. Ela exigia uma atenção. Há muito que sentia que o estava a perder e culpava a mulher legítima, que sempre desconfiara da relação entre ambos. Ele dizia-lhe que era louca. Que não tinha o direito de exigir mais do que o que sempre lhe prometera.

A estrada era erma e, àquela hora, deserta. No auge da discussão ela ameaçou sair do carro e acabar ali mesmo a relação. De imediato ele travou mandando-a sair. Sem compreender muito bem como viu-se abandonada à beira da estrada, num local ermo e deserto, sem meios de voltar para casa. Esperou que ele reconsiderasse e voltasse atrás, mas tal não aconteceu pelo que acabou por pegar no telemóvel e chamar um táxi que a levou a casa. 

Falou com a amiga a quem contou todo o episódio, sem no entanto saber que esta já estava a par de tudo. Que ele lhe tinha contado, à sua maneira, tudo quanto se tinha passado. A amiga, que de verdadeira nada tinha, aconselhou-a a ter calma. Disse-lhe que tudo se iria compor e que falaria com ele para que se encontrassem e tentassem resolver a situação. Apesar de ter poucas esperanças que tal acontecesse, considerou que lhe devia dar mais uma oportunidade. Afinal já se tinham zangado doutras vezes  e sempre acabaram por se entender.

Dias depois, sem que ele ainda tivesse aparecido, decidiu ir ao seu local secreto. Reviver momentos de loucura e paixão que aí tinham passado. 

Quando chegou pareceu-lhe ouvir vozes. A televisão ligada, talvez. Afinal ele fora até lá. Podiam falar. Quem sabe se não acabariam a fazer amor e tudo se recompunha? Abriu a porta e deu de caras com ele e a que sempre considerara uma amiga de confiança, completamente nus em pleno ato sexual. Instintivamente levou a mão à mala. A arma que o marido tinha trazido de África estava carregada e ela sabia como a utilizar. Disparou indiscriminadamente até que à sua frente não restou mais nada do que uma amálgama de corpos nus, distorcidos e ainda ligados um ao outro. 

Atirou-lhes com a arma já sem balas e saiu porta fora sem sequer a fechar.


AdelinAntunes
março-2013 
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Sinceramente

Sempre ouviu dizer que a vida está difícil! Em criança era por causa da guerra de Africa. Quando entrou na adolescência por causa da revolução dos cravos “que deu cabo de Portugal”… com o passar dos anos essa convicção continuou… a vida está difícil!

Atualmente é por causa da crise. Da troika! Seja lá o que for a troika tem-se revelado um fator fundamental para arcar com as culpas da crise… Já não sabe o que pensar. O que fazer ou mesmo que posição tomar perante tanta adversidade… De início era fácil! Uma vida estável, um marido, filhos, uma família que dependia e se apoiava mutuamente e as coisas iam andando. Agora não! Sozinha, sem marido, os filhos ausentes e preocupados com as suas próprias vidas já não lhe dão a atenção que considera que merece…

Dias que sucedem dias levam-na a recordar tempos passados. Onde a felicidade (aparentemente) existia! Recorda o dia do seu casamento. A felicidade vivida! O nascimento do primeiro filho… um sonho concretizado! A dignificação do amor. A consagração de todas as esperanças e aspirações que tinha centrado no casamento… Depois vieram o segundo e o terceiro! Não é que já não se tratasse da felicidade experimentada com o primeiro, mas aquele sentimento de exaltação, de subida aos céus, já não aconteceu! Tudo foi diferente! Mais comedido! Mais regrado! Quase como se de uma rotina se tratasse…
Agora, há distância de vários anos (décadas), parece-lhe que talvez não tivesse sido assim tão diferente. Pensando bem, lembra-se da exaltação dos nascimentos. Dos sentimentos controversos que atravessou em cada uma das situações. O primeiro foi talvez mais especial por isso mesmo, por ser o primeiro! Mas, e analisando bem as circunstâncias, chega à conclusão que viveu cada parto como se fosse único! Especial! Sincero! “Porquê utilizar sincero, quando penso nos sentimentos que me percorreram durante um parto?” Pergunta-se incrédula. Todos os partos são únicos, todos eles são sinceros, verdadeiros! Há mais sinceridade do que a que a mulher vive quando dá á luz um filho? Então, porquê esta palavra nos seus pensamentos? Qual a razão de ser do seu subconsciente sentir necessidade de agregar às suas meditações uma palavra tão forte? “Sincero” “um parto sincero” “sentimentos sinceros”… “sinceridade”, esta palavra martela-lhe o subconsciente enquanto tenta desviar o pensamento para outras situações. O batizado dos filhos, todos diferentes, todos especiais, todos sinceros…  outra vez esta palavra! 

Cada vez mais esta palavra surge no seu subconsciente, como se tivesse necessidade de se afirmar! De mostrar que existe! Ou talvez de exigir existir… “Afinal de contas”, pensa,” o que é isto de sinceridade? Porque me invade o espirito sempre que recordações me assolam? Sempre fui sincera! Sempre assumi o que fazia, o que dizia, os erros (dos quais prontamente assumi as culpas e tentei solucionar) … não! Esta palavra não está aqui por acaso… algo a faz surgir constantemente na minha consciência e, consciente ou inconscientemente vou ter que descobrir o que a está a fazer assombrar-me. Sim porque de uma assombração se trata! Nada do que pense está livre dela! Tudo em que penso a faz surgir, ressurgir, aparecer e desaparecer de uma forma que, sinceramente, começa a assustar-me”…

Inconscientemente é levada até ao seu tempo de criança! Vê-se a si própria em cima de uma árvore… não lhe é estranho pois sempre adorou subir às árvores! Empoleirar-se em cima delas e ver os amigos a passar sem darem pela sua presença! No tempo das cerejas, as cerejeiras eram as suas favoritas! Sempre adorou cerejas! Comê-las em cima da cerejeira. Colhe-las, come-las e atirar com os caroços a quem passava. Escondida entre os ramos, indetetável por baixo, era vê-la prender os caroços com os dedos e fazê-los sair disparados. Quantas vezes acertavam nas cabeças ou nas costas e as pessoas olhavam sem terem exata noção do que as atingira. Quase nunca se lembravam de olhar com atenção para cima da árvore!... Morde-las, comer metade e deixar a outra metade ali presa como se nada tivesse acontecido… Como se fossem bicadas pelos pássaros. Ou como se um grande pássaro devorador de cerejas por ali tivesse passado. Ou se a cerejeira fosse invadida por ratos. Ratos trepadores de cerejeiras… 

Mas a que propósito vieram agora as cerejas ao seu pensamento? Estava a tentar descobrir o porquê de estar a ser assolada pela “sinceridade”… verdade se diga aqueles sim eram tempos sinceros. Ali tudo era verdadeiro. O gosto pelas cerejas. O gosto por subir às árvores! Quanto mais altas melhor! Ou mesmo o gosto de andar em cima das ramadas no tempo das uvas a saborear as mais deliciosas. 
Não pode dizer que tenha tido uma infância cheia de coisas. Daquelas coisas que se consideram “coisas” brinquedos, bonecas, vestidos bonitos… não, não tinha tido nada disso. Na verdade nunca teve uma boneca! Mas tinha os campos, as cearas, os bosques e os pinhais onde podia brincar, por onde podia correr e nunca sentiu que lhe faltasse nada! A não ser tempo para subir a mais árvores. 

As crianças são a alegria dos pais! Sempre ouviu dizer essas coisas! Passamos a vida a ouvir destas coisas: as crianças são a alegria do mundo. As crianças dão-nos força para continuar. As crianças… mas depois há aquelas que “degeneram” que são uma constante fonte de problemas e de preocupações desde o dia em que nascem! Não os seus, pensa! Os seus foram sempre umas crianças sem problemas. Bem comportadas, educadas, cresceram, formaram-se, organizaram as suas próprias famílias… nunca causaram problemas. Mas, foi mesmo assim? Eles foram assim tão bons? Tão perfeitos? 

De repente vê-se com uma criança nos braços, pela sua própria aparência e pelo ambiente que a rodeia, chega à conclusão que está a embalar o seu primeiro filho que, longe de parecer um bebé saldável e feliz grita a plenos pulmões. Por mais que faça, por mais que tente não consegue acalmar aquela criança que chora sem parar. É um choro de desespero, de dor, de medo e ela lembra-se: o filho, durante os primeiros tempos de vida estava constantemente doente. As idas ao hospital repetiam-se quase semanalmente. As noites passadas sem dormir não tinham conta. Pouco tempo antes de entrar para a escola, teve que ser internado. A situação parecia grave. Dias passados no hospital, na incerteza do que iria acontecer. Horas de sofrimento atroz em que ninguém lhe sabia dar um prognóstico apropriado e em que as suposições eram uma constante… Há data, tinha já o segundo. Um bebé problemático. Os ataques de asma faziam-no recorrer aos serviços hospitalares mais vezes do que seria desejável… chegavam a estar os dois internados em alas diferentes do hospital e entre as quais passava os dias a correr. Chegavam a estar em hospitais diferentes o que se verificava extremamente mais cansativo. Sinceramente, não foram dias assim tão felizes. Felizmente os problemas de saúde foram sendo controlados e passaram a ser crianças quase normais. Quase, porque as doenças, as idas aos hospitais e as noites mal dormidas foram sempre voltando.

 A mais nova não. Nasceu bem e foi uma bebé saudável. Nunca teve problemas que a fizessem ir ao médico mais do que as visitas normais para a idade. Um descanso naquele vendaval que eram os irmãos! Todos cresceram. Com maiores ou menores preocupações e sem que se possa dizer que causassem problemas de maior. Todos fizeram a escola com notas razoáveis. Todos se formaram. Um deles casou, o segundo, aquele de quem ela nunca esperaria isso com aquele ar franzino, sempre com a bomba para a asma à mão, com constantes idas ao hospital e frequentes internamentos… enfim, casou e está à espera do seu primeiro filho – vai ser avó! 

Este simples pensamento em vez de a deixar feliz aterroriza-a! Avó! Não sente que tenha idade para isso. Não se sente com capacidade para enfrentar de novo uma criança pequena, ainda que sem as responsabilidades imputadas a uma mãe! 

Não quer ser avó! E isto é sincero! Sincero…  desta vez a utilização desta palavra faz sentido! Ainda se sente demasiado jovem. Ainda se vê a correr pelas ruas, a dependurar-se na traseira dos camiões que passam para não ter que fazer os percursos a pé ou pelo simples prazer de se dependurar sem que o motorista se aperceba. Lembra-se das vezes em que a viagem se tornou mais longa do que estava à espera por não se sentir preparada para saltar do camião em andamento! E doutras tantas em que “apanhou” um camião de regresso… Ou então daquela vez em que o camião ultrapassou os guardas-republicanos que faziam a ronda pela aldeia e em que estes gritaram para que o camionista parasse. Claro que ele não parou! O salto para largar o camião mostrou-se desastroso. Pobres joelhos!

Os outros dois “juntaram-se” como se diz! Não têm filhos, aparentemente são felizes, embora ela de vez em quando se queixe do companheiro. “Tomara que não faça como eu”, pensa! A verdade é que ele não parece ser muito sincero… Não consegue dizer porque é que ele não parece ser sincero. Chamar-lhe-ia um feeling! Fá-la lembrar do marido. Aquele que ao fim de trinta anos de casamento decidiu que estava na hora de deixar. Aquele com quem, sinceramente, acha que nunca se deveria ter casado. 

Lembra-se de como o conheceu. Estava no Porto à espera do comboio com destino a Lisboa sentada na plataforma da estação quando o viu entrar. Ainda longe captou a atenção dela e da amiga que a acompanhava. Levava um pequeno saco atirado para o ombro e seguro pela mão como se esse gesto tivesse sido obra do acaso. O modo de andar, o balancear do corpo, aquele ar matreiro que não era comum nos rapazes da aldeia, destacaram-no no meio de uma estação cheia de gente. Não conseguiu despegar os olhos dele até que este se perdeu na multidão. Ainda falaram dele durante um bocado até que o comboio chegou. Seguiam para Lisboa, ela para casa dos familiares com quem vivia, a amiga de férias para casa de uns parentes. 

Entraram no comboio sem e escolheram uma cabine vazia. Sempre iam mais à vontade e podiam por a conversa em dia pois há uns tempos que não se viam. Assim que a composição iniciou o andamento a porta abriu-se e a primeira coisa que viram foi o saco vermelho que tanta atenção lhes tinha despertado no ombro do rapaz. Ele entrou na brincadeira com outro colega e ao vê-las perguntaram se os lugares estavam livres e se se podiam sentar. Que sim, que estavam, responderam enquanto se olhavam cheias de risinhos. 

Naquela altura uma viagem de comboio entre o Porto e Lisboa demorava cerca de sete horas, desde que não acontecessem imprevistos. Ao fim de algum tempo em que os rapazes falavam entre si e as raparigas entre elas e em todos se olhavam mais ou menos discretamente, acabaram por trocar conversa. Ao chegarem a Lisboa decidiram ir juntos comer umas bifanas…

Ao fim de alguns dias a amiga regressou à terra, o amigo desapareceu e ficaram eles os dois. Ele era militar. Não namoraram muito! Ele parecia muito apaixonado, ela mais do que apaixonada estava desejosa de sair de casa dos familiares pelo que decidiram que o melhor era casar. Apesar de se considerar demasiado nova, concluiu que sempre era uma maneira de sair de onde estava sem ter que regressar à terra pelo que aceitou de imediato quando ele a pediu em casamento. Foi assim que com dezoito anos se viu casada e aos dezanove tinha o seu primeiro filho.

Logo ao fim de seis meses de casada, quando desconfiou que ele tinha “uma namorada” como ele disse, devia tê-lo deixado! Se ao fim deste tempo ainda não se mentalizou que é um homem casado talvez fosse melhor voltar a ser solteiro! Este e outros pensamentos assolavam-na com frequência, mas o divórcio era uma coisa de que se não falava! Ou melhor, falava-se. Mas falava-se mal! Quem é que se divorciava? Ninguém! Só as malucas. Só as “mulheres da vida” que não sabem segurar um homem. Ou então aquelas que têm algum defeito cujo homem descobriu e que decidiu que não é digna de ser uma mulher casada… e depois há a vergonha de ficar sozinha! Como é que ia explicar às pessoas que deixou o marido? Claro que não podia fazer isso. Com a agravante que era ele quem pagava a renda da casa. Ela deixara a família que, muito ou pouco, sempre lhe dava algum dinheiro e ainda não conseguira emprego. Ainda não aceitara nenhum, porque trabalho felizmente não faltava. Mas decidira viver como uma mulher casada. O marido tinha saído da tropa. Tinha um trabalho relativamente bem remunerado e não queria que ela trabalhasse. 

Confrontara-o e ele garantira-lhe que não, que não tinha mais ninguém, que quando falava em namorar era a ela que se referia… encheu-a de presente e ela acabou por descobrir que estava grávida! Com que cara é que ia enfrentar os pais? “Mãe, pai, estou grávida mas acho que o meu marido tem outra por isso vou deixá-lo”. Isso era impensável! O que é que iriam pensar dela? O que é que iriam dizer? Chamá-la-iam de louca com certeza. Obrigá-la-iam a ficar com o marido! Decididamente essa era uma questão que nem sequer se punha. E depois teria que voltar para a pequena aldeia onde tinha nascido e na qual passaria a ser a chacota de toda a gente. A vergonha da aldeia… 

Decidiu aceitar as desculpas do marido. Ele ia mudar! Se realmente tinha tido algum caso foi uma coisa passageira. Coisa de rapazes. Afinal ainda era um rapaz. Com o nascimento do filho tudo iria mudar e ele endireitava. Era o que acontecia, não era? Um filho é uma responsabilidade e se a tropa não fez dele um homem, o filho fá-lo-ia com certeza. 

O dia em que o filho nasceu foi um dia do qual jamais se esqueceria! Em pleno parto a enfermeira chamou pelo seu nome. O marido queria saber o ponto da situação. Sim porque naquela altura um homem não assistia ao parto! Ia perguntando como é que as coisas estavam. Ia sabendo as notícias pela enfermeira de serviço que se encarregava de, aos gritos, perguntar quem era fulana ou sicrana e ir dizer ao marido se ainda estava com contrações, se tinha iniciado o trabalho de parto ou se a criança já tinha nascido. Mas o facto de saber que ele estava ali, àquela hora da madrugada, encheu-a de felicidade. Afinal ele estava sinceramente preocupado. 

Nos partos seguintes ele também lá estava. Também se interessou. Também quis ver os filhos assim que nasceram. Também lhes pegou ao colo e os cobriu de beijos! Sinceramente apaixonado pelos filhos.
Com o passar dos anos a paixão (se é que alguma vez existiu) foi esmorecendo. Ele falava pouco, mal se dirigia aos filhos e quando o fazia era muitas vezes para lhes chamar a atenção por este ou aquele pormenor. Embora na maior parte das vezes se limitasse a dizer-lhe a ela que, sinceramente, não os compreendia e ela que falasse com eles.

Não se recorda de como aconteceu. Não pode dizer ao certo quando é que decidiu que tinha que o deixar. As coisas aconteceram de um modo quase natural. A saída dos três filhos da casa paterna no espaço de cerca de ano e meio, dois anos, também não pode ser considerada o fator catalisador da mudança. 

Sinceramente nunca pensou que conseguisse mesmo deixá-lo. Até ao dia em que, por uma questão tão sem importância que já nem se consegue lembrar qual teria sido, lhe disse: sinceramente, estou cansada e quero o divórcio. Vou sair de casa e tu continua a tua vida como quiseres…

E foi o que aconteceu. Saiu de casa! Falou com os filhos. Explicou-lhes que no seu casamento havia uma grande falta de sinceridade e que tinha chegado ao seu limite. Tinha chegado a altura de ser sincera consigo própria e retomar uma vida que interrompera por uma ilusão de juventude que, sinceramente, nunca deveria ter acontecido.

Os filhos aceitaram, tal como o marido que, apesar de nunca ter tido nenhuma aventura extra conjugal, admitiu nem sempre ter sido sincero com ela!

Finalmente compreendeu. Era aqui que precisava chegar. Afinal nada no seu casamento havia sido um erro. Ele confessou que a achara linda. Que a paixão por ela havia sido imensa. Mas que, como paixão que era, consumira-se. Que sempre a tinha traído. Que não conseguia explicar o porquê de se ter casado. Que nunca o deveria ter feito. Ela admitiu que se casou porque de facto queria ver-se livre da família com quem vivia que, sinceramente, nunca a haviam aceitado de um modo pleno. Ambos concluíram que o seu casamento nunca deveria ter acontecido. Ambos concordaram que os filhos tinham sido o melhor que lhes aconteceu. Que apenas por eles o casamente tinha valido a pena mas que, estando eles criados e tendo seguido as suas próprias vidas, aquele perdera todo o sentido.

Os filhos acharam bem que os pais chegassem a uma conclusão sincera sobre o que era a vida deles e do que queriam fazer com ela dali para a frente.

Sinceramente, concluiu, estava a precisar de fazer este exame de consciência! “Afinal a sinceridade nunca esteve cem por cento presente na minha vida, mas, neste momento consigo entender o porquê de ser atormentada por uma palavra que parecia não fazer sentido ao aparecer ligada a todas as minhas recordações. Para ser feliz, necessitava ser sincera. Não com os outros, não nas minhas palavras nem nas minhas ações, mas sim comigo. Com os meus sentimentos. Não só os atuais, mas também em relação aos que senti ao longo de toda uma vida em que mascarei a conveniência com a sinceridade”.

 “Sinceramente… sinto-me melhor”!

01-fev-2013

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 O acidente


Por norma não ia para aquele lado. Habituara-se a fazer passeios à hora de almoço mas o destino era sempre o mesmo. Nesse dia seguiu em sentido contrário. Não lhe apetecia andar mas também não queria ficar parada. Pensou em fazer umas compras e dirigiu-se para o Shopping. A conversa com as colegas do serviço continuava a martelar-lhe aos ouvidos como se ainda estivesse a acontecer. Por norma não falava de política, mas nesse dia não conseguiu evitar e deu graças a Deus quando olhou para o relógio e viu que eram horas de almoço. A desculpa ideal para abandonar a discussão que se adivinhava.

Quando deu por si já tinha passado pelo Shopping. Não conhecia aquela zona da cidade e decidiu que seria a altura ideal para o fazer. Quando se cansasse voltava para trás.

Absorta nos pensamentos, com os auscultadores nos ouvidos e música ligada só se apercebeu do carro quando ouviu barulho de travões. Sentiu um choque e de repente tudo lhe pareceu desfocado.

Acordou com uma sensação estranha. Parecia-lhe que estavam a falar à sua volta mas não conseguia ver nada. Tentou levantar-se mas o corpo não lhe obedeceu. Lentamente procurou recordar o que tinha acontecido. A discussão com as colegas. O passeio pela rua. A música a tocar. O barulho dos travões… Fora atropelada! Pelos vistos deve ter desmaiado pois sente que está deitada. Mais uma vez tenta levantar-se mas em vão.

O som de vozes próximas é ligeiramente incomodativo mas significa que alguém está perto pelo que decide perguntar o que se passou. Tem que voltar ao trabalho. Afinal a sua situação é precária e não se pode dar ao luxo de faltar só porque sofreu um pequeno acidente. 

Quer chamar alguém mas sente que a voz não lhe sai da garganta! Num esforço enorme, tenta abrir os olhos que, a muito custo, lhe obedecem e repara que está numa sala de hospital. Nada que não tivesse já previsto, mas está na hora de se levantar e voltar para o trabalho. Vê um vulto com farda hospitalar e outro que lhe parece o marido só que muito mais velho, dez anos talvez. Fecha os olhos lentamente. O esforço de os abrir cansou-a. 

As tentativas para se levantar não surtiram qualquer efeito. O corpo continuava inerte, mas tinha a certeza que era só do choque. Não tardaria a recompor-se. Tentou chamar alguém. Levantar-se. Queria…

As vozes, agora mais próximas, tornaram-se percetíveis. Falavam dela… não! Não podia ser dela pois falavam em desligar o suporte de vida. Em já não haver esperança…

Tentou focar a atenção no que diziam. Agora ouvia-os perfeitamente. “ Já passou demasiado tempo. Se tivesse que recuperar já o teria feito. Não podemos fazer mais nada… ” Alguém devia estar muito mal para tomarem tal decisão…

Sentiu que as vozes se afastavam e tentou novamente levantar-se mas mais uma vez o corpo não obedeceu.

As vozes aproximaram-se. Sentiu que lhe pegavam na mão. O toque suave de uns lábios nos seus dedos…

“Minha querida! Ainda tínhamos esperança que um dia acordasses. Que voltasses para nós. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas… chegou a altura de te deixar partir.” 

Reconheceu a voz do marido. Percebeu que essas palavras eram para ela. Quis gritar. Levantar-se. 

Tentou apertar a mão que estava na sua… Sabia que tinha que reagir. Afinal estava viva. Estava a ouvi-los. 

Estava…

AdelinAntunes
29-jan-2013

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A decisão

Há horas que passeava pela cidade sem destino. Precisava pensar. Precisava decidir a sua vida mas a encruzilhada em que se sentia era mais densa e intransponível do que as que encontrava pelo caminho. Sabia que tinha que decidir! Sabia que dependia de si mas sentia-se incapaz de encontrar uma solução. Não estava a ser fácil. Não queria assumir a decisão sozinha no entanto essa era a única alternativa.

Tentou pedir ajuda. Tentou falar com ele de modo a que fosse uma decisão partilhada. Calculou que não quisesse assumir mas afinal também tinha direito a manifestar a sua opinião. Não adiantou. Ele limitou-se a afastar-se sem sequer falar sobre o assunto. A última coisa que lhe disse foi que a decisão era dela. Que tinha que decidir a sua vida sozinha…

Pensou em como é que tudo aconteceu. Como chegara àquela situação. De início tudo parecia fácil. Conheceram-se. Começaram a falar. Um café hoje. Um almoço amanhã. Pequenas conversas que giravam em torno de tudo e de nada. Coisas banais. Coisas importantes. Gostos. Sentimentos… a atração surgiu de mansinho. Suavemente sem que se apercebessem e quando deram por ela já era tarde de mais. Ainda tentaram evitar. Afinal cada um tinha uma vida organizada que não queria destruir. Ambos eram casados, sentiam-se felizes com um casamento que não queriam que terminasse. Ambos concordaram que não passava de atração física, sem consequências. A decisão de ficarem por ali, de cada um continuar a sua vida e esquecer o que tinha se tinha passado foi consensual. O que aconteceu depois é que veio atrapalhar tudo. Agora via-se confrontada com uma decisão que não queria mas que devia tomar rapidamente. Não estava a ser fácil. Não sozinha!

A notícia de que estava grávida apanhou-a de surpresa. O marido aceitara uma comissão de seis meses no estrangeiro e estava fora há três. Há muito que pensavam ter filhos sem conseguirem pelo que esta seria uma boa notícia. 

Perguntou ao médico quanto tempo tinha de gestação e a resposta chocou-a! 

Quatro semanas…
 
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Sabia que não devia estar a ser fácil. Achava que devia dizer alguma coisa. Dar uma opinião. Mas o que é que podia fazer? Não podia impor-lhe algo que ela não quisesse. Não podia pedir-lhe que alterasse toda a sua vida. Não por esse motivo.

Ela pediu-lhe ajuda. Pediu-lhe uma opinião. Pediu-lhe que partilhasse com ela uma responsabilidade que não queria assumir sozinha. Mas… pensara nele? Já nem falava dos seus sentimentos, mas, pensara nas consequências que a sua opinião poderia provocar?

Lembrou-se de como tudo aconteceu. Como chegaram àquela situação. De início tudo parecia fácil. Conheceram-se. Começaram a falar. Um café hoje. Um almoço amanhã. Pequenas conversas que giravam em torno de tudo e de nada. Coisas banais. Coisas importantes. Gostos. Sentimentos… a atração surgiu de mansinho. Suavemente. Sem saber como viu-se envolvido numa situação que não pretendia. Concordaram que não passara de atração física sem consequências. Ambos eram casados e não iam pôr em risco casamentos que tinham tudo para dar certo. Decidiram que o melhor era acabar por ali.

Pensou na esposa. Pensou nos tratamentos que há muito fazia para tentar engravidar sem resultado. Lembrou-se do dia em que decidiram adotar. Ela fizera-lhe uma proposta maluca. “Podes ter um filho teu”, dissera-lhe. Disse-lhe que procurasse uma mulher que estivesse disposta a gerar um filho seu. Ela aceitá-lo-ia. Criá-lo-ia. Como se fosse dela. Um filho dele que passaria a ser um filho deles.

Ofendera-se. Seria incapaz de estar com alguém apenas com o intuito de gerar um filho. Aliás nunca pensara em ter um caso. Estava apaixonado pela mulher e se não pudessem ter filhos partiriam para a adoção! Mas…, se por acaso acontecesse. Se por qualquer motivo uma mulher ficasse grávida dele…

Ela pediu-lhe para falar com ele. Que era importante. Que precisava da sua ajuda para tomar uma decisão. Que era urgente. Que não podia esperar muito pois aquela era limitada no tempo… Encontrou-se com ela.

Era impossível dar opinião. Não sobre aquele assunto. Não sabendo as consequências que esta poderia ter na vida dela! Quis dizer-lhe. Queria explicar-lhe…

A custo disse-lhe que essa era uma decisão que teria que tomar sozinha. 

Afastou-se! Sentia-se desfalecer. Aquela frase martelava-lhe nos ouvidos…

 “Achas que devo abortar?...”

AA

22-nov-2012




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Ponto final ...


Não saberia explicar o que desencadeou esta crise! O marido entrara em casa com ar aborrecido. Mais do que o habitual. Começara a gritar por coisas insignificantes. Porque pagara uma conta sem pedir comprovativo do pagamento. Pelos preços da luz, da água… As políticas governamentais..., insurgiu-se contra o governo. Contra o aumento dos impostos… que qualquer dia deixaria de os pagar … Até que, sem mais nem porquê, ameaçou pô-la fora de casa. Gritou-lhe que estava a abusar e que qualquer dia era isso que faria.

Não saberia dizer se se assustou ou se se zangou. Uma mistura de sentimentos fizeram brotar emoções contraditórias. Virou as costas sem pronunciar uma palavra e abandonou a sala. Um desejo de pôr fim a tudo invadiu-a. Nada havia que a pudesse demover dessa ideia. Apenas precisava descobrir como o fazer.

Contactou com um amigo de confiança. Não se recorda ao certo das palavras que proferiu mas lembra-se que lhe falou das reações do marido, das ameaças, do que sentiu e do desejo de morrer. De se libertar duma angustia que há muito a sufocava.

Não era a primeira vez que se abria com ele dessa maneira. Não era a primeira vez que lhe confiava os seus sentimentos. As suas angustias. Os seus anseios. Mas foi a primeira vez que ele ignorou as suas palavras. Que não lhe respondeu…

Pensou no marido. No que poderia ter provocado as cenas que fizera. Lembrou-se que lhe tinha dito que ia passar todo o dia seguinte fora de casa num congresso relacionado com o trabalho. De repente considerou que ele poderia estar com ciúmes. Desde há algum tempo que o achava inseguro. Quando estava ao computador ele olhava disfarçadamente como se quisesse ver se estava a falar com alguém. Perceber o que estava a fazer. Questionava-a quando falava sobre as colegas. Se saía com alguma queria saber onde foram. O que fizeram…

E teve medo! Medo de que qualquer vestígio de contactos com colegas o levassem a pensar em traição. Que o levasse a pensar numa infidelidade que não existia. Teve medo da reação que ele pudesse ter. Do que pudesse fazer. Não só a ela mas principalmente a quem nada tinha a ver com os problemas que  viviam.

Uma última mensagem enviada por mail alertava para a possibilidade de lhe acontecer alguma coisa. De sair e não voltar…

Saiu de manhã tal como estava previsto mas não chegou ao congresso. Ninguém reparou na sua ausência. Era habitual pessoas inscritas faltarem. Os colegas não estranharam pois ela não tinha dado a certeza da sua presença.

Apenas o marido estranhou que depois das ameaças da véspera ela ainda tivesse coragem de sair de casa. Não pensara que o fizesse…

Estava a pensar nisso quando a polícia bateu à porta. Precisavam que os acompanhasse para reconhecer um corpo…

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Não costumava ler aquele jornal mas o tempo que ainda teria de esperar pela sua vez e a antiguidade das revistas existentes no consultório fizera-o optar por ele. Folhava-o lendo ligeiramente alguns títulos quando uma notícia lhe chamou a atenção. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. A voz masculina que atendeu do outro lado confirmou o que acabara de ler…

Lembrava-se como a conhecera. Estava a tomar um café no bar da empresa quando ela entrou e cumprimentou. Acabaram por falar um pouco e a partir daí os cafés pela manhã passaram a ser pequenos momentos de convívio. Falavam quase sempre do trabalho. Por vezes dos colegas. Raramente de assuntos pessoais. Do café da manhã passaram a encontrar-se à saída do emprego e as conversas começaram a ter uma índole mais pessoal. Não era de fazer perguntas. Não era de fomentar intimidades, mas algo nela fazia com qua a ouvisse. Com que estivesse disponível para a ouvir.

Lembrava-se de lhe ter dito que era raro encontrar uma mulher com quem se pudesse falar sobre qualquer assunto. E ela falava! Falava com um à-vontade pouco visível em alguém do seu sexo. Falava de política e de trabalho. De sexualidade ou de futebol. De cinema ou de literatura. Falava sem que se prendesse em intimidades. De uma forma geral. Como se nada lhe dissesse realmente respeito. Era fácil ouvi-la. Raramente fazia perguntas e quando as fazia tentava não entrar num campo pessoal. Nunca o questionara sobre aspetos mais intimos. Nunca lhe pedira respostas ou explicações sobre o que quer que lhe dissesse respeito.

Um dia começou a falar sobre ela. Sobre os seus anseios. Sobre as suas mágoas. Sempre a considerara uma pessoa cheia de frustrações. Algo nela denotava uma tristeza profunda. Uma mágoa sobre a qual evitava pronunciar-se… Até que surgiram as confidências. Ouviu-a. Que mais poderia fazer? Deixara que confiasse nele. Deixara que se aproximasse a ponto de abrir uma alma que, sentia, precisava muito de ser ouvida!

Falava de si, dos seus sentimentos, das suas angustias…  Mais do que uma vez lhe disse que ela não estava bem. Que precisava de apoio. Que deveria resolver a sua vida. Tomar opções. Ela dizia que sim. Que sabia que precisava de apoio. Que estava a passar uma fase menos boa mas que recuperaria. Sempre recuperava!

No serviço todos pareciam gostar dela. Era aquele tipo de pessoa que tinha sempre um sorriso no rosto. Que estava sempre disponível para ajudar os colegas. Para fazer o que mais ninguém fazia. Via-se que não tinha amigos. Apesar de toda a sua disponibilidade afastava-se dos colegas. Na verdade nunca entendeu muito bem porque é que com ele era diferente. Nunca fez nada que justificasse essa diferença. Nunca tentou uma aproximação. Apesar de se sentir bem na sua companhia sempre tentou evitar uma amizade mais profunda. Algo nele o fazia retrair e afastar-se de situações ou amizades mais comprometedoras mas a carência que sentia nela, a tristeza patente por detrás daquele sorriso fácil, prendera-o mais do que desejaria.

Quando as conversas atingiram um grau mais intimista. Quando ela começou a falar de suicídio ainda tentou dizer-lhe que essa não era a opção certa. Que tivesse calma. As coisas pareciam estar a descontrolar-se e não queria de modo nenhum envolver-se em situações das quais poderia não conseguir sair. Naquele dia achou que o melhor era afastar-se. Dar-lhe espaço para que se recompusesse e reordenasse a sua vida. Não lho disse. Não havia nada que lhe pudesse dizer. Já não sabia como lidar com a situação.

A última mensagem era alarmante. Tudo indicava que não estava bem e achou que o melhor mesmo era esperar pelo dia seguinte para falarem com mais calma. Para a fazer ver que estava a enveredar pelo caminho errado. Que as opções que se lhe pareciam apresentar não seriam as mais indicadas… Sabia que ela reconsideraria. Sabia que se tratava apenas de mais um dia mau. Que na manhã seguinte tudo pareceria diferente!

A notícia que acabara de ler confirmou que de facto ela não andava bem. Que afinal precisava mesmo de ajuda…

Não pensou que fosse capaz…

AA
12-11-2012
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Fadas


De repente tudo lhe pareceu mais claro. Mais nítido. Sentia-se como se tivesse acabado de sair de uma zona de escuridão para a luz radiante do sol. O facto de ter encontrado aquela clareira quando há horas caminhava pela densa floresta em nada contribuía para essa sensação. Tinha a certeza! Ou talvez contribuísse… Talvez fosse a luminosidade que o invadiu que o fez ver as coisas de outro modo. Que o fazia sentir de novo vivo…
Tudo começou por causa de Leonor e do seu desejo de conhecer as ruínas da floresta. Estava convencida que aí encontraria a fada que lhe traria a felicidade. A busca pela felicidade parecia-lhe algo obsoleta. De outras eras. Mas o seu amor por ela fez com que se dispusesse a acompanhá-la. Afinal o que não faria por aquela mulher? O que não faria para a ver feliz?
A floresta adensava-se à medida que avançavam. O som dos pássaros foi-se desvanecendo até se transformar num murmúrio distante. De súbito viram-se invadidos por um silêncio sepulcral. Quando finalmente encontraram a gruta, Xavier estava certo de que não iriam encontrar nada. Afinal se a gruta tivesse algum interesse, arqueológico, paisagístico, arquitetónico ou qualquer que fosse há muito seria explorada e o certo é que, apesar de toda a vida se lembrar de ouvir falar da gruta, nunca ouvira dizer que alguém aí tivesse entrado.
Foi com um aperto no estômago que se aproximou da entrada. Não se considerava supersticioso, não acreditava em teorias de fantasmas, duendes, fadas ou o que quer que fosse que tivesse a ver com o mundo mitológico onde, por vezes, Leonor parecia mergulhar, mas ainda assim não conseguia afastar aquela sensação de mal-estar.
Apesar da entrada estar disfarçada por ramos de árvores e ervas altas, Leonor encontrou-a com facilidade, destapou-a e sorriu olhando para Xavier.
-Vamos?
A pergunta pecou por desnecessária. Claro que iam! Para isso ali estavam. Mas isso não invalidava que sentisse uma vontade enorme de voltar para trás. De deixar tudo e mergulhar nas ondas da praia onde se sentia muito mais seguro.
A entrada da gruta revelou-se escura e húmida tal como seria de esperar. Começaram a avançar e, misteriosamente, sempre que se deparavam com uma bifurcação Leonor parecia saber exatamente para onde ir. Xavier tinha a sensação que andavam há horas no entanto ela não dava sinais de cansaço nem vontade de regressar.
Desembocaram numa clareira onde a escuridão quase total deu lugar a uma ténue luminosidade que emanava das paredes. Leonor olhou em volta como se procurasse algo. Por fim aproximou-se de uma das paredes. Lentamente, como se tivesse receio de tocar onde não devia, começou a tatear a parede ao mesmo tempo que entoava uma estranha melodia.
Atónito viu-a posicionar-se de frente para um dos lados da parede, pressionar, acariciar, (massajar?) cada pedra, cada fresta, cada saliência, como se esses gestos fossem fundamentais para a sua sobrevivência. Os seus lábios mexiam-se num entoar constante duma melodia composta por sons antigos. Ancestrais. Desconhecidos mas que transportavam consigo acordes do tempo… O som de algo a quebrar, ou talvez do fecho de uma porta que se abre, apanhou-o de surpresa. Tentou aproximar-se. Temeu pela segurança dela. Sentiu-se imobilizado ao ver surgir uma fresta de luz no exato local onde Leonor acabava de desenhar uma espécie de porta com a ponta dos dedos da mão direita.
Sobressaltado correu para Leonor que o afastou com um sorriso. Sem saber o que sentir, afastou-se e ficou a olhar fixamente para ela enquanto esta, gentilmente, empurrava a parede que deu lugar a uma abertura na rocha. Movendo-se lentamente, de um modo quase etéreo, Leonor entrou na cavidade revelada pela abertura e fez-lhe sinal para que a acompanhasse. Xavier olhou em volta, como se o convite pudesse estar a ser dirigido a outra pessoa. Com as mãos trémulas e sentindo o suor escorrer-lhe pelo rosto aproximou-se. Leonor estava agora no centro de uma pequena sala que continha ao centro uma espécie de pilar com cerca de um metro de altura e que parecia servir de altar. Parado na entrada viu-a aproximar-se. As suas mãos pegaram num pequeno objeto depositado no centro do altar. Uma pequena caixa redonda que Leonor acariciou com gestos rituais.
Quis impedi-la. Quis gritar que tivesse cuidado. Que não sabiam que espécie de conteúdo a caixa teria… que nada deveria ser feito sem antes tomarem as devidas precauções… Sem resultado. As suas pernas recusavam-se a mexer, enquanto dos seus lábios não saíram as palavras necessárias à transmissão do que sentia.
Como se de um ritual sagrado se tratasse Leonor elevou a pequena caixa. Pareceu dançar com ela para depois a voltar a depositar onde estava. O cântico ganhou força. As suas costas arquearam-se enquanto os seus pés, agora descalços, pareciam procurar um ponto de apoio na coluna que sustentava o altar, como se pretendessem começar uma escalada de pequenos e minuciosos passos.
Com as mãos firmemente apoiadas no altar pareceu entrar em convulsões. O seu corpo arqueava a um ritmo estonteante. Xavier sentiu o pânico invadi-lo. Procurou aproximar-se mas sentiu que algo o imobilizava onde estava. Sem conseguir mover-se. Sem conseguir gritar, nada mais lhe restava do que assistir ao espetáculo da sua amada a dançar uma dança bizarra acompanhada por um cântico numa língua que, garantia, nunca tinha aprendido. A voz elevou-se à medida que o ritmo do seu corpo acelerava. Depois, lentamente, foi-se esvanecendo ao mesmo tempo que a dança perdia o seu ritmo. Com gestos cerimoniosos procurou o fecho da pequena caixa. Apenas um toque dos dedos e um estalido indicou que esta se tinha aberto. Leonor aproximou a caixa dos lábios, sussurrou pequenas e inaudíveis palavras voltando a coloca-la no lugar onde a encontrara.
Lentamente levantou a pequena tampa. Um feixe de luz multicolor invadiu o espaço da gruta. O grito que o acompanhou foi dilacerante e Xavier receou pela vida de Leonor. Tentou aproximar-se. Ver o que se passava. Mas a imobilidade a que parecia estar reduzido impediu-o de qualquer movimento…
Leonor levantou a tampa da pequena caixa e um feixe de luz multicolor invadiu o espaço da gruta. De imediato foi sugada para o seu interior. Um grito dilacerante envolveu toda a gruta e a caixa tombou no local de onde tinha sido retirada fechando-se de imediato. Xavier sentiu-se liberto e, de um salto, aproximou-se do pequeno altar. Pegou na caixa e olhou-a de todos os lados à procura do fecho numa tentativa desesperada para a abrir. Para aí encontrar a sua amada. Para a libertar, se tal fosse possível. O fecho, antigo, revelou-se inviolável. Todas as tentativas foram goradas e a caixa permaneceu intacta. O desespero apoderou-se dele. Sabia que tinha visto Leonor abri-la. Sabia que desta se tinha libertado um feixe de luz. Sabia que Leonor fora sugada para o seu interior e que esta, de imediato, se fechara…
Sabia? Nada lhe parecia real. Nada disto podia ser real. Nada fazia sentido. Uma pessoa não pode ser sugada para dentro de uma minúscula caixa de poucos centímetros de diâmetro. Desesperado forçou o fecho que não cedeu perante o seu ímpeto. Soluçando o nome de Leonor atirou a caixa contra a parede da gruta, que pareceu devolvê-la à sua posição inicial. A caixa embateu violentamente na parede, ricocheteou e caiu diretamente no lugar onde Leonor a havia colocado girando sobre si até se posicional na posição inicial.
Desesperado tentou pegar-lhe. Não desistia com aquela facilidade! Quando estava quase a tocar-lhe a tampa abriu-se espontaneamente. A sala voltou a ser inundada de luz, mas desta vez esta parecia mais luminosa. Mais viva. Mais vibrante…
Leonor pareceu emergir da caixa, transportada pelo feixe de luz. Uma figura efémera e esvoaçante. Mais bela do que nunca. Os longos cabelos, antes presos, esvoaçavam como que embalados por uma leve brisa. O sorriso luminoso transmitia paz. Tranquilidade. Tentou tocar-lhe. Abraçá-la! Puxá-la dali para fora, mas as suas mãos nada encontraram. Agarravam o ar, como se o que estivesse perante si não fosse Leonor, mas sim uma imagem tridimensional do que fora a sua amada.
- Não te preocupes comigo! Encontrei a minha fada! Voltei para casa! Obrigada por me trazeres até aqui!..
Sentiu que ela o beijava! Sentiu o calor do seu corpo. Da sua pele. Sentiu o sabor dos seus lábios… sentiu-se desfalecer e, sem saber como, encontrou-se sozinho na floresta.
Agora, à luz do sol, tudo parecia mais claro. Mais nítido. Nada daquilo tinha acontecido. Nada fora real. O que mais queria era voltar para casa. Esquecer tudo. Leonor também devia estar cansada. Afinal há horas que circulavam pela floresta. De repente apercebeu-se que há algum tempo não tinha consciência da sua presença. Olhou em volta na esperança de a encontrar. Tinha que estar por perto. Percorreu a pequena clareira sem vislumbrar sinais da sua amada. Gritou o seu nome sem obter outra resposta que não fosse o eco da sua própria voz. Aves assustaram-se com o seu chamado e levantaram voo. O barulho que faziam a voar parecia-lhe murmurar o nome da sua amada… Leonor…
Desesperado olhou em seu redor. As árvores, as plantas, as flores, tudo lhe parecia mais vivo e colorido. Conservava a mão direita fechada. Como se segurasse algo que não se recordava de ter pegado. Lentamente abriu-a. Uma pequena caixa redonda brilhou à luz do sol…

Adelina Antunes
Nov. 2012

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Personagem principal


Não é todos os dias que se tem oportunidade de conhecer um escritor de renome. O lançamento do mais recente livro, seguido de uma sessão de autógrafos, parecia ser o momento ideal para que Margarida conhecesse o seu autor favorito.

Chegou cedo. Queria escolher um lugar onde tivesse a certeza de ser vista. Tinha comprado o livro com antecedência. Tinha-o lido! A história era algo macabra. Como era apanágio do autor. A morte de uma adolescente logo nas primeiras páginas transportava o leitor por um mundo surpreendente. O final, completamente invulgar, fazia com que este sentisse necessidade de voltar a ler, se não a totalidade, pelo menos os trechos que mais o marcaram…

A sala encheu e finalmente chegou o escritor. Tinha um ar jovial que contrastava com as histórias sombrias que escrevia. 

Margarida gritou pelo seu nome fazendo com que este se virasse na sua direção. Os seus olhos cruzaram-se e ele presenteou-a com um simpático sorriso. Durante toda a sessão não deixou de olhar para ela e sorrir. Por vezes parecia dirigir-se-lhe diretamente. Olhava-a quando perguntou quem é que já conhecia o livro. Ela disse que já o lera e ele pediu-lhe que falasse um pouco sobre a história. Fez-lhe perguntas e orientou as respostas. Ela percebeu que estava a ser orientada no sentido de responder o que ele queria ouvir mas não se importou.

Foi ela a abrir a sessão de autógrafos. Ele chamara-a com um gesto simpático no final da palestra.

Elogiou todo o trabalho do autor. Lera todas as suas obras. Tinha todos os seus livros no carro que levara na esperança de lhe pedir que os autografasse… Com um sorriso ele disse-lhe que se não se importasse de esperar, teria todo o gosto em acompanhá-la até ao carro. Ficaria com uma coleção de originais autografados…

A noite ia já bastante avançada quando ela abriu a mala, pegou nos livros e lhe perguntou se não queria sentar-se no banco do carro. Não havia nada aberto por perto e a temperatura estava ligeiramente desagradável. Sentaram-se e ele pegou no primeiro. Olhou-a e perguntou há quanto tempo é que o tinha. Quando e onde é que o lera. Quais as sensações que sentira ao lê-lo. Quais as emoções que o mesmo lhe proporcionara… Outro livro, novas perguntas. Quando lia, o que é que pensava? Em quem é que pensava? Sentia-se tentada a recriar algumas das passagens dos livros? Sentia-se envolvida? Alguma vez pensou que pudesse ser ela a personagem principal de um dos seus livros? 

As perguntas sucediam-se. As respostas, que de início jorravam com facilidade, tornaram-se mais difíceis. Mais complexas. Não porque não soubesse o que responder, mas porque as perguntas se foram tornando mais pessoais. Mais insidiosas. Roçando por vezes a promiscuidade. Mas foi respondendo que sim, que se envolvia com as histórias. Sempre as vivenciara. Sempre sentira que poderia ser ela a personagem principal. Que os sentimentos das personagens se interligavam com os seus próprios sentimentos. Ou pelo menos assim lhe parecia…

Falaram durante muito tempo. Ele disse-lhe que estava já a pensar no seu próximo livro. Num enredo. Nalgumas personagens. Num caminho a seguir... De repente a pergunta: Queres fazer parte do meu próximo livro? 

Apanhada de surpresa e sem saber muito bem o que dizer, riu. Disse que sim, mas… como? Em que papel? Qual seria o enredo? Ele olhou-a fixamente e pôs um ar sério. “A história gira à volta de uma adolescente fascinada pelo seu ídolo. Completamente obcecada segue-o para todo o lado. Cerca-o de atenções. Está presente em todas as ações em que ele aparece. Idolatro-o. Importuna-o. Ele, completamente saturado da situação, decide que isso não pode continuar.” Parece interessante, diz ela, mas não entendo como é que poderia ter um papel num livro… e que papel seria? Ele sorriu! "Minha querida, só poderias ter o papel principal!"

A polícia foi alertada. Um carro com uma mulher aparentemente desfalecida sobre o volante chamara a atenção dos passantes. Porque não respondeu quando a tentaram chamar. Porque a posição em que se encontrava não parecia muito natural, abriram a porta do carro fazendo com que o corpo deslizasse para o chão. Da garganta aberta escorria ainda um rasgo de sangue….

AA
nov. 2012



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À noite com Edgar Allan Poe




Sentada em frente da janela observava a intensa chuva que caía. Ao seu lado, tombado sobre o tapete, encontrava-se o livro Antologia de Contos e Poemas de Edgar Allan Poe… 

Tinha saído de casa com a intenção de levantar um livro que resultara de um passatempo promovido através da Internet por uma editora e comprar um manual de que necessitava para a faculdade. Escolheu um dos muitos livros existentes para oferta e, como não tinham o manual de que precisava, decidiu procurá-lo na zona. Do outro lado da rua uma feira do livro disposta numa tenda anunciava “Temos o que não encontra …” Entrou. Por vezes descobrem-se coisas interessantes nestas feiras. 

Circulou por entre mesas carregadas de livros. Aqui e ali um ou outro título despertaram-lhe a curiosidade. Uma obra sobre os judeus em Portugal aparentava ser interessante mas o preço e o facto de se tratar de uma trilogia tornavam-na inacessível… Encaminhava-se para a saída quando algo lhe chamou a atenção. Impossível afirmar o que a atraíra! Se o preto da capa. Se a ilustração. Se as letras amarelas do título: Antologia de Contos e Poemas. Pegou nele e, como sempre fazia, voltou-o para ler o pequeno resumo da contracapa. 

“Vós que me ledes / por certo estais ainda entre os vivos; / mas eu que escrevo / terei partido há muito / para a região das sombras.” – Edgar A. Poe. Quem nunca ouviu falar deste autor? Quem, de um modo mais ou menos aprofundado, não conhece O corvo? Dirigiu-se à saída, pagou e perguntou onde poderia adquirir livros recentes. Havia ali perto uma livraria e foi para aí que se dirigiu. Comprou o manual decidida a começar de imediato a sua leitura mas foi a Antologia de Contos e Poemas que abriu e começou a folhear lentamente.

Sem se dedicar a qualquer dos contos, sem iniciar a leitura de nenhum dos poemas foi lendo pequenas frases espalhadas pelo livro até chegar a casa e ligar a Internet. Abriu o Youtube e pesquisou por Edgar Allan Poe. De imediato surgiu uma sequência de pequenos vídeos reproduzindo obras do autor. O corvo e O gato preto apareciam em diversas versões que se pôs a ver umas a seguir às outras. 

Lá fora a chuva caía com intensidade acompanhada de uma forte trovoada. Uma falha na Internet fez com que pegasse no livro e se sentasse a ler…

Provavelmente sugestionada pelo poema O corvo pareceu-lhe ouvir alguém bater nos vidros da janela assustando-se e deixando cair o livro. Lá fora a chuva caia com intensidade. O barulho dos trovões sobrepunha-se ao ruído dos poucos carros que circulavam. De repente novas pancadas na janela provocaram-lhe um sobressalto. Num impulso levantou-se, aproximou-se da janela e abriu-a de par em par. Um som de restolhar precedeu o par de grandes asas negras que entraram pela janela. A surpresa e o susto fizeram com que caísse inanimada…

…..

A autópsia confirmou: morte por ataque cardíaco!


AA
Out.2012



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A Procura



Não sabia explicar como chegou àquela situação. Coisas que até então lhe pareceram certas e consistentes desmoronaram-se como um baralho de cartas. O que foi que aconteceu?

Sozinho, num quarto de hotel desconhecido, numa cidade ainda mais desconhecida, tentava analisar toda a situação e saber onde errara… se é que errara. Onde é que falhara? Se é que falhara. O que é que correra mal?

Toda a situação era estranha. Tudo quanto se passara não fazia sentido! Tentava, em vão, encadear as ideias que teimavam em fugir-lhe. Em afastar-se como que envergonhadas daquela realidade ilusória.

Tudo começou de um modo simples. Como todos os dias saíu de manhã cedo para levar o filho à escola e seguir para o trabalho. A esposa, essa, sairia mais tarde pois nesse dia não ia trabalhar. Tinha uma consulta de rotina no médico de família.

Criança na escola, entrada ao serviço a horas, um dia de trabalho em tudo igual a tantos outros até ao momento em que o telefone tocou. Era ela. Perguntou-lhe como estava e o que tinha dito o médico. A voz dela mostrava-se agitada. Com pressa em falar mas ao mesmo tempo como se não soubesse o que, ou como, dizer.

Preocupou-se! Está doente, pensou… questionou-a e ela, com voz entrecortada, talvez pela emoção, provavelmente pelos nervos, disse-lhe baixinho:

- Está tudo acabado!

Sem saber o que pensar veio-lhe à cabeça o medo de uma doença. Provavelmente incurável. Agora que pensava nisso há tempos que ela andava nervosa. Irritava-se com facilidade. Rejeitava qualquer tipo de intimidade ou carinho… Sempre atribuíra essas atitudes ao cansaço, mas agora assustava-o a ideia de uma doença incurável. Talvez tivesse pouco tempo de vida. Talvez…

- O que é que tens? O que disse o médico?

Do outro lado da linha o silêncio prolongou-se por segundos que pareceram séculos.

- Não fui ao médico! Preciso de te dizer uma coisa. Preciso que compreendas que não o podia fazer pessoalmente. Está tudo acabado! Saí de casa com o nosso filho e vou viver com outro homem para outra cidade. Não nos procures…

Ali estava ele. Sabia que a não devia procurar. Não a procurava. Mas precisava de rever aquele filho que não via há anos e que procurava incessantemente de cidade em cidade.

AA

out. 2012


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Um café


Sozinha, embrenhada na leitura tal como todos os dias por aquela hora, apreciava a calma do rio quando o sentiu aproximar... Falava ao telemóvel! Pela conversa deu para perceber que era assunto de trabalho. Tem uma voz agradável, pensou. E, quase automaticamente, olhou na sua direção. 

Ele escolheu o banco mais próximo para se sentar e, aparentemente indiferente, continuou a conversa enquanto olhava para ela, sabia que ela se tinha apercebido da sua presença até porque já olhara para ele. Acabou a chamada e fez outra sempre a ver o que ela fazia... o que a traria ali? Estaria apenas de passagem? Trabalharia por perto? Via-se que não estava concentrada na leitura. Não estava a ler um livro, tinha diversas folhas meio soltas nas mãos, outras numa pequena pasta, talvez estivesse a estudar…

Acendeu um cigarro e ficou a olhar para ela. Os bancos posicionados em L facilitavam a tarefa de a ver sem chamar a atenção. Ao fim de alguns minutos que mais pareceram horas ela começou a guardar os papéis. Vai-se embora, pensou…  Talvez lhe devesse dirigir a palavra… quem sabe não responderia? Mas dizer o quê? Já não são propriamente adolescentes e pode parecer impróprio… se tentar falar de trabalho? Se responder poderá encaminhar a conversa para um nível mais pessoal…

 “Desculpe…” ela parou e olhou para ele. É um bom sinal! Mostra-se recetiva. “A senhora por acaso não se importa de ficar com o meu contacto para o acaso conhecer alguém que precise de fazer obras em casa?”Ela não se mostrou renitente e respondeu que sim, que ficava! Sempre conseguira um estratagema para lhe dar o número de telemóvel! Tem consigo os cartões da empresa. Tem sempre, claro, não poderia contactar um cliente e não ter um cartão para lhe dar. Mas esse é o número de serviço e o ideal seria dar-lhe o pessoal. “Tem com que tomar nota?” Não lhe iria perguntar de tinha onde escrever, aliás reparara que para além das folhas também tinha com ela um caderno. Que tinha, respondeu. Deu-lhe o número que ela anotou nas costas do caderno. 

“Mora aqui na zona?” Não, não morava. Trabalhava ali. Não tem importância. Afinal, explicou ele, trabalhava em muitos locais e já tinha tido clientes em toda a zona da grande Lisboa. Perguntou onde é que morava. Ela não parecia inibida por ele se lhe ter dirigido e respondeu. “Conheço a zona, o mês passado estive a pintar um apartamento n av. …”! Era nessa avenida que ela morava e pela descrição foi mesmo muito perto da sua casa… não pode evitar sorrir. Não lhe disse que era aí mesmo que morava, claro! Ele sentiu o sorriso e avançou, perguntou se conhecia aquele clube, onde costumavam fazer umas festas engraçadas aos sábados… costumava lá ir. “Conhece?” 

Não, não conhecia mas já tinha ouvido falar. Fez tenção de avançar e ele, que ainda continuava sentado no banco, perguntou de repente: “Não me quer dar o seu número de telemóvel? Podíamos ir tomar um café”…

“Bem, agora já se começa a mostrar” pensou ela. Olhou para ele e sorriu. “Não obrigada. Não tomo café e para além do mais são horas de regressar ao trabalho.” Virou costas, tinha começado a cair uma chuva miudinha mas que molhava! “Se por acaso tiveres por aí um chapéu ou um casaco que me possa abrigar da chuva” pensou, “podes crer que, se não aceito o café, aceito de bom grado que me acompanhes”. Não estava longe do trabalho. Uma corridinha, mesmo debaixo daquela chuva leve era algo suportável e nem deveria ficar muito molhada, mas sempre era um pretexto para continuar a apreciar aquele pedaço de homem que lhe aparecera pela frente. 

Durante os poucos minutos que levou a chegar ao serviço não conseguiu impedir que um sorriso lhe bailasse nos lábios. Agora, com aquela idade, já quase a alcançar a casa dos quarenta… nunca pensou despertar alguma curiosidade num elemento do sexo oposto. Não era nenhuma beldade! Tinha consciência que tinha uns quilos a mais e apesar do seu quase um metro e sessenta, era baixa para a maioria dos padrões de beleza, mas o certo é que foi a ela que ele se dirigiu. Sem rodeios. Se dúvidas houvesse teriam sido desfeitas ao constatar que não havia mais ninguém por perto. 

Ainda pensou em olhar para trás a ver se ele a seguia. Se tinha mostrado alguma vontade de a acompanhar. Mas acabou por concluir que tal não seria apropriado. Assim que chegou ao serviço nada a impediu de ligar para a amiga. De um folego contou-lhe o que se tinha passado. Aquela achou natural “afinal és uma mulher interessante, atraente. Qual é o espanto?” “Atraente? Desculpa, mas com esta gordura toda?” A amiga riu “sabes que há homens que gostam delas gordinhas…” pois sim… provavelmente o que ele queria era outra coisa! Os homens são todos iguais, pensou. Mas no fundo não deixou de se sentir lisonjeada! Há quantos anos não era abordada daquela maneira!

Ele ficou a vê-la partir debaixo de chuva “se tivesse um chapéu-de-chuva, ou pelo menos um casaco sempre tinha uma desculpa para a acompanhar. Talvez ela aceitasse que a abrigasse… “ Não tinha claro, deslocara-se ali em serviço e, no final da Primavera com um dia que amanheceu ensolarado, quem pensaria que pela hora do almoço a chuva iria aparecer? Ainda pensou em segui-la mas não seria conveniente! Se ela se apercebesse o que é que iria pensar? Que era algum aventureiro ou que a considerara a ela uma aventureira. Na realidade nem sequer sabia porque é que se lhe dirigiu. Não era seu hábito encetar conversa com ninguém e desde que ficara sozinho nunca tal tinha feito.

Já estava só há algum tempo! Desde que a sua mulher morrera naquele estúpido acidente de automóvel. Não tinham filhos o que aumentou a solidão. A família insistiu para que fosse viver com eles mas não aceitou. Já não tinha idade para viver com os pais e por outro lado sentiu que seria uma traição para com a falecida mulher se abandonasse a casa onde ambos tinham vivido momentos inesquecíveis. Dificilmente saberia dizer se de facto foram felizes. Considerava que sim, que os anos que viveram juntos foram os mais felizes das suas vidas, mas vistos assim á distância facilmente se esquecem os maus momentos e apenas os bons têm tendência a ficar. 

Já não eram crianças quando decidiram casar. Ele tinha trinta, ela vinte e nove anos, pode dizer-se que sabiam o que queriam. Ambos tinham a vida bem organizada. Ele como empreiteiro de construção civil tinha trabalho em todo o concelho de Lisboa e se era chato por não estar sempre num sítio certo, por outro lado nunca enfrentava a rotina. Fazia um pouco de tudo, pinturas, canalizações, instalações elétricas. Não era uma grande empresa, mas tinha um grupo de profissionais excelente o que os fazia estar bem conceituados no mercado. A verdade é que tinham sempre trabalho e podiam dar-se ao luxo de escolher o que aceitavam ou não, o que nos tempos que correm é obra!

Ainda a olhar para o lugar em que a viu desaparecer pensa que nem sabe bem porque é que se lhe dirigiu. Há muito que os amigos o tentavam motivar a conhecer outras mulheres. A sair de casa, “recomeçar a vida” como eles gostavam de dizer. Veio-lhe à ideia o livro que a mulher leu nas últimas férias que passaram juntos… que devorou, melhor dizendo! Nunca a tinha visto ler um livro em tão pouco tempo. “Viúva por um ano”. De início não compreendeu o interesse dela pelo livro. O título não o entusiasmou e quando ela lho resumiu a ideia com que ficou foi que, no livro, era referido algo do género de que quando uma mulher fica viúva, ao fim de um ano estará pronta para outra relação. Uns meses depois da mulher ter morrido encontrou o livro no meio das coisas que ainda conservava dela e acabou por o ler. A história era de facto marcante. O modo como está escrito e as etapas por que passa a personagem prendem o leitor e este não consegue parar de ler. 

Havia quase dois anos que a mulher morrera! Quase dois anos em que se recusara a sair com quem quer que fosse e aquela história de ir aos bailes e festas que referira há pouco não era completamente verdade. Realmente ia. Os amigos insistiam para que fosse. “Vais ver que vais gostar” diziam, “quem sabe se não vens de lá acompanhado?” Ia para lhes fazer a vontade, mas não conseguia divertir-se, não havia nada nem ninguém que lhe despertasse o interesse.

Pensou que se ela morava na zona talvez a encontrasse por lá! Ela disse que não conhecia, que não frequentava, mas também disse que sim, que já tinha ouvido falar. Com um pouco de sorte talvez decidisse passar por lá no próximo fim-de-semana! Pelo sim pelo não iria até lá. Sozinho. Não queria que os amigos começassem a fazer comentários quando se apercebessem que estava à procura de alguém. Podia dar-se o caso dela não aparecer. O melhor era não ir com os amigos!

A tarde foi difícil, o trabalho não rendia e tempo custou a passar. Tinha combinado ir tomar um café com a amiga à saída e estava ansiosa por lhe dizer como ele era, o que tinha dito. O modo como olhava para ela… “Isto não é normal” pensou. “A verdade é que mal o vi”. O facto de perguntar se queria tomar café não quer dizer nada. Foi só conversa! O mais certo é nem sequer o voltar a ver. A amiga “metralhou-a” com perguntas, como era, se era charmoso, o que é que disse, então mas não perguntou mais nada? Só se queria tomar café? Com muito menos calma do que a que queria aparentar e sentindo uma excitação que não fazia sentido, lá lhe explicou que ele começou por perguntar se vivia na zona ou se ali trabalhava, se conhecia alguém que precisasse de fazer obras em casa. Que lhe falou de diversas obras que fez em diversos pontos da cidade… “ele nem sequer te deu um cartão”, grande empreiteiro que nem sequer tem cartão! De facto, pensa ela, hoje em dia toda a gente tem um cartão. Não faz sentido nenhum pedir que tome nota de um número de telefone…

No sábado ele arranjou-se cedo. Um bom banho, uma colónia agradável… Nesse dia os amigos tinham uma reunião na casa de um deles para festejar o aniversário de casamento. Ainda lhe perguntaram se queria ir, mas quando respondeu que não disseram compreender. Afinal tratava-se de uma reunião de casais, provavelmente não se sentiria bem. Saiu de casa em direção ao clube. E se ela aparecesse mas acompanhada? Cumprimentava-a? Virava costas? O melhor era não pensar nisso e ir até lá. 

Há muito que não saía. Antes do divórcio ia por vezes com o marido até um bar, ao cinema, qualquer coisa, qualquer lugar onde pudessem passar umas horas agradáveis, mas desde que ele saíra de casa não tinha vontade para nada. Deixou de sair. De conviver com os amigos (grande parte eram também amigos dele e talvez por isso se tenha afastado), mas desde aquele dia não parava de pensar no encontro com o fulano das obras. “O fulano das obras” era assim que pensava nele. Sabia muito bem onde tinha anotado o nome e o número de telemóvel que ele lhe dera. Aliás nem precisava de ir ver para se lembrar do nome. 
Não pensara praticamente em mais nada naqueles dias. A amiga estava atrasada, tinham combinado que ela iria ter a sua casa e que iriam até ao clube. Tomavam qualquer coisa, sentavam-se um bocado, talvez até dessem uns passinhos de dança quem sabe? E tentava vê-lo. Isto se ele aparecesse. O facto de ter mencionado que conhecia o espaço e que por vezes ia até lá não significava eu fosse. Ou pelo menos que fosse lá nesse dia.

Quando a amiga chegou já estava pronta e saíram de imediato. Tinha pressa de lá chegar. Sentia-se como uma miúda entusiasmada a sair para um encontro… Chegaram e, tal como seria de esperar aquilo ainda não estava cheio. Procuraram um lugar para se sentar de onde pudessem ver quem entrava e pediram uma bebida para cada. Nada de bebidas alcoólicas, ela não bebia álcool e a amiga nesse dia como tinha que ir a conduzir para casa também se absteve. Ao fim de algum tempo em que se fartaram de ver entrar e sair clientes decidiram circular um pouco. Passaram pela pista de dança e ainda deram uns passos, encontraram umas colegas que já não viam há bastante tempo e fizeram-lhes companhia. De vez em quando o seu olhar perscrutador percorria a sala a ver se via o motivo que a fez deslocar-se àquele espaço naquela noite. A noite chegou ao fim com uma sensação de cansaço agradável! Foi divertido encontrar amigas com quem já não convivia há tanto tempo, falar dos tempos em que faziam grandes noitadas juntas, dos namoros que tiveram, dos casamentos que aconteceram e que entretanto se desfizeram… riram, divertiram-se, mas aquela sensação de vazio, de querer algo que não acontecia não a deixou sentir-se realmente bem! Riu, falou, acompanhou-as na pista de dança, mas não conseguia deixar de pensar que fora uma noite perdida. Afinal ele não aparecera! Provavelmente era casado e estava em casa com a mulher e com os filhos. É, isso era o mais certo. O melhor que tinha a fazer era continuar a sua vida e esquecer que alguém se lhe dirigira naquele dia. Chegou a casa com uma ligeira sensação de perda, perdera uma noite de sono, de descanso e afinal para nada! Bem, foi agradável encontrar as amigas. Tinham inclusive combinado voltarem a encontrar-se para porem a conversa em dia, mas não deixava de pensar que o objetivo que a levara a sair naquela noite não fora divertir-se, não fora encontrar as amigas… No fundo fora uma noite de enganos. Era isso que sentia. Sentia-se enganada. Não por ele, ele não a convidara a ir lá. Mas por ela mesma. Afinal de que é que estava à espera? O que é que pretendia encontrar? E se ele estivesse com a mulher o que é que faria? Decididamente o melhor era esquecer tudo e dormir!

Quando ele chegou ao clube não se foi sentar, como seria de esperar. Circulou pela sala na esperança de que ela estivesse por lá. Não a viu em lado nenhum e acabou por decidir sentar-se de modo a poder ver a entrada. Se ela aparecesse vê-la-ia. Era um bom estratagema. Se a visse entrar e ela fosse acompanhada por algum homem sempre tinha a oportunidade de se desviar e sair sem que ela o visse. 

Pediu uma imperial e preparava-se para a começar a beber quando ouviu chamar pelo seu nome. Olhou e deu de caras com dois colegas que também não tinham ido ao aniversário de casamento. Nem sequer se lembrara deles, sendo solteiros o mais provável era que não tivessem ido. Devia ter-se lembrado. Devia ter calculado que estivessem por ali. Sem motivos para não se juntar a eles pegou na cerveja e foi-se sentar na mesa em que estavam. Ficou de costas para a entrada, o que não lhe agradou, mas não tinha um motivo válido para apresentar a nenhum deles no sentido de os fazer mudar de lugar. Se ela viesse sempre a poderia vislumbrar no reflexo do espelho que estava à sua frente ligeiramente direcionado para a porta. Quem sabe? Estas coisas por vezes acontecem. Tentou lembrar-se do timbre da sua voz. Se a ouvisse talvez a reconhecesse. Mas chegou à conclusão que ela quase não falara, ficara-se por monossílabos o que não daria para a reconhecer numa conversa. 

Ouviu risos, um grupo de quatro mulheres sentadas numa mesa próxima estavam envoltas numa animada conversa. Riam divertidas e uma, a que estava de costas, podia mesmo ser ela. Se ela se voltasse… Os amigos exigiram a sua atenção, queriam que opinasse sobre o que estavam a dizer. Do que é que estavam a falar? A verdade é que não conseguia dar-lhes atenção. Apenas conseguia olhar para aquele alegre grupo e pensar na possibilidade de de facto ser ela. E se… mas não. Que pretexto é que iria encontrar para se dirigir à mesa onde se encontravam? E o que diriam os amigos se lhes dissesse que queria ir falar com elas? Não, tinha que pensar. Avaliar as opções. Com os olhos percorreu a sala à procura de uma ideia que o levasse até àquela mesa. De repente descobriu, bebeu a cerveja de um trago e levantou-se “Vou à casa de banho” disse. Não tinha propriamente que passar pela mesa onde elas estavam, mas fazia um ligeiro desvio, como se não soubesse muito bem para que lado se dirigir. Encaminhou-se na direção que lhe pareceu a mais apropriada para passar junto da que lhe parecia ser a pessoa que procurava, teve que contornar diversas pessoas que se dirigiam à pista de dança, mas não tinha problema. Assim surgiria junto à mesa mesmo de frente para ela. Sabia que não podia fingir que não conhecia o local, pois tinha-lhe dito que ia aí com regularidade. Ainda lhe pareceu ouvir as mesmas vozes, os mesmos risos, mas quando chegou junto da mesa esta estava vazia. Olhou à volta a ver se via alguma delas. Onde estivesse uma estaria o resto do grupo. Passou pela pista de dança, mas não as viu. Voltou para a mesa, o pretexto da casa de banho não surtira efeito e deixara de fazer sentido. Sentou-se novamente fixando a mesa na esperança de que se voltassem a sentar. Talvez a visse aproximar e conseguisse confirmar se se tratava mesmo dela. 

Ao fim de algum tempo duas delas voltaram a sentar-se. Ela deveria estar a aparecer, agora era uma questão de não desviar o olhar e, se fosse realmente a mesma, reconhecê-la-ia. O empregado aproximou-se trazendo as novas bebidas que entretanto pediram, olhou para ele sorriu e agradeceu. Quando voltou a olhar para a mesa lá estava ela, novamente de costas, novamente falavam e riam divertidas. Desta vez decidiu que não ia arranjar desculpas, disse aos amigos que lhe pareceu ver alguém conhecido que queria cumprimentar e levantou-se. Dirigia-se para a mesa quando elas se levantaram e se dirigiram para a porta. Continuou a vê-la, sempre de costas e a uma distância que não lhe poderia falar. Se ao menos tivesse um nome porque quem chamar, talvez fosse ela, talvez se ouvisse chamar olhasse para trás…

Regressou para junto dos colegas e explicou que a pessoa em questão não era quem ele pensara. Não podia dizer que fora à procura de um fantasma. Alguém que parecia alguém de quem nem sequer sabia o nome pelo que lhe era impossível tentar sequer chamá-la. Regressou a casa com uma sensação de vazio. Devia ter-se aproximado da mesa assim que lhe pareceu que era ela. Talvez num próximo sábado. Em todo o caso, se era de fato ela e se estava na esperança de o ver podia não voltar. Bem já estava a tirar demasiadas conclusões. Porque iria ela ali para o ver? O melhor era esquecer o assunto. Provavelmente nem era ela. Se calhar ela até era casada, quem sabe com filhos e ele ali a inventar esperanças.
 
Os dias passavam e ela sempre que podia voltava a sentar-se no mesmo banco à hora de almoço. “Que disparate” pensava “pelos bocados de conversa que apanhei ele nem sequer estava a trabalhar nesta zona. Veio aqui por acaso” mas, com ou sem esperanças de o encontrar, os seus passos guiavam-na para aquele lugar com mais frequência do que até ali era habitual.

Não conseguia evitar de pensar nela. Será que era habitual sentar-se naquele lugar na hora de almoço? E o que estaria a ler? Não era um livro. Andaria a estudar? Não, não lhe parecia. Já não tinha propriamente idade para estudar. Pensou isto e arrependeu-se de seguida. Que disparate, cada vez mais não há idade para estudar. Não conhecia ele pessoas que passavam a vida a tirar cursos? Daqueles profissionais. Não deixa de ser uma forma de estudo. De valorização profissional ou pessoal, mas implica estudo. Ou podiam ser questões de trabalho. O que a levaria ali àquela hora? Se necessitava estudar não o podia fazer no local de trabalho? Ainda mais que o dia, embora tivesse amanhecido agradável pela hora de almoço mostrava-se carregado, ventoso, desagradável mesmo e o facto é que ela saiu dali debaixo de chuva… Tinha que deixar de pensar nela. Embrenhar-se no trabalho. Os prazos estavam a decorrer e tinha-se comprometido a entregar a obra pronta dentro de poucos dias.

Pelo sim pelo não algumas semanas mais tarde, numa altura em que o trabalho estava mais calmo, decidiu lá voltar. Arranjaria um pretexto. Um assunto para tratar na zona e uma volta por um lugar agradável enquanto esperava pela hora de tratar do que quer que fosse que viesse a inventar. Pensou nas horas que seriam quando a viu pela primeira vez. Ela já estava sentada e ainda esteve durante uns bons minutos enquanto ele falava ao telemóvel. Se tivesse sido há menos tempo conseguia ver o registo da chamada que fez já depois de a ter visto. Agora não, o telemóvel de vez em quando queixava-se com falta de memória e um ou dois dias antes tinha apagado tudo quanto considerou desnecessário. Isso envolvia o registo das chamadas e para além disso teria que se lembrar o dia exato em que tal acontecera. Não, tinha de haver outra maneira. Bem, era hora de almoço. Portanto seriam pela uma duas horas, quando muito perto das três. Não, refletiu, antes das três já estava na reunião que tinha com o cliente logo ela iria entrar às duas. Sem saber onde trabalhava, o que fazia ou qual seria o seu horário, concluiu que a hora de almoço era provavelmente entre a uma e as duas horas. Achando que tinha chegado a uma conclusão lógica dirigiu-se para lá. Depois logo pensaria numa desculpa para se encontrar por ali. Chegou cedo, ainda faltava um bom bocado para a uma, mas assim tinha tempo para inventar uma desculpa.

O trabalho, como na maioria dos dias, não era demasiado. Dir-se-ia que era um trabalho que se faz bem. Não demasiado exigente, mas sem ser tão brando que lhe desse cabo dos nervos, mas nesse dia sentia-se particularmente irritada. Tinha tido uma discussão com uma colega e sentia que precisava de sair dali. Uma caminhada junto ao rio ia fazer-lhe bem! O rio tinha sempre o condão de a acalmar. Era o que mais gostava daquela zona da cidade. Do rio e das longas caminhadas que fazia na sua margem. Saiu e de um modo quase automático dirigiu-se para o mesmo local onde o tinha visto há tempos. Há dias que não ia até ao rio e das últimas vezes tentara evitar aquele lugar sem saber muito bem explicar porquê. Talvez porque não o encontrou no clube! Estava tão convencida que ele lá estaria… Tonta! Só porque alguém lhe perguntou por brincadeira se queria um café pôs-se logo a imaginar coisas. Estes pensamentos fizeram-na sorrir. Abanou a cabeça, como se estivesse a negar alguma coisa e continuou a andar. Pensou na colega e nos motivos porque teria começado a discussão. Disparates como sempre. Era o que a irritava! Por questões de somenos importância a colega iniciava uma discussão. Até parecia que era isso que lhe dava prazer na vida! A adrenalina das discussões parecia ser uma espécie de droga sem a qual a colega já não conseguia passar. Achava sinceramente que ela tinha algum problema e que precisaria de apoio especializado…

“Bom dia” ouviu, olhou para quem a cumprimentava e viu que era ele. Não evitou um sorriso. Um sorriso sincero, nem lhe passou pela cabeça fazer qualquer pergunta. “Bom dia” respondeu. “Então e hoje? Aceita um café?” “Aceito, claro! Mas antes tenho que comer alguma coisa, ainda não almocei”…


AA

07/2012

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